domingo, dezembro 17

A verdadeira Torre de Babel

Arriba, arriba, arriba de una gran montaña de libros (ilustración de Lisa Aisato)
 Lisa Aisato

Natal

É noite de Natal, e estou sozinho na casa de um amigo, que foi para a fazenda. Mais tarde talvez saia. Mas vou me deixando ficar sozinho, numa confortável melancolia, na casa quieta e cômoda. Dou alguns telefonemas, abraço à distância alguns amigos. Essas poucas vozes, de homem e de mulher, que respondem alegremente à minha, são quentes, e me fazem bem, "Feliz Natal, muitas felicidades!"; dizemos essas coisas simples com afetuoso calor; dizemos e creio que sentimos; e como sentimos, merecemos. Feliz Natal!

Préparatifs.... - PENTY DE VAL
Desembrulho a garrafa que um amigo teve a lembrança de me mandar ontem; vou lá dentro, abro a geladeira, preparo um uísque, e venho me sentar no jardinzinho, perto das folhagens úmidas. Sinto-me bem, oferecendo-me este copo, na casa silenciosa, nessa noite de rua quieta. Este jardinzinho tem o encanto sábio e agreste da dona da casa que o formou. É um pequeno espaço folhudo e florido de cores, que parece respirar; tem a vida misteriosa das moitas perdidas, um gosto de roça, uma alegria meio caipira de verdes, vermelhos e amarelos.

Penso, sem saudade nem mágoa, no ano que passou. Há nele uma sombra dolorosa; evoco-a neste momento, sozinho, com uma espécie de religiosa emoção. Há também, no fundo da paisagem escura e desarrumada desse ano, uma clara mancha de sol. Bebo silenciosamente a essas imagens da morte e da vida; dentro de mim elas são irmãs. Penso em outras pessoas. Sinto uma grande ternura pelas pessoas; sou um homem sozinho, numa noite quieta, junto de folhagens úmidas, bebendo gravemente em honra de muitas pessoas.

De repente um carro começa a buzinar com força, junto ao meu portão. Talvez seja algum amigo que venha me desejar Feliz Natal ou convidar para ir a algum lugar. Hesito ainda um instante; ninguém pode pensar que eu esteja em casa a esta hora. Mas a buzina é insistente. Levanto-me com certo alvoroço, olho a rua e sorrio: é um caminhão de lixo. Está tão carregado, que nem se pode fechar; tão carregado como se trouxesse todo o lixo do ano que passou, todo o lixo da vida que se vai vivendo. Bonito presente de Natal!

0 motorista buzina ainda algumas vezes, olhando uma janela do sobrado vizinho. Lembro-me de ter visto naquela janela uma jovem mulata de vermelho, sempre a cantarolar e espiar a rua. É certamente a ela quem procura o motorista retardatário; mas a janela permanece fechada e escura. Ele movimenta com violência seu grande carro negro e sujo; parte com ruído, estremecendo a rua.

Volto à minha paz, e ao meu uísque. Mas a frustração do lixeiro e a minha também quebraram o encanto solitário da noite de Natal. Fecho a casa e saio devagar; vou humildemente filar uma fatia de presunto e de alegria na casa de uma família amiga.
Rubem Braga

sábado, dezembro 16

Pescaria

Pescando nuevos lectores (ilustración de Kait Baird)
Kait Baird

O lobo

Libros de lobos, con lobos… y sin Caperucita (ilustración de Sebastien Mourrain)
Sebastien Mourrain
Nunca houvera um inverno tão frio e comprido nas montanhas francesas. Havia semanas que o ar estava límpido, áspero e frio. Durante o dia, os grandes e inclinados mantos de neve, de um branco baço, estendiam-se infinitamente por baixo do céu azul ofuscante; de noite, a Lua passava, pequena e clara, por cima deles, uma Lua terrível a indicar geada com o seu brilho amarelo, cuja luz forte se tomava azul e sombria em cima da neve, assemelhando-se à própria geada. Os homens evitavam todos os caminhos e particularmente as altitudes; indolentes, soltavam injúrias nas cabanas da aldeia cujas janelas, vermelhas à noite, pareciam, ao lado da luz azul da Lua, revestidas de uma opacidade fumarenta e rapidamente se apagavam.Era um tempo difícil para os animais da região. Os mais pequenos morriam de frio, e mesmo os pássaros sucumbiam à geada, os seus cadáveres franzinos eram presa de lobos e açores. Poucas famílias de lobos ali viviam, e a necessidade impeliu-as a formar sociedades mais firmes. De dia saíam individualmente. Aqui e acolá passava um sobre a neve, magro, esfomeado e alerta, silencioso e acanhado, como um fantasma. A sua sombra estreita deslizava a seu lado, sobre a superfície da neve. Farejando, esticava o focinho bicudo na direcção do vento, e, por vezes, soltava um uivo seco e angustiado. Mas à noite saíam todos em conjunto e circundavam as aldeias soltando gritos roucos. Ali, o gado e as aves encontravam-se bem guardados e, atrás das fortes portadas, as espingardas estavam em posição. Só muito raramente lhes calhava uma pequena presa como um cão, e dois da sua alcateia já tinham sido mortos a tiro.

A geada ainda perdurava. Muitas vezes os lobos permaneciam aninhados, silenciosamente, aquecendo-se uns aos outros e perscrutando angustiados o ermo morto; até que um deles, atormentado pelos terríveis sofrimentos da fome, saltava de repente soltando um bramido horripilante. Então, todos os outros viravam o focinho na sua direcção, tremiam e deixavam escapar um grito terrível, ameaçador e clamoroso.

Finalmente, a parte mais pequena da alcateia decidiu emigrar. Cedo, de manhã, deixaram os seus covis, juntaram-se e farejaram excitados e cheios de medo o ar gelado. Abalaram então, num trote rápido e regular. Os que ficaram ainda os perseguiam com olhos dilatados e vidrados, trotaram alguns passos atrás deles e voltaram devagar para as suas covas vazias.

Os emigrantes separaram-se ao meio-dia. Três deles dirigiram-se para o Jura suíço a leste, os outros rumaram ao sul. Os primeiros três eram animais belos e fortes, mas terrivelmente emagrecidos. A sua barriga clara estava chupada e era estreita como uma correia; no peito, as costelas sobressaíam deploravelmente, tinham as bocas secas e os olhos dilatados e desesperados. Os três conseguiram entrar no Jura profundo. No segundo dia, apresaram um carneiro, no terceiro, um cão e um potro e acabaram por ser furiosamente perseguidos, por todo o lado, pelos camponeses. Na região, rica em aldeias e cidades, espalhou-se o terror e o medo perante os insólitos intrusos. Os trenós do correio foram armados, ninguém ia sem espingarda de uma aldeia à outra. Nesta região forasteira, após um saque tão bom, os três animais sentiam-se muito bem. mas ao mesmo tempo com medo; tornaram-se mais atrevidos do que alguma vez o tinham sido em casa em pleno dia, penetraram no estábulo de uma granja. Mugidos de vaca, o estalar de barreiras de madeira a lascar, o patear de cascos e uma respiração quente e sequiosa encheram o espaço apertado e quente. Mas desta vez houve intervenção humana. Dois deles foram abatidos, o pescoço de um foi atravessado por um tiro de espingarda, o outro foi chacinado com um machado. O terceiro escapou e correu, até cair meio morto na neve. Era o mais novo e mais belo dos lobos, um animal orgulhoso de urna força poderosa e formas ágeis. Arfando, ficou deitado durante muito tempo. Frente aos seus olhos giravam círculos vermelhos de sangue.

Por vezes, soltava um gemido silvante e doloroso. Fora atingido nas costas por um golpe de machado. Mas recuperou e conseguiu levantar-se novamente. Só agora se apercebia da grande distância que correra. Não se viam homens nem casas em parte alguma. Mesmo à sua frente ficava uma montanha imponente e cheia de neve. Era o Chasseral. Decidiu torneá-lo. Como a sede o atormentava, comeu bocadinhos da crosta gelada e dura da superfície da neve.

Do outro lado da montanha deparou imediatamente com uma aldeia. O fim do dia estava a aproximar-se. Esperou num denso bosque de abetos. Então colou-se cautelosamente às cercas dos jardins, seguindo o cheiro dos estábulos quentes. Não havia ninguém na rua. Tímido e cobiçoso, pestanejava entre as casas. Soou um tiro. Esticou a cabeça e alongou o passo para correr, quando se ouviu o segundo tiro. Foi atingido. Um dos lados do seu abdómen esbranquiçado estava manchado do sangue, que corria em gotas grossas e viscosas. Mesmo assim conseguiu escapar, em grandes saltos, e alcançar o bosque do outro lado da montanha. Ali esperou um momento, escutando, e ouviu vozes e passos vindos de duas direcções. Cheio de medo, olhou montanha acima. Era íngreme, arborizada e penosa para subir. Mas não teve outra escolha. Com o fôlego arquejante, escalou a parede alcantilada, e, lá em baixo,á volta da montanha, estendia-se uma confusão de injúrias, ordens e luzes de lanternas. Tremendo, o lobo ferido subiu o bosque de abetos meio escurecido, enquanto o sangue castanho corria lentamente do seu flanco.

O frio abrandara. A oeste, o céu estava enevoado e parecia prometer um nevão.

Finalmente, o animal esgotado alcançou o cume. Encontrava-se agora num grande campo de neve ligeiramente inclinado, perto de Mont Crossin, muito acima da aldeia de que escapara. Não sentia fome, mas sim a dor indistinta e persistente da sua ferida. O seu focinho descaído emitiu um latido baixinho e doentio e o seu coração bateu pesada e dolorosamente, sentindo passar sobre ele a mão da morte como um peso indescritível. Um abeto solitário de largos ramos atraiu-o; ali se sentou e fitou melancolicamente a noite cinzenta de neve. Passou meia hora. Caía agora uma luz vermelho-pálida sobre a neve, estranha e suave.

O lobo levantou-se, gemendo, e virou a sua bela cabeça para a luz. Era a Lua, gigante e vermelha de sangue, que nascia a sudeste e subia lentamente pelo horizonte enevoado. Há semanas que não era tão grande e vermelha. Tristemente, o olho do animal desfalecido fixou o disco baço da Lua, e, mais uma vez, um fraco uivo rompeu penosa e silenciosamente na noite. Seguiram-se então luzes e passos. Camponeses com sobretudos fortes, caçadores e rapazes jovens com gorros de peles e grosseiras polainas passavam pesadamente pela neve. Soaram gritos de júbilo. O lobo moribundo fora descoberto, dispararam dois tiros sobre ele e ambos falharam. Então viram que já estava prestes a morrer caíram-lhe em cima com paus e cacetes. Ele ja não sentiu nada.

De membros quebrados, carregaram-no montanha abaixo até St. Immer. Riam-se, gabavam-se, já se deliciavam com a aguardente e o café, cantavam e praguejavam. Ninguém reparou na beleza da floresta coberta de neve, nem no brilho do planalto, nem na Lua vermelha pendurada por cima do Chassera, cuja fraca luz se quebrava nos canos das espingardas, nos cristais de neve e nos olhos mortiços do lobo abatido.

Hermann Hesse

sexta-feira, dezembro 15

Acabando de acordar

Los que leen, leen mucho. Los que no leen, no leen nada (ilustración de Elisa Ansuini)
Elisa Ansuini

O livro tem futuro?

O que vai acontecer com o livro? Ele continuará existindo no papel ou apenas digitalmente? Neste caso, não acabará sendo ultrapassado por mídias mais modernas? Muitos acham que pelo fato de eu ser autor, editor e historiador tenho a obrigação de saber o que o futuro reserva ao livro.

Confesso aos interlocutores, um pouco contrariado, não ter instrumentos adequados para prever o futuro. Tento explicar que o historiador é, por profissão, um camarada modesto: ele tenta explicar o que já aconteceu, e por vezes até elabora uma narrativa coerente. Não tem a pretensão dos economistas que insistem em fazer previsões... e quase invariavelmente erram. Nem dos adivinhos de plantão que a cada final de ano cometem a proeza de profetizar sobre coisas óbvias e genéricas: garantem que ocorrerá a queda de alguma aeronave; que um artista muito famoso morrerá; que guerras continuarão assolando o Mundo Árabe e a fome não abandonará a África subsaariana (minha avó Sara é capaz de fazer “previsões” como essas...).

Já o historiador, no máximo consegue explicar os “comos” do passado, raramente os “porquês”. E esses são os bons profissionais. Pior são aqueles que não têm pudor em alterar os fatos acontecidos para que se encaixem melhor em suas teorias. Historiador que se preza também não se dispõe a produzir ficção fingindo que é História, ou, em um neologismo descarado, uma “reportagem do passado”... Nada disso. O historiador é modesto, mas é sério.

Ele sabe que o futuro é difícil de prever, muito difícil. E o motivo é simples: olhando para trás temos clareza sobre o caminho percorrido, ele nos parece lógico, óbvio até. Olhando para frente nosso cenário é de muitos trajetos, todos aparentemente viáveis. Qual deles será o mais adequado, qual nos levaria a um beco sem saída? Não sabemos.

liquidnight:
“ Werner Bischof - Reading by candlelight - Rovaniemi, Finland, 1948
From Werner Bischof Pictures
”
Werner Bischof
Que historiador poderia ter previsto que em 1985 que teríamos um presidente eleito pelo Congresso e morto antes de tomar posse, pelo menos dois outros depostos antes de completar o mandato, um intelectual, um operário e uma mulher eleitos pelo voto direto? Quem sonharia em ver banqueiros, grandes empresários e políticos importantes atrás das grades, marqueteiros denunciando antigos chefes, governadores desonestos condenados, candidatos a candidatos tremendo de medo? Ninguém. 

Mais ainda: há meio século imaginava-se para o século XXI o tráfico urbano com veículos zanzando nas alturas, aviões supersônicos ligando os continentes, viagens rotineiras para a Lua, um mundo de robôs nos servindo em tudo e para tudo. Nada disso aconteceu. Por outro lado ninguém previu algo que provocou mudanças radicais na vida cotidiana dos habitantes do planeta: a Internet, com celulares, mídias sociais e todo o resto. É pouco?

Assim, o prudente é seguir um conselho que me dava Francisco Iglesias, talentoso e machadiano historiador mineiro, já falecido: “Não se arrisque a fazer previsões para o ano que vem, fale sobre o que vai acontecer daqui um ou dois séculos. Mesmo que erre, nenhum leitor estará aqui para cobrar seus enganos”. Seguirei o sábio ensinamento. Cobrem meus acertos ou erros em 2117. E aí vai minha primeira previsão:

O livro vai continuar existindo.

E a segunda: haverá leitores de livros.

Não bastassem essas duas, arrisco uma terceira: editoras continuarão sendo fundamentais. ?
Contudo...

A era de Gutemberg está acabando. A leitura de livros como hábito universal (estamos, é claro, falando de pessoas plenamente alfabetizadas e com acesso ao livro, comprando ou tomando emprestado de bibliotecas) está se esgotando. Países desenvolvidos tiveram sua fase de cultura oral, que foi, em grande parte, substituída pela cultura escrita. Países como o nosso nem chegaram a ter um período com prevalência da cultura livresca: saltamos diretamente do oral para o virtual... Com isso, a maior parte da população se satisfaz com truísmos repetidos à saciedade, com bobagens pomposas, com pseudoverdades profundas deslocadas de seu contexto circulando pelo ar que nos cerca (tem gente que acha até que eles colaboram na poluição das cidades).

Mas sempre haverá uma elite cultural, originária de diferentes extratos socioeconômicos da população, que lerá, aprenderá coisas com profundidade e será a criadora de softwares que serão utilizados pela manada. Esta continuará postando bobagens dentro de um universo de referências criado pela elite cultural, gente criativa. Os leitores de livros, enfim... 

quinta-feira, dezembro 14

A melhor cabana

Acampada lectora (ilustración de Marie Caudry)
 Marie Caudry

Ler e crescer

bibliolectors:
“What novel are you reading? / Qué novela está leyendo? (ilustración de Zenina)
”
Zenina
O indivíduo que lê, além do conhecimento adquirido, seja pedagógico ou ficcional, será um cidadão capaz de decisões conscientes. Isto é, será capaz de contextualizar a sua vida, as suas escolhas. E, mais que isso: será capaz de ser dono de opinião perante o estado/status das coisas.

E é esta, a meu ver, a colheita mais importante: o ser cidadão construído através de seus conhecimentos.

Quando criança, ao observar a conversa entre adultos ( fui uma criança muito curiosa) ,me lembro de que tinha um forte desejo: o de um dia ter a minha opinião. Não a que meus pais tinham, mas a minha.

Se hoje aqui escrevo é porque o consegui. Não digo que ela é verdade absoluta e nem que não a mudarei, mas com certeza, adquiri conhecimento e vivência para tê-la: minha própria!

1
– um dia minha sobrinha, Laura, me perguntou o porquê de eu preferir livro ao cinema.

Gosto muito de cinema, mas o livro me proporciona o uso de minha imaginação. Os meus cenários, as trilhas sonoras das histórias que leio são parte minha e não a mostrada pelo diretor. Além de desenhar os personagens e de ter os diálogos e a narrativa mais próximos. Além de, às vezes, em segredo, me colocar na trama. Na época, ela tinha assistido ao filme do Harry Potter. Depois da nossa conversa, ela leu todos os livros da saga. Mais uma leitora!

2- em 2010, fiz parte de um grupo de Leitores Itinerantes. Líamos Carlos Drummond de Andrade, nas escolas do ensino fundamental, da cidade.

Tinha acabado de ler E, agora José quando uma aluna me disse que já estava vendo um homem sentado em uma cadeira de rodas, numa esquina, se perguntando: – E, agora?

Outros acontecimentos, neste projeto: – Se eu colocar Itabira, no Google, consigo ver a cidade onde ele nasceu?; – Na biblioteca tem livros dele? Vou fazer a carteirinha, hoje mesmo; – Eu também; – Eu também!; – Nossa! Vocês também são escritores e não estão mortos?

Além de apresentar o nosso Poeta aos alunos, incentivamos a leitura e, acredito, a escrita, pois éramos escritores, estávamos vivos e morávamos na mesma cidade deles (Santo André-SP).

3- há pouco tempo: você só lê e escreve ou lava louça, limpa a casa?

Sim, faço tudo e mais um tanto. E, assim: mais uma escritora diante da normalidade da vida.

Hoje, não faço mais leituras para crianças, mas proporciono, em meus projetos líteroculturais, contações de histórias; oficinas de criação literária e oficinas de leitura crítica, sempre com profissionais de excelência. Divulgo livros e autores no facebook e em palestras. Resultado: os comentários nas postagens e nos e-mails que recebo: -Estou lendo; Estou escrevendo um livro… Fora os originais que me são entregues.

Sim, a leitura transforma, acrescenta e faz crescer moralmente, culturalmente e desperta a criatividade. Também, uma pessoa que lê terá um vocabulário e conhecimento que o fará ser um cidadão mais completo. Nunca só mais um.

Ah! Menti: leio para os meus netos, Arthur e Cesar.

Rosana Banharoli

Livro conquista até monstros

Assim começa o livro...

Não faz muito tempo que aquela história aconteceu — menos do que costuma durar uma vida, e quão pouco é uma vida quando ela já está terminada e já se pode contá-la em poucas frases e só ficam na memória cinzas que se soltam à menor sacudida e voam à menor lufada —, e no entanto hoje ela seria impossível.

Refiro-me sobretudo ao que aconteceu com eles, com Eduardo Muriel e sua mulher, Beatriz Noguera, quando eram jovens, e não tanto ao que aconteceu comigo e com eles quando eu era jovem e o casamento deles uma longa e indissolúvel desdita.

Este último, sim, continuaria sendo possível: o que aconteceu comigo, já que também agora acontece, ou talvez seja a mesma coisa que não termina. E igualmente poderia ser, acredito, o que aconteceu com Van Vechten e outros fatos daquela época. Deve ter havido Van Vechtens em todos os tempos e não cessarão e continuarão existindo, a índole dos personagens não muda nunca, ou assim parece, os da realidade e os da ficção, sua gêmea, se repetem ao longo dos séculos como se as duas esferas
carecessem de imaginação ou não tivessem escapatória (ambas obra dos vivos, afinal de contas, talvez entre os mortos haja mais inventividade), às vezes dá a sensação de desfrutarmos um só espetáculo e um só relato, como as crianças pequeninas. Com suas infinitas variantes, que os disfarçam de antiquados ou novos, mas que são na essência sempre os mesmos. Também deve ter
existido, portanto, Eduardos Muriel e Beatrizes Noguera em todos os tempos, para não falarmos nos comparsas; e Juanes de Vere aos montes, assim me chamava e assim me chamo, Juan Vere ou Juan de Vere, conforme quem diga ou pense meu nome.

Minha figura não tem nada de original. Na época ainda não existia divórcio, muito menos se podia
esperar que viesse a existir um dia quando Muriel e sua mulher se casaram, uns vinte anos antes de eu me imiscuir em suas vidas, ou melhor, foram eles que atravessaram a minha, apenas a de um principiante, como se diz. Mas desde o momento em que você está no mundo começam a lhe acontecer coisas. Sua frágil roda incorpora você com ceticismo e tédio e o arrasta sem a menor vontade, pois é velha e triturou muitas vidas sem pressa à luz da sua vigia folgazã; a lua fria que cochila e observa com uma só pálpebra entreaberta conhece as histórias antes mesmo de acontecerem.

E basta prestar atenção em alguém — ou lhe lançar um olhar indolente —, e esse alguém não poderá mais escapar, mesmo que se esconda e permaneça quieto e calado e não tome iniciativas nem faça nada. Mesmo que ele queira se escafeder, já o terão visto, como um vulto distante no oceano, que não se pode ignorar, do qual é preciso se esquivar ou se aproximar; ele conta para os outros, e os outros contam com ele, até que desaparece. Também não foi essa minha circunstância, afinal. Não fui nem um pouco passivo, nem fingi ser uma miragem, não tentei me fazer invisível.

quarta-feira, dezembro 13

Pescador de imaginação

Entre Lápis e Pincéis: Julho 2016

Universidade abre arquivos de García Márquez

Mais da metade de um arquivo de 27 mil páginas referentes ao escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez foi liberada para uso público gratuito, informou o jornal The New York Times. O material em questão envolve diversos manuscritos, fotografias, roteiros e cartas, além de 22 cadernos de anotações pessoais e de memórias do prêmio Nobel de Literatura, tudo disponível em inglês e espanhol.

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A iniciativa partiu do Centro Harry Ransom, da Universidade do Texas, que adquiriu o arquivo literário do autor em 2014 por 2 milhões de dólares. A medida chama a atenção pelo fato de a obra ainda estar sob proteção dos direitos autorais.

"Muitas vezes, tem-se uma visão limitada da propriedade intelectual, com a ideia de que o uso acadêmico ameaça ou diminui seu interesse comercial", disse ao jornal Steve Enniss, diretor do Harry Ransom Center.

"Agradecemos a família de Gabo por liberar o arquivo e reconhecer esse trabalho como uma prestação de serviço a seus leitores em todo o mundo", acrescentou, usando o popular apelido pelo qual Garcia Márquez é conhecido.

Desde 2015, quando foi aberto para pesquisas, o arquivo do escritor colombiano se tornou uma das coleções mais circuladas da instituição, um fenômeno que agora deverá se expandir ainda mais.

"Qualquer pessoa com acesso à internet pode ter uma visão aprofundada do arquivo de García Márquez", disse Jullianne Ballou, bibliotecária do projeto Ransom Center. "Abrangendo mais de meio século, o conteúdo reflete a energia e a disciplina de García Márquez e revela uma visão íntima de seu trabalho, família, amizades e política."

O escritor alcançou renome internacional graças ao uso do chamado "realismo mágico”, especialmente em romances aclamados como 100 anos de solidão e O amor nos tempos de cólera. Após sua morte em 2014, ele chegou a ser descrito pelo presidente Juan Manuel Santos como o "maior colombiano que já viveu".

Garcia Márquez começou a carreira de escritor como jornalista e não teve medo de tecer críticas tanto contra políticos colombianos como contra estrangeiros. Um crítico ardente do capitalismo desenfreado, também se opôs ao que ele apontou ao longo de sua vida como um imperialismo arrebatador por parte do governo dos Estados Unidos.

Seus laços com o partido comunista da Colômbia foram inclusive motivo para que ele fosse proibido de entrar nos EUA por três décadas. Ironicamente, Garcia Márquez é o romancista favorito do ex-presidente americano Bill Clinton, que uma vez o chamou de "o mais importante escritor de ficção em qualquer idioma desde a morte de William Faulkner".

Oceano para navegar

Hay tanto y tanto y tanto por leer que se podría llenar un océano de palabras (ilustración de Rogelio Naranjo)
Rogelio Naranjo

Este Natal

— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava­os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.

— De qualquer maneira, este Natal é fogo — voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se disfarçam em Papai Noel, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de um astronauta? Pode ser de verdade, pode ser de mentira; acabou-se a confiança no próximo.

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De resto, é isso mesmo que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre”.Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino infante.

O gerente de uma loja de brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores, pois o vende­dor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher objetos ao alcance da mão rápida.

O punguista é a delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau.

Triste é desconfiar da saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Acontece — informa um detetive, que nos inocula a suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de pé atrás, que nos ensina o desamor.

E mais. Não aceite o oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu embrulho.

Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta, primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor, munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia.

Eis os conselhos que nos dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo. Francamente, o melhor seria suprimir o Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou — idéia de João Brandão, o sempre inventivo — comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança de Deus.
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, dezembro 12

Enquanto espera a água ferver...

Nanette Regan

O progresso e a fossa

Deve acontecer com todo mundo. Em momentos de fossa, qualquer tipo de fossa, o pensamento positivo mais eficaz é a comparação que qualquer um de nós pode fazer com o passado, não o passado remoto, mas o recente, digamos, de 15, 20 anos atrás.

Não havia internet, computador nem celular. Com viveríamos sem isso? Bem verdade que a grande maioria ainda não teve acesso aos três símbolos da modernidade. Mas quando se pensa que até o século 19 não havia eletricidade, precisava-se de velas e lamparinas para iluminar a noite, e o cavalo era o meio de transporte mais confortável e rápido, não mais se poderia invejar nem mesmo os grandes do mundo, como Napoleão, Bismark, Garibaldi e a primeira geração dos Rothschild.

Recuando mais ainda, lembremos que Júlio César chorava quando pensava que Alexandre, mais moço do que ele, já havia conquistado todo o mundo conhecido. Mas os dois não tinham sequer papel higiênico para suas necessidades.

queerliness:
“ ‘Reading after Lunch’ by Sara Bryant
”
Sara Bryant
Jesus Cristo teve famoso triunfo quando entrou em Jerusalém, pouco antes de sua paixão e morte. Mas estava montado num jumento atrofiado, como todos os jumentos daquela região. E fez o seu mais importante sermão do alto de uma montanha, sem uso de alto-falantes ou microfones --mesmo assim foi ouvido e continua ouvido até hoje.

Meditar sobre as deficiências do passado pode curar a fossa do presente. No meu caso, às vezes cura, às vezes não. Depende do tipo de fossa. Quando penso no milhão de dólares que nunca tive, louvo a lâmpada elétrica que acendo em minhas noites e me consolo. Os milionários do passado não a tiveram.

Mas quando penso nas mulheres que desejei e não tive ou perdi, mergulho na fossa e descubro estranha, inexplicável doçura nela.
Carlos Heitor Cony

segunda-feira, dezembro 11

Leitura não tem idade

bibliolectors:
“What novel are you reading? / Qué novela está leyendo? (ilustración de Zenina)
”
Zenina

O joio que sobrou do trigo

O que indispõe Deus com os poetas dos quais recebe perguntas e invocações é a desleixada métrica, além da vulgaridade das rimas. Ele continua fiel ao parnasianismo, que criou com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac.

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O novo em arte é quase sempre uma habilidosa forma de repetição.

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bibliolectors:
“Introspection reader / Ensimismamiento lector (ilustración de Sterling Hundley)
”
Somos nosso filho predileto: nos protegemos, nos mimamos, nos enaltecemos, somos o sumo e o suprassumo. Pena que no dia da nossa morte não possamos nós mesmos fazer nosso elogio.

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Chamar-me de idiota é algo que ninguém pode fazer com tanta propriedade quanto eu mesmo.

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Quem diz não ter palavras para exprimir certos sentimentos talvez não tenha nenhum para exprimir.

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Minha vontade anda apática, minha volúpia raquítica, minha situação dramática e minha fortuna crítica.

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Vivemos nos queixando do tempo que perdemos com as pequenas coisas. E nunca pensamos no tempo que perdemos com essas queixas.

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Vinícius de Moraes era um poeta envelhecido em tonéis de carvalho.

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Se fosse simples viver, não haveria tantas filosofias.

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A melhor mensagem de boas-vindas que pode haver em uma casa é o gato gostosamente escarrapachado no sofá.

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Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia não há mais quem o encontre.

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Se pudessem ver como se infla tua vaidade quando dizes que és o mais vil de todos os seres.

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Sou um homem que valeria pelo espírito, se por ventura ou porventura o tivesse.

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O Diabo é quem melhor conhece os escritores: querem dar almas de segunda em troca de obras de primeira.

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Os poetas românticos não beijavam. Pousavam os lábios sobre lábios virgens e desmaiavam em êxtases angelicalmente carnais.

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Para ser épico, um poema concretista precisa ter pelo menos dez andares.

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A literatura me ensinou a chorar na terceira pessoa.

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Que pretensiosas são as frases curtas com reticências no final…

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Sou um homem que escreveu a vida inteira. Não sou um escritor. Escritor foi o que eu quis ser.

***

Os poemas concretistas são agora fiscalizados pelo Inmetro.
Raul Drewnick

domingo, dezembro 10

Pronto para o Natal

Nanette Regan

Verdade dos livros e da vida

danskjavlarna:
“Here’s a precursor to tablets and smart phones destroying human communication, from Humorous Poems by Alfred Ainger, 1893. The caption says, “Reading,—and wept.”
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”
Humorous Poems. Alfred Ainger (1893)
As coisas que nos tocam aos vinte não são necessariamente as que nos tocam aos quarenta, e vice-versa. Isso é verdade para livros e para a vida 
 A. J. Fikry, "A vida do livreiro"

Sonho de livraria

En medio del bosque hay una librería que fomenta la lectura a todos los animales del bosque (ilustración de Cale Atkinson)
 Cale Atkinson

Eu, leitor, confesso

Para mim, a leitura transformou-se de obrigação em paixão, vício, fuga, etc, etc, etc. Obrigação porque agora me lembro que o pai (usando o tom de Carlos H. Cony) insistia, durante a infância/adolescência, na leitura – imaginem! – até de enciclopédias (Conhecer, com fascículos distribuídos em bancas nos anos 70). Como era maçante – mas também no campo, época de semear é feia, cheira mal, e, de repente, que transformação! Eis que chega a colheita – florida, cheirosa, rica e prazerosa.

Leer en libertad (ilustración de John Ferenov)
John Ferenov
Sim, sou um leitor amador, com certa lógica (minha), em que uma palavra puxa outra; um autor, outra autora; um filme, um livro; ou ao contrário, desde que essa leitura traga inflamação (calor, rubor, tumor e dor), que transporte não só para outros sítios, mas principalmente pra dentro de outras personalidades, atos (aqueles que não posso ou quero), pesquisa das sensações humanas. Ah! Que delírio ler um autor contando aquilo que passou ou gostaria de ter passado, por um lado tão inusitado que te joga contra as paredes do auto-conhecimento.

Bem, acima de tudo, leitura pra mim é pura distração, diversão, passatempo, hobby, "previdência privada" (pro futuro, tanto os não lidos quanto os lidos, que espero repetir em busca de sensações maiores).

Onze pequenos e grandes prazeres de um leitor amador:

1. Entrar numa livraria, abrir um livro de poesia, cair naquele poema que parece que foi escrito naquele momento e diretamente pra você. Ex.: Paulo Bonfim, "Epitáfio para o meu silêncio".

2. Ler Henry Miller, Trópico de Câncer, pensando ser livro de "sacanagem" e descobrir, no fim, talvez a melhor definição de pra que servem os artistas e a arte.

3. Nunca ter lido Rubem Braga e, na primeira vez, ler a crônica "Os Pés do Morto".

4. Não admitir sair de uma livraria sem comprar nada, comprar um autor desconhecido, capa interessante, chegar em casa, começar a ler, não parar, ir até o fim, adorar a simplicidade e a maravilha da estória (A Máquina, de Adriana Falcão).

5. Ter lido um romance (que era o único largado num rancho de pescaria), nunca mais encontrá-lo e após sete anos receber um telefonema de um sebo pra ir buscá-lo (Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sábato).

6. Imaginar-se no amor de Florentino Ariza e Fermina Daza naquele cruzeiro no caribe colombiano (O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel G. Marquez).

7. Sentir-se como se fosse o próprio Paul Auster em O Inventor da Solidão.

8. Saber que Martha Medeiros é viva, tem a mesma idade que você, está apenas a mil quilômetros e pode a qualquer momento lançar outro livro.

9. Abrir a Folha de S. Paulo de sexta-feira, procurar na ilustrada a crônica do Carlos H. Cony como primeira leitura da manhã, tendo certeza de que não será sobre o FHC.

10. Assistir a um filme argentino na TV, desconhecido, ser atraído por citações poéticas, gravar os créditos, descobrir Mario Benedetti. Na mesma hora comprar pela internet o que encontrou (Antologia Poética), receber depois de três dias, abrir, esganado, esfomeado, cair no poema "Intimidade".

11. Todos os próximos que certamente estão por vir...

Ricardo Wagner Modes

sábado, dezembro 9

Leitura espionada

Lucy Fleming

A chaminé e a porta

A grande vantagem da criança sobre o adulto é o direito, a vontade e a necessidade que ela tem de perguntar tudo. Com o passar do tempo, esse direito, essa vontade e, sobretudo, essa necessidade vão acabando. Daí que o velho, em geral, nada mais pergunta.

Para quê? A quem? Evidente que o velho também cultiva suas dúvidas. E como qualquer outro sábio, sabe que pouco sabe. Tive a prova disso na véspera de Natal. Veio de Washington um netinho que acredita em Papai Noel e sabe que o bom velhinho desce pela chaminé, pois nos subúrbios da capital americana toda casa tem uma chaminé exatamente para facilitar a vinda de Papai Noel até a sala onde está armada a árvore de Natal.

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Avisaram-me que não decepcionasse o guri, armei a árvore da melhor maneira possível, admito que ficou imponente, faiscando tão forte que suas luzes, no profundo da noite, se refletem nas águas da Lagoa.

Pensei que obrara bem e que tudo estava resolvido. O menino veio, aprovou a árvore com entusiasmo, e perguntou onde estava a chaminé. Bolas! Eu pensara em tudo, menos em chaminé!

Seria complicado explicar que na Lagoa as casas não precisam de chaminé. E que o Papai Noel, quando chega ao Brasil, depois de ter descido e subido em tantas chaminés pelo mundo afora, vem muito cansado e entra pela porta mesmo.

Ele ficou maravilhado. Um Papai Noel que entra pela porta das casas, sem necessidade de se esfolar pelas chaminés! Não era à toa que na escola maternal que frequenta, em Washington DC, o Brasil tem fama de ser um país onde certas coisas acontecem.

Evitei que o assunto se aprofundasse. Mas invejei o garoto que, além da coragem de perguntar, tivera a sabedoria de concluir. Vergado aos anos, fico eu com meus espantos e dúvidas, sem ter a quem perguntar por que o Papai Noel nunca veio para mim, nem pela chaminé que nunca tive nem pela porta que nunca soube abrir.
Carlos Heitor Cony, "O harém das bananeiras"

sexta-feira, dezembro 8

Hora do café!

A woman reading her favorite book and drinking coffee.

Arma do bem e eficaz

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Você quer armas? Estamos em uma biblioteca! Livros! As melhores armas do mundo!
Doctor Who

Essa já acordou embalada

cobratoes:
“Julia Wertz
”
Julia Wertz

Solidário James Amado

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Dizia-se que não era um homem de temperamento expansivo, como o irmão, o consagrado romancista Jorge Amado. Embora soubesse que estivesse 000mal de saúde, fiquei sem graça quando soube que teve uma morte em casa, vítima de falência múltipla dos órgãos. Foi em Salvador, num dia de domingo. Também escritor, pesquisador e romancista, esse irmão caçula de Jorge Amado. .

Segundo Paloma, sobrinha de James, aquele domingo de cores cinzentas foi de dor e saudade.

— Estou completamente destroçada. Meu pensamento está todo voltado para minha tia Luíza, mulher formidável, e para meus queridos Janaína, Inaê, Maurício e Fernanda, mais que primos, irmãos muito amados.

Terceiro e último filho de João Amado de Faria e Eulália Leal Amado, desbravadores da Região Cacaueira Baiana, na época da conquista da terra, James Amado nasceu em Ilhéus, em 1922. Era o último irmão vivo de Jorge Amado. Membro da Academia de Letras da Bahia desde 1990, ocupando na tradicional instituição a cadeira de número 27, cujo patrono é Francisco Rodrigues da Silva e que antes de James foi ocupada pelo jornalista Antonio Loureiro.

Como ficcionista, escreveu apenas o romance Chamado do Mar e o conto “A Sentinela”, incluso nas antologias Panorama do Conto Baiano e Histórias da Bahia. Com produção pequena, James teria condições de permanecer no panorama da literatura contemporânea brasileira, constituída de autores com legado extenso na escrita de boas qualidades? Ressalte-se que o português Antonio Nobre escreveu apenas Só e Augusto dos Anjos o Eu, até hoje os dois poetas ganham leitores e novos analistas de um legado pequeno, mas expressivo. Manuel Antonio de Almeida foi outro que escreveu apenas Memórias de Um Sargento de Milícias, obra-prima do romance picaresco.

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Chamado do Mar tem como cenário o Pontal dos Ilhéus, no Sul da Bahia, armado com o conhecimento de sua geografia exterior pelo autor para a exibição de conflitos interiores e sociais vividos por pescadores numa colônia de pesca. Um dos romances mais vigorosos da ficção brasileira no século XX tem como motivação o mar e sua gente. É narrado com a técnica moderna dos ficcionistas norte-americanos, daqueles que trouxeram para a estrutura do romance após a Segunda Guerra Mundial o uso do contraponto e do tempo desmembrado em fragmentos para expor situações livres da sequência linear, com base nos acontecimentos extraordinários pontuando a narrativa. Trata-se de um romance com intenso cheiro de maresia. Toca nas feridas sociais, e sua técnica moderna de desenvolver o tema guarda até hoje o segredo da perene atualidade.

Casado três vezes, suas esposas foram Jacinta Passos, Gisela Magalhães e Luiza Ramos, filha do escritor Graciliano Ramos. Deixou quatro filhos: Janaína, Inaê, Maurício e Fernanda. Certa vez, ele disse ao poeta Florisvaldo Mattos:

– Somos da mesma região e temos tradição de luta e esforço pelas causas sociais.

Florisvaldo Mattos lembra:

– Ele era uma criatura afetuosa e solidária. Toda semana, nós nos encontrávamos na “Ceasinha”, nas quintas do Edinho, para conversar.

Da última vez que passou por minha terra natal, mandou um recado pelo poeta Telmo Padilha que queria me conhecer. No Lord Hotel, onde estava hospedado, perguntou-me durante o almoço como eu ia na minha produção literária. Na conversa que mantivemos animada, incentivou-me na difícil e prazerosa travessia das letras. Adiantou que iria recomendar-me ao editor Jorge Calmon, assim que voltasse a Salvador, para que meus textos fossem publicados no jornal “A Tarde” .

Isso de fato aconteceu. Durante alguns anos publiquei artigos de opinião no primeiro caderno e crônicas na seção “Ultra Leve” do valoroso jornal nordestino. James Amado prefaciou meu primeiro livro de crônicas. Era um solidário companheiro das letras.

quinta-feira, dezembro 7

O 'dono' da chave

O brasileiro lê muito

Arriba, arriba, arriba de una gran montaña de libros (ilustración de Lisa Aisato)
Lisa Aisato
O brasileiro não lê pouco, pode ler mal ou não comprar livros como se gostaria, mas a média de leitura nacional é muito boa, do contrário, não seríamos uma das nações que mais frequenta redes sociais no mundo, onde se usa o texto como a principal forma de comunicação, e nem teríamos tiragens de best-sellers na casa dos milhares quando não milhões.

Mas vou mais e lembro-me dos cinco bilhões de reais que representam o mercado brasileiro no cenário mundial, sendo, portanto, um dos maiores mercados do setor editorial em faturamento. Número que já oscilou na casa dos seis bilhões quando o poder público, em especial o federal, mantinha vivo seus fundamentais programas de compras.

A reflexão necessária é de que há uma espécie de preconceito aberto e declarado, como se chamar o povo de burro fosse regra, ou que as pessoas não compram livros nem leem aquilo que certa elite gostaria porque são ignorantes. Também há a hipótese de que a desinformação sobre o mercado do livro e os índices de leitura seja gigantesca, e que mesmo bons jornalistas e profissionais da comunicação têm dificuldade em encontrar dados que derrubem esse conceito, ou preconceito, sobre os índices de leitura.

Não podemos, porém, deixar de observar que para o tamanho do país e da população, se comparados a vizinhos como Argentina, nossa leitura per capta é de fato tímida. E que a leitura poderia ser melhor, visto, por exemplo, a ausência de leitores com seus livros abertos em lugares públicos como em metrôs e ônibus. Mas, para isso, é bom não esquecer que nas universidades muito ainda se usa, infelizmente, as tais cópias “xerox”, como substituição ao livro, e que essas cópias não entram nos números, tampouco cálculos estatísticos, ou sequer passam nos olhos ávidos de quem procura um leitor de livro aberto numa estação de metrô.

Em verdade, e aqui uma opinião mais do que honesta, é de que embora leiamos muito, a realidade é de que lemos mal, e muito mal. O fato de encontrarmos livros infantojuvenis adotados em escolas com erros de pontuação e histórias frouxas, ruins, é um comprovador. Também é comum encontrar autor que se autopublica dizendo vender bem a cada nova tiragem ou novo título, e depois descobrirmos que seus leitores – e eles existem como se comprova na gráfica ou nas vendas pelo KDP da Amazon –, não percebem como fracas são suas histórias e como confusos são seus pensamentos ou mesmo a organização do seu texto.

Há, também, nesse deserto do texto ruim, livros impressos fora do país, mas vendidos a preços impressionantemente baixos, livros estes muitas vezes com histórias sofríveis e ilustrações deprimentes. E ainda há os títulos traduzidos às pressas ou por maus tradutores – e aqui entra a literatura adulta de qualquer área – como outro sinal da má qualidade do que chega ao leitor, que, por sua vez toma aquilo como uma média do que pode ser escrito e do que deve ser lido. Em outras palavras, o referencial do que é bom em escrita e leitura, no Brasil, é um desespero de tão ruim.

Em outros artigos defendi e sigo defendendo a importância da escrita criativa e suas oficinas, pois, como referência, nos EUA pós-guerra, esse foi um dos instrumentos para não só movimentar o mercado norte-americano como por outro lado reforçar a educação fora das escolas.

Enquanto isso, neste Brasil continental de história tão amiga a elites que preferem a escravidão à liberdade, talvez não devesse soar estranho afirmar que o povo brasileiro simplesmente não lê porque é ignorante. Mas não sou da elite, sou do povo, do estudante da escola pública, e dos otimistas, pois gosto de pensar que apesar das elites e de nossa história de golpes e massacres, o povo ainda lê, e ainda quer ler mais e melhor. E, quem sabe, talvez aí esteja a tarefa dos editores, autores e agentes do mercado: superar o preconceito e fazer mais e melhor pelo leitor brasileiro.

Paulo Tedesco

quarta-feira, dezembro 6

Café da manhã especial

danskjavlarna:
“From Fliegende Blätter, 1941.
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Fliegende Blätter (1941)

Cataratas do céu

Quando não se pode tomar decisões só se tomam decisões erradas
Autor ilegível
Levaram o menino a ver o aeroporto. Vestiram-no de domingo, engomaram sua alma, lustraram seu pé. De mão dada, ele entrou no chapa. O tio desconferiu uma riqueza de notas. Tudo em sorrisos, como se tudo aquilo fosse cumprir de promessa.

O menino era desses que a guerra deslocou não só de endereço mas de vida. Vinha de lá, onde a terra desfaz fronteira com outras terras. Nesse seu lugarinho tudo era sossegoso, até o tempo ali ganhava vastas preguiças.

Agora, em casa dos tios, o menino só encontrava espantos no rumor da cidade. Certa vez, o rapaz entrou em casa, afogueado: um avião atravessara as nuvens, em cima. O tio lhe perguntou: “mas nunca viu, nem cheirou barulho no ar?” Nada. O céu de lá era muito desqualificado, nele nunca riscara nenhum avião.

Com o tempo, a família começou a se preocupar com a cabisbaixeza da criança, sempre de olhos minhocando o chão. No início, ele nem queria sair de casa. O tio se maçava, o coração lhe subia à cabeça.

- Um dia esse miúdo vai-se chocar com a vida!
“Deixa-lhe, marido”: era conselho da velha tia. Ela entendia de feridas e sofrências. Quando o pão é magro quem escasseia é o homem. Sabe-se o que aquele menino passara, lá de onde vinha? O marido que se dispensasse. Aquilo era assunto de ternura e mãe.

La lectura te atrapa desde la infancia (ilustración de Kayla Harren)
 Kayla Harren
O tio reagia: “como deixo? Será que esse menino não tem jeito nem para viver? Sempre e sempre de olhos no chão! Esse mufana foi é mal-olhado. Até me arrepia. parece o olho dele tem medo da pálpebra.

Uma noite, o tio estremunhou-se. Acordou a mulher e lhe revelou suas sonâmbulas reflexões: “eu sei o que sucede com ele, esse nosso sobrinhito não é um deslocado de guerra. A guerra é que deslocou-se para dentro dele. E agora, como tirar a guerra de lá dos interiores, como desalojar a malvada lá das províncias da sua alma? Não há comissão governamental, nem missão das Nações Unidas. Não há departamento para esse caso”. A mulher cortou:

- “Por que não me deixa titiar esse menino sozinha?”

O homem nem respondeu. Levantou-se e foi ao quarto do sobrinho. E lhe falou assim:

- “Amanhãzinha vais ver aviões adiante do céu, barulharem até te encheres de ouvidos”.

Meio oculto no lençol, o miúdo antecipava temores. O tio nem dava as confianças: “veja sobrinho, até já entrei num desses bichos.

- “Entrou?

- “E como entrei! Tua tia até chorou. Se tive medo? Nem medo, nem receio. Eles é que tiveram medo de mim. Por isso me amarraram logo na cadeira”.

Retornado ao seu quarto, o tio inchou uma esperteza vaidosa no peito: “o que ele precisa é o céu se abrir para ele. Compreende, mulher? A terra está cheia de ferida, não traz consolo nem ombro para ninguém. O céu é que, agora, tem que se abrir para ele”. A esposa sacudiu a cabeça, receosa.
Agora, desembarcando em pleno aeroporto, o menino lantejolhava em redor. Tudo era sonho. Seus olhos se abasteciam de súbitas e infinitas visões. Não falou, não sorriu. O tio, à distância, comentava: “o miúdo está em estado, coitadito”.

Chegada a hora do deitar, ele permaneceu sentado, mais rígido que a tábua da cama. A tia lhe reservou um carinho:

- “Que tu tens, meu filho?”

E ele, então, falou. Disse muito oficialmente:

- “Quero ser um avião!”

Manhã seguinte, todos se riam. A tia lembrava a solenidade da declaração. Não queria ser piloto, técnico espacial, mecânico especial, ou mesmo simples passageiro. Nada. Avião, era o que ele queria ser. O tio acrescentou piada:

- “Quer ser Boeing ou DC 10?”

O miúdo não entendeu a graça. No fundo, ele já se tinha todo ele decidido. E nunca mais da sua boca se escutou sílaba que fosse. Se insulou no quarto, sentado, imovente. Os braços cumpriam ordem de serem asas, o corpo duro, quase metálico. Deixou de comer, deixou de beber. A custo a tia lhe insistia, apontando um copo:

- “Vá, meu filho, isso aqui é combustível!”

Mil vezes o tio lhe falou, em várias tentações e tentativas:

- “Não prefere ser um pássaro, vivinho de alegrias?”

Tudo irresultava. Resolveram conduzi-lo de novo ao aeroporto. Todo o caminho, o miúdo seguiu de braços abertos, fixo que nem aço. Chegado ao aeroporto o menino olhou extasiado seus companheiros de espécie, as aeronaves. E desatou correndo, roncando seus fantasiosos motores. Olhando a criança correndo de encontro ao sol, o tio até se lagrimava, comovido:

- “Veja, veja como ele brinca!”

E assim ganhando mais e mais velocidade, braços cruzando o sonho, o menino se confundia, a contraluz, com o fogo inteiro do poente. Seria, no instante, que o céu se abria para aquela criaturita?
Pupila esgrimando o sol, o tio deixou de ver o miúdo. Apenas uma mancha, sombra súbita cruzando os ares. Ainda acreditou ser um pássaro que lançava seu voo da varanda para o distante chão. Nesse momento ele aprendia que o céu está padecendo de cataratas, repentinas névoas que impedem Deus de nos espreitar.

Mia Couto, "Contos do nascer da Terra"

segunda-feira, dezembro 4

Á espera de você

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A folha de papel e a tinta

autumn tumblr - Pesquisa do Google
Uma folha de papel que estava em cima de uma escrivaninha juntamente com outras iguais a ela , um belo dia apareceu toda manchada de sinais. Uma pena, molhada numa tinta muito negra, escrevera na folha de papel uma quantidade enorme de palavras.

- Não podias ter-me poupado esta humilhação? - Disse aborrecida, a folha de papel à tinta - Sujaste-me toda, estragaste-me para sempre.

- Espera - respondeu a tinta - Eu não te sujei, eu cobri-te de palavras. A partir de agora já não és uma folha de papel. És uma mensagem. Porque guardas o pensamento humano tornaste-te um instrumento precioso.

De fato, pouco depois alguém veio arrumar a escrivaninha e vendo aquelas folhas espalhadas juntou-as e preparou-se para as atirar ao lume. Mas logo reparou na folha "suja" de tinta e , então, separou-a das outras e pôs no seu lugar, bem visível, a mensagem da palavra. 

Leonardo da Vinci, " Fábulas"

Para começar o dia

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Anatomia das segundas-feiras

Nada a ver com o rock homônimo que fez sucesso há tempos. Também não gosto das segundas-feiras e tenho excelentes motivos para isso. É o dia em que todos os chatos do mundo saem das tocas, infestam ruas, caminhos e vales da vida, é uma invasão, um "apocalypse now".

Depois de passarem o fim-de-semana constatando que precisam fazer alguma coisa -já que, até então, nada fizeram senão aborrecer os outros e a si mesmos-, eles tomam a férrea decisão de, a cada segunda-feira, iniciar o futuro que começa a cada dia, a cada semana e, em especial, a cada segunda-feira.


Essas sinistras resoluções nascem da fossa crepuscular do domingo. Tão logo o sol se levanta na segunda-feira decisiva (que são todas elas), eis que a turba se ergue dos túmulos da mediocridade existencial e sai à cata das oportunidades, da concretização dos propósitos. É na segunda-feira que todos os que ainda não chegaram lá se repõem em dia com velhos projetos, antigas ambições. Dessa vez vai. Ou melhor, dessa vez vão.

Vão é poluir a vida dos outros. Procuram amigos e ex-amigos, fazem sondagens no mercado, forçam coincidências.

Na terça-feira o entusiasmo diminui, acaba na quarta-feira, e no resto da semana tudo volta ao que era antes, exceto nas sextas-feiras, quando os mais insistentes buscam reatar os contactos, tentam um "replay", uma avaliação das possibilidades ameaçadas na segunda-feira. E forçosamente transferidas para a segunda-feira seguinte.

A sabedoria ancestral dos judeus ensina que não se deve começar nada de importante nas segundas-feiras. É o dia que os antigos dedicam à Lua, um cadáver astral que rola em torno da gente, inútil e deletério, que serve somente para influenciar as marés e o ciclo menstrual das mulheres.

Por tudo isso, acho que houve engano dos historiadores quando afirmam que Cabral avistou o Brasil num domingo. Deve ter sido numa segunda-feira.

Carlos Heitor Cony

domingo, dezembro 3

Pescando ideias

Pescando ideas en los libros (ilustración de Roberto Cigna)
Roberto Cigna

Nova York investe 317 milhões de dólares em reforma de sua biblioteca mais famosa

A biblioteca mais emblemática de Nova York, conhecida pelos famosos leões que descansam em sua entrada, realizará a maior reforma da sua história, que custará US$ 317 milhões e não está livre de polêmicas.

A biblioteca, que fica na Quinta Avenida, está sempre bastante movimentada devido ao fluxo de turistas, mas também é uma das que mais recebe pesquisadores em todo o país, e permanecerá em obras até o fim de 2021.


Há quatro anos, um grupo de pesquisadores conseguiu derrubar o projeto de reforma anterior e ameaçou processar a instituição se esta não voltasse atrás em sua tentativa de se desfazer de suas estantes centenárias.

Com a nova reforma, a biblioteca ganhará 20% de espaço para salas de pesquisa, exibição e oficinas educativas e incorporará uma cafeteria, uma nova loja, um elevador e um novo terraço.

No entanto, o plano diretor não trata de um assunto complicado: o uso que será dado às estantes emblemáticas.

Estas, datadas de 1911, não cumprem com os requisitos de temperatura, umidade e segurança para incêndios que são necessários para as coleções mais delicadas.

É por isso que a maior parte dos arquivos que costumavam ficar nelas estão temporariamente realocados na biblioteca de Bryant Park, e suas prateleiras abrigam outra coleção diferente, a da biblioteca de Mid-Manhattan, que está envolvida em outra enorme reforma avaliada em US$ 200 milhões.

"Vamos levar um tempo antes de tomar uma decisão. É melhor demorar um pouco mais do que decidir às pressas e cometer equívocos", afirmou o presidente da rede de bibliotecas públicas de Nova York, Anthony Marx, durante a apresentação do plano diretor em uma audiência pública nesta semana.

"Como se atrevem a chamá-lo de plano diretor se ele não contempla o aspecto mais importante da biblioteca, como o das estantes?", questionou um usuário durante a sessão de perguntas.

"O que as pessoas querem é ter mais livros à disposição e acesso aos mesmos o mais rápido possível", afirmou outro, que lembrou com nostalgia da época em que podia sentir o cheiro entre as estantes, pegar ele mesmo o livro e, durante o caminho, "deparar-se com outros exemplares" que sequer sabia que existiam.

Marx defendeu que, apesar dos livros estarem em outras bibliotecas, o tempo médio de entrega é de 27 minutos, e destacou que, graças a um acordo com as universidades de Harvard, Columbia e Princeton, o catálogo foi ampliado em 7 milhões de novos exemplares.

A abertura de uma cafeteria na biblioteca também levantou paixões. "Café? Café neste edifício majestoso?", resmungou uma senhora de idade avançada, provocando aplausos do público que assistia à apresentação do plano.

Dos US$ 317 milhões do plano diretor, 144 já foram investidos na última década, e a maioria desses recursos provém de doações para a rede de bibliotecas públicas de Nova York.

Esta rede é, apesar do nome, uma fundação privada que recebe recursos públicos e particulares, e tem 92 centros distribuídos nos distritos de Manhattan, Bronx e Staten Island.

A reforma envolverá uma reorganização dos espaços. Os andares superiores receberão as salas silenciosas de leitura, para estudantes, leitores e pesquisadores, enquanto os visitantes e os eventos ficarão restritos aos andares de baixo.

A parte externa do edifício não sofrerá mudanças, exceto pela transformação de uma entrada para funcionários na Rua 40, que se transformará em um terraço com jardim, pensado para os grupos de estudantes que visitam a biblioteca, e que ajudará a descongestionar os acessos.

A arquiteta holandesa Francine Houben, cujo escritório ficará responsável pela reforma, detalhou que o edifício é "esplêndido", mas que existem algumas salas nobres que o público não vê na atualidade, um "erro" que será reparado após as obras.

Apesar da insistência do público, que perguntou pelo futuro das estantes, Anthony Marx se limitou a dizer que todos os usos possíveis serão avaliados.

"Que uso vocês querem dar para uma estante? Coloquem nela os seus livros!", alfinetou uma senhora presente no evento, levando o público aos risos na sala.

sábado, dezembro 2

O livro muda o ambiente

La magia de la lectura, la puerta de los sueños (ilustración de Wayne Anderson)
Wayne Anderson

Onde estão os leitores de livros?

danismm:
“’❓’
”
A questão da leitura no Brasil é difícil de formular. Por um lado envidam-se esforços no sentido de proporcionar acervos de livros adequados para leitores em escolas e universidades, centros de juventude, bibliotecas públicas e particulares. Por outro se treina as novas gerações em mídias digitais, o que não seria problemático, não fossem elas utilizadas quase que exclusivamente para mensagens e informações apressadas e superficiais, quando não levianas. Ao dar o mesmo valor a qualquer blog do que se dá a uma fonte criteriosa, como um bom jornal, o leitor se torna vítima fácil de notícias plantadas, informações maliciosas, ou simplesmente mau jornalismo. Todos nos tornamos médicos, advogados e historiadores após uma rápida consulta ao que disse tia Cotinha no Facebook da família, ou no Whatsapp da turma da escola. Há professores que simplesmente mandam pesquisar “na internet”, como se tudo que se encontra na web tivesse equivalência. Nem damos bola para o fato de que a especialidade de tia Cotinha é uma deliciosa sopa de legumes com ossobuco e que o primo de Paraguaçu Paulista não se notabiliza pela capacidade de selecionar informações. Confunde-se espaço democrático e direito de expressão com competência e divulgam-se asneiras de todo tipo sob o argumento de que todos têm o direito de se expressar. A única ressalva é que direito de se expressar não pode ser confundido – uma vez mais – com qualificação em todas as áreas. Para dar um exemplo extremo e obvio Dr. Paulo não me consultou sobre a técnica que deveria usar para implantar o marca-passo no meu peito. E eu ouso dar aulas e fazer palestras sem perguntar a opinião dele sobre fatos históricos. A qualificação existe, senhores...

Assim, que me desculpem os palpiteiros, mas competência é preciso. Claro (não finjam que não entenderam meu argumento) que não me refiro a assuntos e temas sobre os quais qualquer cidadão pode e deve se manifestar. Qualquer um pode e deve opinar, por exemplo, sobre reforma política (menos partidos? Voto distrital? Fim das coligações? Financiamento oficial? De empresas? Só de pessoa física?). Todos podem e devem entrar na discussão sobre se questões de saúde pública (como o aborto) devem ser confundidas com questões religiosas. Se foro especial não é uma prática antirrepublicana que beneficia apenas os já beneficiados e cria cidadãos de classes diferentes em uma sociedade que deveria privilegiar a igualdade de oportunidades. Se já não chegou o momento de acabar com essa folga de autoridades requisitarem aviões oficiais para passar o fim de semana em seus feudos (feudos, sim senhor) eleitorais, etc, etc, etc...

É evidente que não se deve tolher o exercício pleno da cidadania, que inclui o direito à manifestação, pelo contrário. O que defendo é o direito à informação séria, responsável, relevante. É fundamental ficar alerta, selecionar criteriosamente as fontes, evitando-se divulgar notícias falsas, textos apócrifos, supostas opiniões de figuras conhecidas que nunca disseram aquilo, trechos truncados que distorcem o conteúdo e, não menos importante, provocações irresponsáveis. E aí voltamos à questão da leitura de livros. Se você, improvável leitor deste artigo, não for um leitor de livros eu sinto muito. Ainda é neles que está depositado grande parte do patrimônio cultural da humanidade. Em livros estão registrados desde os textos sagrados das três mais importantes religiões monoteístas do mundo até as reflexões mais sofisticadas dos pensadores contemporâneos, passando por todos os teóricos sociais, estudos de economia, avaliações históricas das principais organizações sociais criadas pelo homo sapiens. Há livros para adultos e para crianças, para ler na praia, no metrô, no escritório, na cama. E se pensarmos em ficção, com livros a gente cria o personagem do nosso jeito, não fica sujeito aos caprichos do diretor do filme, por isso melhor que ver um bom filme é ler um bom livro.

Em uma sociedade em que o celular fica obsoleto em dois anos e uma relação amorosa não costuma durar nem isso; em que não temos tempo para conhecer as pessoas, elas nos aborrecem antes de sabermos quem elas são; em uma sociedade em que não degustamos, devoramos; em que não sabemos mais apreciar os caminhos, só queremos chegar; em que aprendemos a ler “por cima”, pulando linhas, letras e sentidos, sem curtir a construção elegante, o uso correto das palavras, o texto coeso, a mensagem clara; Quem teremos para ler livros nas próximas décadas?

Jaime Pinsky