sábado, agosto 19

Lua amiga

O riso de Kafka

Se bater na mesma tecla for estilo, finalmente encontrei o meu.

Ando escrevendo seguidos textos falando sobre o que há de humor em artistas austeros. Foi assim com uma resenha discorrendo sobre Lima Barreto e outra em que mencionava James Joyce como um autêntico piadista.

A razão para que os vejam assim tão circunspectos – sem ressaltar esse aspecto em suas narrativas – é a mania da fortuna crítica de transformar em estatuária os autores clássicos.

Agora vou repisar a minha hipótese aqui na Rubem, desta vez mencionando Franz Kafka. Para mim, o criador de universos tão claustrofóbicos como os de A Metamorfose era um cultor da blague.

E não só para mim. Para seus amigos mais próximos também, já que admitiam que Franz, ao promover uma leitura de O Processo aos mais íntimos em primeira mão, caiu na gargalhada em inúmeras passagens.
3a70c1bafc788d6bc62c35cb10d630e5: “Nós, os amigos, morremos de rir quando ele nos fez conhecer o primeiro capítulo de O Processo. E ele mesmo ria tanto que por momentos não podia continuar lendo. Bastante assombroso, se se pensa na terrível seriedade desse capítulo. Mas acontecia assim.”
Max Brod


É claro que o humor de Kafka não é o mesmo de um Paul Beatty, muito menos o dos Trapalhões.

Notem o que afirma o professor de literatura David Foster Wallace numa palestra sobre o tema:

“Em Kafka, não há jogos de palavras recorrentes nem acrobacias aéreas verbais, e pouco no que se refere a tiradinhas jocosas e sátiras mordazes. Não há humor baseado em funções corporais em Kafka, nem insinuações sexuais, nem tentativas estilizadas de se rebelar transgredindo as convenções. Nem comédia pastelão pynchonesca com cascas de banana ou adenoides fora de controle. Nem priapismo rothiano, metaparódia barthiana ou lamúrias à moda de Woody Allen. Não há sinal algum das viradas tum-tum-pá dos seriados cômicos modernos; tampouco crianças precoces, avós desbocados ou colegas de trabalho cinicamente insurgentes.”

Trata-se de um riso muito singular o de K. É, como já se disse, aquele esgar que se dá após presenciarmos um tombo. E, com certeza, ninguém, depois de um dia de trabalho vai abrir um livro seu, junto com uma latinha de cerveja, e dar umas boas gargalhadas para relaxar. O que não significa que não haja naquelas páginas fina ironia e pessimismo em altas dosagens.

Um exemplo é a miniestória “Camundonguinho”, presente no livro “Oportunidade para um Pequeno Desespero” (Martins Fontes), com contos e parábolas de Franz Kafka e ilustrações de Nikolaus Heidelbach:
“Quando o pequeno camundongo, que fora amado no mundo dos camundongos como nenhum outro, em uma madrugada caiu na ratoeira e com um alto berro deu sua vida pela visão de um toicinho, todos os camundongos das redondezas foram tomados por um tremor e uma agitação em suas tocas, olharam-se um aos outros em série, com os olhos piscando incontrolavelmente, enquanto a cauda esfregava o chão com um zelo inútil. Então saíram hesitantes, um empurrando o outro, todos atraídos para o local da morte. Ali jazia ele, o camundonguinho querido, o ferro na nuca, as perninhas cor-de-rosa encolhidas, paralisado o fraco corpo que teria sido tão bem agraciado com um pouco de toicinho. Os pais estavam de pé ao lado e observavam os restos de seu filho.”.

David Foster Wallace nos ensina em sua palestra que o humor de Kafka não é para ser “sacado” feito uma piada. E isto, no fundo, talvez seja o mais engraçado de tudo.

Carlos Castelo

Direito inalienável

Libros, lecturas, lectora… (ilustración de Dan Tavis)
Dan Tavis

Livro não é dever de escola, é direito do leitor
Sylvia Orthof

Para acalmar os nervos

Take one and call it a night

Preservando as espécies

Woman at Beach Reading, Figure painting, beach art, original oil 18 x 24 figurative canvas, daily painting artist Marie Fox
Marie Fox
Em Itaparica, não existe muita preocupação com esse negócio de privacidade, visto que, desde o tempo em que a luz era desligada pela prefeitura às dez horas da noite, o sabido saía com a moça, se esgueirando entre os escurinhos do Jardim do Forte e, no dia seguinte, na quitanda de Bambano, o fato já tinha alcançado ampla repercussão, com fartura de pormenores. O mesmo acontecia em todas as outras áreas e diz o povo que, quando meu tio-avô Zé Paulo, tido como mais rico que dezoito marajás, soltava um pum, sozinho numa sala de seu casarão, os puxa-sacos já ficavam de plantão no Largo da Quitanda e, no instante em que ele passava, se manifestavam efusivamente.

– Bom dia, coronel, bufou cheiroso outra vez!

– Muito bem bufado, coronel, quem está preso quer estar solto!

Quanto a câmeras de vigilância e segurança, correntemente na moda, receio que a situação é semelhante. Manolo quis botar uma no Bar de Espanha, mas desistiu depois que soube que todo mundo estava planejando pedir para fazer um teste com a Globo. Além disso, não há muita motivação para a instalação de câmeras, porquanto o que assaltar sempre foi meio escasso e Romero Contador, que não erra nem conta de raiz quadrada, já mostrou na ponta do lápis que, se alguém roubar o nosso PIB, vai passar o resto da vida altamente endividado, pois a verdade, por mais duro que seja reconhecer, é que nossa economia não interessa nem a deputado estadual e mal sobra o que furtar para os corruptos locais.

Não havia, portanto, razão aparente para o movimento deflagrado por Zecamunista, como sempre meio de surpresa. Nada indicava que estivesse motivado para nova campanha cívica, ainda mais envolvendo questões exóticas, como a privacidade. Depois de mais uma vitoriosa temporada de pôquer por todo o Recôncavo, onde chegou a ganhar dois barcos de pesca – que rebatizou de Marx e Engels e doou à Cooperativa Comunista Deus É Mais, há muitos anos fundada por ele, em Valença – voltara à ilha na semana anterior, na discreta companhia de “duas senhoras de Nazaré das Farinhas, minhas correligionárias”, como ele me disse ao telefone, sem mais adiantar e muito menos me convidar para conhecer as duas correligionárias. Desde esse dia, fora visto apenas uma vez, comprando uma garrafinha de catuaba no Mercado e voltando apressadamente para casa, no passo ligeirinho de clandestino a que a vida de militante bolchevique o acostumou. E já se pensava que as correligionárias iam ocupá-lo por mais tempo que o esperado, ouvindo-se também a maledicência de que “Zeca não é mais aquele”, mas eis que ele, como se nada tivesse acontecido, compareceu ao Bar de Espanha, na happy hour das nove da manhã, e fez o anúncio inesperado.

– Estou fundando o Movimento de Preservação e Defesa do Corno Nacional – disse ele. – Essa viagem acabou de me convencer de que o corno está em extinção. Um dos parceiros com quem eu joguei, não vou dizer onde, contou, quase satisfeito, que foi largado pela mulher, que tinha confessado ter um amante. Mas não era por isso que largava o marido, era porque estava sufocada, queria o espaço dela. O espaço dela era na cama do outro, mas todo mundo finge que acredita e fica tudo por isso mesmo. É a globalização descaracterizando a identidade nacional, não zelamos pelo nosso patrimônio cultural, encaramos tudo com a mais leviana das inconsequências e, se não tomarmos providências agora, nossos descendentes nem saberão o significado da palavra “corno” e toda sua riqueza emocional, artística e histórica!

Com efeito, meus caros senhores, em primeiro lugar, o corno desaparece a olhos vistos, ninguém mais liga. Isso não é possível, não é sustentável, é um abismo. Já basta não haver mais mistério quanto à paternidade, por causa da novidade dos exames de DNA. A vida perdeu a emoção, nunca mais aquelas investigações de paternidade que não chegavam a nenhuma conclusão, nunca mais confissões arrepiantes no leito de morte. E a espionagem eletrônica, celulares rastreadores, gravadores secretos, câmeras minúsculas, visão noturna, detectores disso e daquilo, tudo bisbilhotado e bisbilhotável? Nada mais é sagrado? O sujeito quer ser corno em paz e não permitem, têm que incomodá-lo com denúncias e provas que ele nunca pediu, pensem nisso! Até um dos últimos bastiões da liberdade está sendo destruído! Onde ficará Lupicínio Rodrigues, onde ficará Ataulfo Alves, onde ficará a dúvida cruel, onde ficará a viagem de negócios, onde ficará a tarde no dentista?

– Eles não sabem o que dizem, são uns inocentes – disse Zeca, ao ver que suas palavras haviam ocasionado um debate de grandes proporções. – As ideias novas sempre provocam reações negativas, inclusive entre aqueles que vão se beneficiar delas, é a maldição do pioneirismo.

Aqui para nós, seu real objetivo não era bem a preservação de uma espécie. Pretendia mesmo era montar mais um esquema para beneficiar as classes populares da ilha, ou seja, quase todo mundo. Esse papo de corno não passava de marketing, destinado a aproveitar e incrementar um clima já existente. O próximo passo será bolar um serviço para o nosso nicho de mercado. O nosso nicho não é o corno comum, que esse já perdeu o sentido e ainda não sabe, mas o corno saudosista, o tradicionalista, o que tem nostalgia dos velhos tempos dourados, o que ainda acredita. Não duvidava que fosse possível obter incentivos do Ministério da Cultura. E já podia antecipar os anúncios estampados nos jornais: “Corneie seu ente querido à moda antiga, venha à nossa ilha”.

– Há outros esquemas, mas eu prefiro esse – disse ele. – Nós vamos fornecer a mão de obra.
João Ubaldo Ribeiro

sexta-feira, agosto 18

Leitura não tem idade

Perdição de amor

Simão Botelho amava. Aí está uma palavra única, explicando o que parecia absurda reforma aos dezassete anos.

Amava Simão uma sua vizinha , menina de quinze anos, rica herdeira , regularmente bonita e bem nascida. Da janela do seu quarto é que ele a vira a primeira vez, para amá-la sempre. Não ficara ela incólume da ferida que fizera no coração do vizinho: amou-o também, e com mais seriedade que a usual nos seus anos.

Os poetas cansam-nos a paciência a falarem do amor da mulher aos quinze anos, como paixão perigosa, única e inflexível. Alguns prosadores de romances dizem o Teresa de Albuquerque devia ser , porventura, uma excepção no seu amor.

O magistrado e sua família eram odiosos a Botelho o pai de Teresa , por motivos de litígios , em que Domingos lhes deu sentenças contra.(…) E este amor era singularmente discreto e cauteloso. Viram-se e falaram-se três meses, sem darem rebate à vizinhança, e nem sequer suspeitas às duas famílias. O destino que ambos se prometiam era o mais honesto: ele ia formar-se para poder sustentá-la, se não tivessem outros recursos; ela esperava que seu velho pai falecesse para, senhora sua, lhe dar, com o coração, o seu grande património. Espanta discrição tamanha na índole de Simão Botelho, e na presumível ignorância de Teresa em coisas materiais da vida, como são um património!

shared lectura (ilustración of Natello)
Na véspera da sua ida para Coimbra , estava Simão Botelho despedindo-se da suspirosa menina, quando subitamente ela foi arrancada da janela. O alucinado moço ouviu gemidos daquela voz que, um momento antes, soluçava comovida por lágrimas de saudade. Ferveu-lhe o sangue na cabeça; contorceu-se no seu quarto como um tigre contra as grades inflexíveis da jaula. (...) com o amanhecer esfriou-lhe o sangue e renasceu a esperança com os cálculos.(…)

Simão, porém, entre mil projectos, achara melhor o de ir para Coimbra, esperar lá notícias de Teresa, e vir a ocultas a Viseu falar com ela. Ajuizadamente discorrera ele; que a sua demora agravaria a situação de Teresa.

Quando descera o académico ao pátio, depois de abraçar a mãe e irmãs , e beijar a mão do pai, que para esta hora reservara uma admoestação severa, aponto de lhe asseverar que de todo o abandonaria, se ele caísse em novas extravagâncias. Quando metia o pé no estribo, viu a seu lado uma velha mendiga, estendendo-lhe a mão aberta como quem pede esmola, e, na palma da mão, um pequeno papel.

Sobressaltou-se o moço; e , a poucos passos distante de sua casa, leu estas linhas: “ Meu pai diz que me vai encerrar num convento por tua causa.. Sofrerei tudo por amor de ti. Não me esqueças tu, e achar-me-ás no convento, ou no Céu, sempre tua do coração, e sempre leal. Parte para Coimbra. Lá irão dar as minhas cartas; e na primeira te direi em que nome hás-de responder à tua pobre Teresa.”

Camilo Castelo Branco, “ Amor de Perdição”

Coberta mais acolhedora não há

O que faz da Noruega o melhor país para ser escritor

Se a Noruega, com seus administráveis cinco milhões de habitantes, suas produtivas reservas de petróleo e sua devoção à cultura, não é o melhor país da Europa para ser escritor, pelo menos tem as condições para sê-lo:

Um autor emergente pode sonhar em viver apenas da literatura porque as bolsas-salário equivalentes a 25.000 euros (cerca de 92.700 reais) por ano são uma realidade que não é dada a conta-gotas.

Um escritor consagrado, digamos Karl Ove Knausgård, autor da saga Minha Luta, também pode ser contemplado, e o foi, com as ajudas – de até 50% – concedidas pelo Governo por meio da Norla (Norwegian Literature Abroad) para a tradução de livros escritos em norueguês: 499 títulos vertidos para 46 idiomas em 2016, entre elas o quarto volume do rei da autoficção traduzido ao espanhol e português.

Publicar é menos arriscado do que em outros países. O Estado tem um programa de aquisição de livros para bibliotecas, único no mundo por sua dimensão, pelo qual compra a cada ano 773 exemplares de 85% dos títulos de ficção e 1.550 exemplares dos títulos de literatura infantil e juvenil, quando a tiragem média ronda os 2.500 exemplares.


Os livros de papel são isentos de impostos – uma raridade que na Europa só é reproduzida no Reino Unido, Irlanda, Albânia, Ucrânia e Geórgia – e impera um sistema de preço fixo, semelhante ao de países como Espanha, França e Alemanha, graças ao qual não se pode reduzir o valor dos exemplares até maio do ano seguinte ao da publicação.

A escrupulosa gestão dos direitos autorais por empréstimos de bibliotecas e por cópias particulares, e a educação, que fez com que a pirataria não fosse um problema, garantem que cada um receba o que é seu.

A tributação da cultura é bonificada e, como na Alemanha, Áustria, Portugal e Itália, o escritor aposentado pode receber os royalties de suas obras sem ter de renunciar à pensão, ao contrário do que acontece em países como Espanha, Irlanda e Malta.

E o mais importante, que explica o que foi dito anteriormente: existe um respeito reverencial pela cultura e pelo criador. E essa veneração tem em uma das nações mais ricas do mundo uma tradução econômica (1,44 bilhão de euros para a cultura em 2017; 85,6 milhões para o setor do livro) que pouco sofreu durante a crise e um impacto no desenvolvimento do talento nativo e sua expansão pelo mundo.

“A Noruega está exportando literatura. A qualidade média das letras do país é muito alta e eu acredito que se deve em grande parte ao apoio dado pelo Estado durante muitos anos”, resume Jostein Gaarder.

Há não muito tempo, na década de noventa, quando o escritor causou sensação com O Mundo de Sofia – que já vendeu mais de 40 milhões de exemplares – e ampliou as fronteiras da literatura norueguesa, a presença dos autores do país nas livrarias estrangeiras era apenas uma exótica anomalia, como corresponde a uma nação com menos população do que a Comunidade de Madri. Eram internacionalmente conhecidos Henrik Ibsen, um dos pais da dramaturgia moderna, e, claro, o polêmico Nobel e colaborador dos nazistas Knut Hamsun, autor do aclamado romance Fome. E pouco mais.

Hoje, apenas três décadas depois, a Noruega não só vende para o exterior seus clássicos e seus autores de romances policiais e de aventura como exporta muita literatura, e muito variada. Knausgård é a grande estrela. Mas não está sozinho. Dag Solstad, que ganhou neste ano o prêmio da Academia Sueca, o pequeno Nobel, e Kjell Askildsen, mestre do relato breve, são mundialmente conhecidos e reconhecidos. Assim como Per Petterson, Linn Ullmann, Jo Nesbø; o dramaturgo Jon Fosse; Maja Lunde, que está na boca de todos por conta de Tudo que Deixamos para Trás, ou Maria Parr, a nova Astrid Lindgren, que acaba de publicar na Espanha Tania Val de Lumbre.

As letras dessa monarquia parlamentar parecem viver uma nova era de ouro, que tem sua grande manifestação na escolha como país convidado da Feira do Livro de Frankfurt 2019. E deve dar graças a isso pela profunda crise que viveu nos anos sessenta, às vésperas de descobrir que, além de peixe, era rica em petróleo (1969) e de rejeitar pela primeira vez em um referendo (1972) sua adesão à União Europeia (UE). Em uma nação leitora, muito leitora – 90% da população lê pelo menos um livro por ano, com uma média de 16 títulos, em comparação com 60,6% que o faz na Espanha –, em uma nação com uma longa tradição de narradores e um sólido sistema de bibliotecas, surgiam muito poucos gênios literários e os títulos interessantes foram se tornando um bem escasso. E o culto Reino da Noruega, um dos países mais felizes, seguros e desenvolvidos do mundo, não podia permitir isso.

“Era uma situação muito grave para um país tão pequeno como o nosso, com uma língua territorialmente tão limitada”, diz Oliver Møystad, responsável pela ficção da Norla, na sede do órgão em Oslo. “Temia-se que pudesse desaparecer se nada fosse feito para fortalecer a literatura, que sempre foi considerada uma fonte de renovação e transmissão do idioma”. Então, para revitalizar as letras em norueguês e evitar a pressão do imperialismo cultural anglófono, o Governo socialdemocrata da época estabeleceu um formidável programa de aquisição em massa de ficção contemporânea para as bibliotecas públicas que, com o tempo, foi sendo ampliado – hoje também é concedido a livros de não-ficção para adultos, ficção e não-ficção infantil e juvenil, ficção traduzida e graphic novels – e, a julgar pelas informações fornecidas por Ingeri Engelstad, diretora-geral da editora Oktober, o objetivo buscado foi atingido com folga: “Na década de 1960 surgiam apenas um ou dois escritores iniciantes por ano. Agora são mais de 60” diz. “Na Suécia e na Dinamarca há proporcionalmente menos porque eles não podem arriscar tanto”, acrescenta Møystad.

Sua repercussão também foi essencial para a indústria. “Economicamente, é de grande importância”, prossegue Engelstad. “Possibilita aos editores apostar em escritores desconhecidos e publicar um leque mais amplo de gêneros e vertentes literárias”. 35 títulos de seu selo, todos menos um de seu catálogo de ficção de 2016, passaram pelo filtro de qualidade do comitê que decide as aquisições a serem feitas. O Governo, recentemente questionado por vender a sua transição verde ao mesmo tempo em que autoriza sondagens de petróleo, comprou 24.605 exemplares impressos e 2.450 licenças de e-books, pelos quais a Oktober recebeu o equivalente a 3 milhões de reais (60% do total); os 40% restantes vão para o autor, que, além disso, só por ter sido selecionado já recebe mais em direitos autorais (20% se for autor de ficção) do que se o não tivesse sido (15%).

Este programa de compra por atacado, em que o Governo gastou 13,8 milhões de euros (51 milhões de reais) no ano passado, é a joia da coroa de um sistema patrocinado pelo Estado com a colaboração da indústria e que conta com o respaldo solidário dos best-sellers do país. O Executivo da Noruega, que registrou uma renda per capita anual de 59.000 euros (220.000 reais) em 2016 e uma taxa de desemprego de 1,9% em junho passado, subsidia os que se aventuram pelo caminho da escrita, mas também os autores consagrados – em 2017, ele concedeu somente para autores de ficção para adultos 125 subsídios, num total de mais de 2,5 milhões de euros, segundo dados de Richard Smith, responsável pelo departamento do programa de fomento a artistas. Mas isso é feito também pelas associações de escritores. E se elas conseguem distribuir bolsas de valor significativo para que o autor pesquise, viaje ou possa deixar o seu trabalho e se dedicar exclusivamente à escrita de um livro, é porque seus fundos coletivos se alimentam de direitos autorais pelo empréstimo de livros (em 2016, o Governo pagou aos autores 11,6 milhões de euros por essa via) ou cópias feitas nas universidades, nas empresas etc. (a Kopinor, instituição que gere os direitos e licenças, distribuiu mais de 21 milhões de euros para os autores). E os que mais contribuem são os que mais vendem.

Ida Hegazi Høyer, que já está em seu sexto livro, beneficiou-se duas vezes do sistema. Recebeu duas bolsas até hoje: uma de três e outra de dois anos. Só utilizou a primeira e já recebeu o Prêmio de Literatura da UE em 2015 por Perdón (Perdão). Recebe 25.000 euros (93.000 reais) por ano. “Alguns reclamam dizendo que as bolsas-salário são baixas demais, levando em conta o alto custo de vida daqui, mas viver da sua arte não é um direito humano. Somos os escritores mais sortudos do mundo”, afirma. Maria Parr toca na mesma questão: “Houve uma grande solidariedade da parte das gerações antecedentes, que conseguiram privilégios para todos a fim de que o capitalismo não governe tudo. Deveríamos ter cuidado para não perdê-los.”

No setor, que luta pela eliminação do imposto sobre valor agregado (IVA) para os e-books (atualmente, na faixa dos 25%), há certa preocupação de que os paradigmas do singular ecossistema literário possam desmoronar. A cultura sempre foi um assunto público, e o atual Governo, liberal, defendeu e defende um modelo misto público-privado. O programa de compra de livros para as bibliotecas não está em questão, mas há uma preocupação quanto a outros pilares do sistema que estão regulados por acordos entre os agentes do setor, como o preço fixo e os contratos padronizados pelos quais os autores inscritos nas associações de escritores (que são praticamente todos), sejam eles Nesbø ou estreantes, recebem a mesma porcentagem de direitos de autor.

Jens Stoltenberg, secretário-geral da OTAN e antes primeiro-ministro do país, não cumpriu as regras do jogo quando negociou, em 2016, condições privilegiadas com a editora Gyldendal para escrever suas memórias. E colocou todo o setor contra si. Estava no direito dele, pois não pertencia a nenhuma associação de escritores, mas teve uma atitude muito incoerente para alguém que havia sido líder do partido social-democrata e defensor da solidariedade.

“Esperamos que haja uma mudança de Governo com as eleições do outono [boreal]. Faremos lobby para aprovar uma lei do livro que garanta o preço fixo e os contratos padronizados”, diz Trond Andreassen, secretário de Assuntos Exteriores da Associação Norueguesa de Escritores de Não-Ficção e Tradutores. “É importante defender o sistema que temos, que, acredito, vai além do custo”, afirma Gaarder. “Ganhei fora muito dinheiro que logo reverti para a Noruega: mais de 10 milhões de euros (37 milhões de reais) em impostos. De certo modo, o sistema, que é generoso, paga a si mesmo.”

A globalização deixou pouco espaço para comparar as leis de propriedade intelectual e as políticas de proteção ao escritor e à literatura na Europa. Os modelos são semelhantes, embora cada país se destaque por algo e se diferencie por sua melhor ou pior aplicação. A França é considerada um modelo por seu respeito à entidade do escritor; a Irlanda, um paraíso em termos fiscais (nenhum criador, nem o U2, paga imposto por sua obra); os nórdicos são conhecidos pela promoção da cultura. E a Noruega, onde a ostentação é um pecado e a modéstia se exerce como grande virtude, pode se orgulhar de ter um sistema que permite que um autor, mesmo fora do grupo dos best-sellers, busque seu sonho. Não é uma quimera. No país dos fiordes, pode-se viver da literatura sem ser comercial. 

quarta-feira, agosto 16

Luz que nos ilumina

Cada lectura nos aporta nuevas ideas (ilustración de Dan Tavis)
Dan Tavis

Tribunal alemão condena jovem a 20 horas de leitura

Um tribunal de Munique condenou um auxiliar de depósito de 19 anos a 20 horas de leitura porque a placa de sua motocicleta não estava perfeitamente visível. A condenação aconteceu em 8 de junho, comunicou o tribunal na última semana.

Segundo o tribunal, o auxiliar de depósito admitiu a sua culpa. O incidente aconteceu em fevereiro deste ano e, por se tratar de reincidência, a juíza de menores responsável pela sentença concluiu que o acusado "obviamente não aprendeu nada" com o primeiro incidente, "exatamente o mesmo ato e com a mesma motocicleta".

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Por meio de uma instrução de leitura, o jovem réu deverá agora ser "motivado a se ocupar em nível intelectual com o seu ato", informou o tribunal, acrescentando que não há necessidade de outras medidas educacionais para o acusado.

Segundo o comunicado, a medida educativa será realizada na Universidade de Munique. Numa primeira conversa, o jovem deverá escolher, entre uma série de sugestões, os livros que mais combinam com seus interesses e sua vida. Posteriormente, em entrevistas, ele falará sobre aquilo que leu, também em relação com a própria vida.

A medida se encerra com um trabalho em que o conteúdo da leitura e das discussões são "trabalhados em diversas formas criativas, como, por exemplo, contos, cartazes ou raps".

terça-feira, agosto 15

Que pressão!

Todo mundo tem aquele livro que leu na infância e nunca mais esqueceu, não é? - Tirinha produzida pelo artista argentino Liniers (Foto: Reprodução)

Ratos também leem

Ratos de biblioteca…

Assim começa o livro...

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Em algum lugar lá no alto, a lua brilha, gorda e cheia — mas aqui, em Tarker’s Mills, uma nevasca de inverno sufocou o céu com neve. O vento sopra com força pela deserta avenida Center; os limpadores de neve laranja da cidade já desistiram faz tempo.

Arnie Westrum, sinaleiro na Ferrovia gs&wm, ficou preso no pequeno barracão de ferramentas e sinalizadores a quinze quilômetros da cidade; com o carrinho ferroviário movido a gasolina bloqueado pela neve, ele está esperando que a tempestade passe, jogando paciência com um maço de cartas sujas. Do lado de fora, o vento piora até se transformar em um grito agudo. Westrum levanta a cabeça, inquieto, e olha para o jogo novamente. É só o vento, afinal…

Mas o vento não arranha portas… nem chora, pedindo para entrar.

Ele se levanta, um homem alto e magro de jaqueta de lã e macacão da ferrovia, um Camel pendurado no canto da boca, o rosto marcado da Nova Inglaterra iluminado em tons suaves de laranja pelo lampião de querosene pendurado na parede.

Ouve o arranhar de novo. O cachorro de alguém, ele pensa, perdido e querendo entrar. É só isso… Mas, mesmo assim, ele hesita. Seria desumano deixar o animal lá fora, no frio, ele pensa (não que esteja muito mais quente ali dentro; apesar do aquecedor a bateria, ele consegue ver seu hálito condensando), mas hesita mesmo assim. Uma pontada fria de medo o cutuca logo abaixo do coração. Foi uma temporada péssima em Tarker’s Mills; houve presságios de coisas ruins na região. Arnie tem o sangue galês do pai correndo nas veias e não gosta daquela sensação.

Antes que ele possa decidir o que fazer sobre o visitante, o choramingo baixo se transforma em um rosnado. Um baque soa quando uma coisa incrivelmente pesada bate na porta… recua… bate de novo. A porta treme na moldura, e um borrifo de neve entra pelas frestas.

segunda-feira, agosto 14

Para o dia nascer feliz

Tardes de verano lector (ilustración de Vivian Mineker)
Vivian Mineker

Deixa-me dizer

myfavouriteart:
“Charles Burton Barber
”
Charles Burton Barber
Sandra. Se soubesses como tenho pressa de falar de ti. De estar contigo longamente. De te recuperar desde o teu nome. Não é bonito o teu nome. Explicaste-me como to deram, já não sei se sei. E todavia. Lembra-me uma fruta exótica, talvez oriental . Uma fruta. Coisa de se saborear na boca e ter aí uma cor. Castanho-claro, talvez. E um sabor tenro, de doçura esmaecida. Mas tu eras uma figura breve, toda facetada no teu modo racional de ser. Os teus dentes. Pequena serrilha, não eram bonitos. Cerzidos. Um ou outro já escurecido, tocado pela destruição - tão poucas vezes tos vi. Mas estou a falar de ti e ainda não é tempo - em que tempo é? Estás entretecida a todo o meu ser, podia lembrar-te agora. Podia figurar-te já em Penalva, que é para onde me apetece agora ir. Podia imaginar-te lá, neste modo de igualar o real e o imaginário, que tudo é real. Porque mesmo encontrada na cidade de Soeira, a Cidade universitária. Um mestre explicou-me - ou eu imaginei? Que Soeira vinha de Solária, a Cidade do Sol. Fica numa colina, o sol bate-a de todo o lado. Mesmo só encontrada aí, atravessas-me a vida para o passado e o futuro. Deixa-me dizer-te que te amei. Oh, tu irritavas-me tanto, não foi fácil saber-to dizer. Discreta polida asséptica - deixa-me dizer. Estou cheio de necessidade de falar de ti. Mas tenho de ir a Penalva, é lá que quero começar. Não sei porquê. Há muita coisa antes que quero lembrar, enquanto lá de baixo, na tarde sufocante, ouço-o. Ouço-o sempre, canto da alegria da vida , que é triste por ser longe. É uma voz sem dono, não vejo quem canta, não sei donde vem. Aparece no ar, ecoa na distância, sem a força, selvagem da germinação da terra. Tenho de ir a Penalva, enquanto me sento na cama de Xana e acendo um cigarro. Tenho de ir chamar Deolinda para combinar tudo. Tenho de ir - tens que ir? Tens só que estar.

Como se houvesse mundo além, há só aqui. Tanto tratado escrito sobre a infância, a juventude, a idade adulta, que é a idade do homem. Em todas elas se fala de ir - a velhice é estar. Queria ter , do calor com que se fazem ideias precisas sobre isso. Precisas limpas agradáveis - a velhice tem tanta sujidade. Todas as idades fazem parte da vida , a velhice é um sobejo. É só o que sobra lhe pertence. O que sobra da mesa, das leis, da paciência. Do espaço que se ocupa - mas tenho de ir a Penalva. Dos fatos que se usaram, das ideias que nos remexeram, do calor com que se fazem ser as pessoas coisas animais - mas tenho de ir. Passa o carro da História, atira-lhe com poeira para cima. Passam os proprietários do poder, os fabricadores da civilização, os criadores da ciência, artes e letras , os agentes do comércio e do progresso económico, ela encosta-se à valeta, fica coberta de lixo orgânico - mas vão sendo horas . Na realidade - como é que me disse a tia Luísa? eu ia fazer o exame da quarta classe. Era uma noite de Verão, nós sentávamo-nos ao balcão a ver a lua nascer. "

Vergílio Ferreira, "Para sempre"

domingo, agosto 13

Café com jornal no Dia dos Pais

Desayuno con lectura (ilustración de Marjorie Pourchet)
Marjorie Pourchet

Paiaiá, letras do sertão

De internet, Kariêninas e Bovarys

Pelo que vejo na internet, os maridos não servem para nada mais importante do que discutir a relação.

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Basta que a literatura dê um cochilo e lá vai a vida furtar-lhe uma história. Tantas Kariêninas e Bovarys que seriam perfeitas se não lhes faltasse um toque de Tolstói ou Flaubert…

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Numa pasta de recortes de jornal e num exíguo arquivo no micro cabe toda a minha fortuna crítica.

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É comum, quando choramos, dizerem que parecemos crianças. Pode haver melhor incentivo para nossas lágrimas?

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Os livros espalham o ouro esmaecido de seu outono pelas estantes escuras do sebo.

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A partir da segunda vez, e da terceira, o amor nunca mais é como na primeira.

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Não posso me queixar. Sempre tive uma espécie de ignorância intuitiva.

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Fontes fidedignas nem sempre são as que constam nos rótulos das águas minerais.

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Houve um tempo em que imaginei que a poesia havia me escolhido para alguma coisa grandiosa – justo a mim, com estes modos de polonês tosco.

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Diante do amor, toda cautela é pouca e inútil.

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Um poeta romântico que não tenha morrido pelo menos duas vezes por amor não merece confiança.

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O amor faz aquela figuração toda no trapézio, com sua roupa cintilante, e, quando começamos a gostar dele, espatifa a cara no picadeiro, como um palhaço qualquer.

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E no entanto acabamos sempre voltando a escrever.

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Para evitar ridicularias, os poetas românticos deveriam receber licença de acordo com sua idade, sendo a faixa inicial quinze anos, e a última trinta e cinco.

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Palavras como rosa, mar e primavera deveriam ser sempre ouvidas como se ditas a primeira vez por lábios maravilhados pelo assombro.

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Ao haicai assentam bem a humildade e a modéstia. Ele não é um passarinho se exibindo, aparecendo e desaparecendo no mesmo instante, com um fio de ouro no bico. Ele é só um passarinho que aos olhos certos, em certo instante, pareça ter um fio qualquer no bico.

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Enquanto o poeta romântico prepara um cisne para o jantar, o concretista ronca e sonha com pirâmides e com egitos.

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Se tratamos de graça e beleza, contra gatos não há argumentos.

sábado, agosto 12

Humor

Essa é para aqueles que viajam com os personagens - Tirinha produzida pelo artista Antônio Silvério (Foto: Reprodução)

Crianças alemãs preferem livros a YouTube

Leyendo a su aire, bien fresquita (ilustración de Miriam Kraft)
Miriam Kraft
Na Alemanha, onde nasceu a imprensa, o futuro de livros e revistas parece estar garantido. De acordo com um estudo publicado nesta terça-feira (08/08), 61% das crianças alemãs entre 6 e 13 anos afirmaram ler livros mais de uma vez por semana, e mais da metade delas (55%) disse ler revistas infantis e histórias em quadrinhos várias vezes por semana.

O estudo foi encomendado por um grupo de seis editoras, incluindo Panini, Gruner + Jahr, Egmont Ehapa Media, Spiegel e Zeit. Para a pesquisa foram realizadas por volta de 2 mil entrevistas com crianças e seus responsáveis.

Enquanto 62% das crianças entre 6 e 13 anos afirmaram usar internet e aplicativos, somente 34% dos entrevistados disseram assistir regularmente a vídeos no YouTube. Uma parcela ainda menor (28%) respondeu que jogava videogames.

Somente a TV bate a mídia impressa quando se trata de chamar a atenção dos pequenos: 93% das crianças entre 4 e 5 anos disseram que assistiam à televisão várias vezes por semana, enquanto 97% de meninos e meninas entre 10 e 13 anos responderam que se sentavam regularmente diante da tela.

Não foi surpreendente, no entanto, a constatação de que DVDs e Blu-rays não desempenham um papel importante na vida de crianças alemãs: somente 15% dos guris e gurias de 6 a 13 anos disseram que os usavam com frequência.

Só porque muitos gostam da leitura não significa que as crianças do país não estejam por dentro das novas tecnologias. Na faixa etária entre 6 a 9 anos, 37% delas disseram possuir celular ou smartphone próprio. Entre aquelas de 10 a 13 anos, essa cifra pulou para 84%.

Nessa última faixa etária, o serviço de mensagens WhatsApp ultrapassou as mensagens de texto à moda antiga – 68% disseram utilizar WhatsApp e 61%, mensagens de SMS. E somente pouco mais de um quarto (25%) afirmou usar o Facebook.

Mais de 80% dos entrevistados entre 6 e 13 anos afirmaram, no entanto, que a sua principal forma de comunicação é telefonar.

Mundo em harmonia

Linguagem da mão

Uma amiga me disse que em alguns cursos da Universidade de Princeton o celular e o iPad foram proibidos porque os estudantes filmavam e fotografavam as aulas, ou simplesmente brincavam com joguinhos eletrônicos. A proibição do uso de aparelhos eletrônicos em sala de aula numa das maiores universidades dos Estados Unidos e do mundo não é nada desprezível. O celular na palma da mão desconcentra o estudante e abole uma prática antiga: a caligrafia.

Dos milenares hieróglifos egípcios gravados em pedra e palavras escritas em pergaminho à mais recente prescrição médica, a caligrafia tem uma longa história. Mas essa história - que marca uma forte relação da palavra com o gesto da mão - parece fenecer com o advento do minúsculo teclado e sua tela.
Imagem relacionada

Lembro uma entrevista radiofônica com Roland Barthes, em que o grande crítico francês dizia que as correções das provas tipográficas dos romances de Balzac pareciam fogos de artifícios. É uma bela imagem do efeito estético da caligrafia no papel impresso, da relação do corpo com a escrita, as letras que vêm da mão, e não da máquina. Quando pude ver essas páginas numa exposição de manuscritos, fiquei impressionado com a metáfora precisa de Barthes, e admirado com a obsessão de Balzac em acrescentar, cortar e substituir palavras e frases, e alterar a pontuação, como se a respiração e o tempo da leitura fossem - como de fato são - importantes para o ritmo da escrita. O autor de Ilusões Perdidas não poupava esforço para alcançar o que desejava expressar, e esse empenho tão grande acabou por exauri-lo quando escrevia César Birotteau, seu último romance.

Mas há beleza também na caligrafia torta e hesitante de uma criança, numa carta de amor escrita a lápis ou à tinta, na mensagem pintada à mão no para-choque de um caminhão, nas paredes de banheiros públicos, no muro grafitado da cidade poluída, nada impoluta. Quem não terá lido e anotado frases de escritores anônimos, que expressam sentimentos e ideias na traseira de veículos ou nos muros de uma cidade? Frases como “Já chegamos no fundão do poço escuro” e “Aquele Padilha lá de Brasília rima com quê?”, ambas escritas à mão, parecem tão atuais…

A primeira frase, escrita na traseira de um caminhão, é uma variante popular de um verso de Dante; a segunda, um desabafo de um brasileiro que foi se aliviar num banheiro asfixiante de tanto fedor.

Num de seus poemas memoráveis (O Sobrevivente), Carlos Drummond de Andrade escreveu à mão e depois datilografou: “Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples. / Se você quer fumar um charuto aperte um botão”.

Se você quer prestar atenção a uma aula, não use uma máquina nem se distraia com ela. Isso é o que parece dizer a seus alunos a Universidade de Princeton e outras universidades e escolas.

Na mão que move a escrita há um gesto corporal atávico, um desejo da nossa ancestralidade, que a maquininha subtrai, ou até mesmo anula. Ainda escrevo alguns textos à mão, antes de digitá-los no computador. No trabalho diário de um jornalista, isso é quase impossível, mas na escrita de uma crônica, pego a caneta e o papel e exercito minha pobre caligrafia.

Talvez eu seja o antepenúltimo dinossauro. Mal escrevo essa palavra, vejo um dos minúsculos seres que se originaram de um dinossauro emplumado. É um pássaro que desconheço; pousou num galho do manacá florido, e seu canto misterioso nesta tarde fria e ensolarada me remete ao livro A Linguagem dos Pássaros, escrito no século 12 pelo grande poeta persa Farid Ud-din Attar. Nele, a caligrafia é sinônimo de “beleza da escrita, linguagem da mão e nobreza do sentimento”.

sexta-feira, agosto 11

Não sobrevoe, mergulhe no mar

 Alberto Ruggieri

Biblioteca traça destino

O destino de muitos homens dependeu de haver ou não uma biblioteca na casa onde nasceu
Edmond de Amicis
David Pintor

Navegante

 Selçuk Demirel

A vida de um homem

[LISTA] 5 Autores italianos para ler
Tudo foi a certeza que ele teve. Primeiro que algo iria acontecer. Depois que iria demorar. Não muito, mas que demoraria. E, por fim, que quando acontecesse, seria uma coisa fantástica. Tão grande e solene como o carro preto que chega à noite e todos se reúnem sérios, graves e curiosos.

Ele entrou para dentro de casa e não saiu nem viveu, esperando o que iria acontecer. Seu amigo disse, na hora em que ele morria:

— Agora já é tarde para que as coisas lhe aconteçam.

Oswaldo França Júnior, "As laranjas iguais"

quinta-feira, agosto 10

Começando o dia

Illustration: Oriol Malet. I love the colour selection!!
Oriol Malet.

Você sabe quando a leitura se torna uma dependência?

Lovely.
A leitura é uma experiência imersiva que confere um novo fôlego para seu cérebro. Ele é responsável por gerar imagens e ideias enquanto você passeia por um blog literário ou mergulha na leitura do seu recém-adquirido romance. Seu cérebro faz novas conexões, estabelece diferentes padrões – uma realidade virtual ao seu alcance.?..

Os Primeiros 10 minutos

O processo é iniciado.

Seus olhos passeiam pelas letras, acostumam-se com a tipografia, a cor do papel, a disposição das palavras. Até mesmo seu olfato é estimulado (neste caso, se estiver lendo um livro impresso). Lentamente, você começa a ser transportado para outra realidade.

Começam os efeitos intelectuais. Seu cérebro lida com estrutura narrativa, já tentando reconhecer a “voz” do autor. Seu cérebro se posiciona no contexto terminológico. Oferece alguma resistência às novas ideias. Tenta te avisar que aquilo que está lendo é ficção (como se você não soubesse). Aos poucos, ele relaxa. Está preparado para se entregar.

30 minutos

Crescem os efeitos. O cérebro está criando os sinais daquilo que você lê. Seu sistema auditivo ouve. Seus olhos veem. Há uma voz em sua cabeça, além de gritos, explosões, brisas – tudo combinado com intensa claridade.

Neste momento, você é transportado para outro tempo e lugar. Sem perceber, seu corpo reage à tensão do momento. Você remexe os dedos, rói unhas, manuseia objetos. Você está lá, embora, ache que ainda esteja aqui.

60 minutos

A imersão é total. Você reage de forma perpendicular ao conteúdo da literatura: de tristeza profunda a grande alegria. Sem que se dê conta, sua boca começa a produzir diversos ruídos capazes de incomodar pessoas próximas: como resmungos ou gargalhadas. Há uma intensa conectividade psicológica com personagens e eventos. Você se distancia do mundo real. Às vezes, seus olhos se distanciam do papel e fixam-se vagamente na parede. Seus olhos visualizam tudo, em todas as cores e formas. Mas para quem o observa, você aparenta ser apenas uma figura de olhar lânguido, débil, quase um drogado. Este é o efeito de quem está sendo progressivamente exposto a novas ideias. O aprendizado e seus efeitos colaterais.

Horas

Já está presente a dependência. Separar o leitor do livro provoca sinais de abstinência como irritabilidade. Neste momento, você já experimenta o poder de envolvimento da história. Atividades normais (e essenciais) do dia a dia, como comer e dormir, podem ser negligenciadas sem que você sequer perceba.

Dias e Semanas
Dependendo do seu ritmo de leitura e do tamanho do livro, muito provavelmente, após semanas de leitura, o livro chegou ao fim. Você experimenta uma sensação de intensa melancolia. Na verdade, neste momento, muitos leitores recomeçam a ler o livro – uma forma de recuperar a intensidade que experimentaram na primeira vez.

Finalizado o livro e de volta a realidade, o mundo parece mais complicado e, ao mesmo tempo, sem graça. Não há cores e romantismo. Não há suspense e reviravoltas. Para seguir em frente, você precisa de uma dose mais forte de “mundo paralelo”. E busca outro livro, volumes ainda mais desafiadores após um breve período de recuperação.

Anos


Você já é um leitor habitual. A literatura serpenteia suas veias. Seu cérebro não se contenta com menos. Você possui um conhecimento geral ampliado e uma visão mais perspicaz do mundo ao seu redor. Um ciclo constante de aprendizado. Como um leitor habitual, você está sob iluminação contínua e uma curiosidade intelectual que é, diariamente, aprimorada.?

Livro com café da manhã

✉ Biblio Beauties ✉ paintings of women reading letters & books - Birgit Stern
Birgit Stern

Assim começa o livro...

Resultado de imagem para a ninfa inconstante livro
O passado é um fantasma que não se deve convocar com médiuns ou invocar com abra-essa-obra. É na realidade da recordação um revenant irreal. Não é preciso pôr as mãos na mesa, palma para baixo, ou responder aos três toques rituais ou perguntar “Quem está aí?”. O espírito do passado sempre está aí. Um copo d’água e uma flor amarela bastam. Não é preciso repetir frases encantatórias ou cast a spell: todos os mortos estão aí, vivos, exibidos detrás de uma vidraça negra, uma câmara escura, uma obra de artifício. Os entes passados vivem porque não morreram para nós. Vivemos porque eles não morrem. Nós somos os mortos-vivos.

É no passado que vemos o tempo como se fosse o espaço. Tudo fica longe, na distância em que o passado é uma imensa campina vertiginosa, como se caíssemos de uma grande altura e o tempo da queda, a distância, nos tornasse imóveis, como acontece com os mergulhadores dos penhascos, que vão caindo numa enorme velocidade e no entanto para eles não se cai nunca. Assim caímos na recordação. Nada parece ter se movido, nada mudou porque estamos caindo a uma velocidade constante e só os que nos veem de fora, vocês leitores, se dão conta de quanto descemos e a que velocidade. O passado é essa terra imóvel da qual nos aproximamos com um movimento uniformemente acelerado, mas o trajeto — tempo no espaço — nos impede de nos afastar para ter uma visão que não esteja afetada pela queda — espaço no tempo — voluntária ou involuntária. O tempo, mesmo detido, dá vertigem, que é uma sensação que só o espaço pode dar.

O passado só se faz visível através de um presente fictício — e no entanto toda ficção perecerá. Não restará então do passado mais que a memória pessoal, intransferível. Não me interessa a impostura literária mas a verdade que se diz com palavras que necessariamente vão umas atrás das outras embora expressem ideias simultâneas. Sei que uma frase é sempre uma questão moral. Há uma memória ética? Ou é estética, isto é, seletiva?

A memória é outro labirinto em que se entra e às vezes não se sai. Mas são fantásticos, inúmeros, os corredores da memória, fora da qual há um só tempo real que é aquele que se recorda — isto é, eu mesmo agora quando a máquina de escrever é a verdadeira máquina do tempo.

Escrever, o que faço agora, não é mais que uma das formas que a memória adota. O que escrevo é o que recordo — o que recordo é o que escrevo.

Entre ambas as ações estão as omissões — que são os interstícios, o que resta. Isto é, meu buraco: o espaço do tempo recordado. É tão fácil recordar, tão difícil olvidar... Não é o que diz a canção? Ou diz...? Não me lembro, olvidei. Recordar é gravar num idioma ou outro. Mas olvidar não tem equivalência...

quarta-feira, agosto 9

Dormindo com os livros

Deixe-os cair no sono no calor e virar as páginas imperturbável ...

Clássicos se impõem

Tardes de verano y lectura… a la fresca vegetal (ilustración de Rocio Bonilla)
Rocio Bonilla


Não devemos impor jamais a nossos filhos os livros que amamos. Ofereçamos a eles os livros de sua época. E confiemos em nossos clássicos: se merecem o nome, cedo ou tarde saberão se impor

Marc Soriano

Leitura não tem idade

A Jurubeba Cultural: Imagens do Ler... ((Kathmandu, Nepal. Copyright Martin Wierzbicki. April 2001). ...
Martin Wierzbicki.

A editora que resgatou o 'Diário de Anne Frank'

Judith Jones, editora e escritora norte-americana nascida em 1924 na cidade de Nova York, concluía as receitas de seu livro de memórias, The Tenth Muse: My Life in Food (2007), se perguntando: What else? (O que mais?). Vítima de Alzheimer, Jones faleceu no último dia 2 de agosto, aos 93 anos. Era uma mulher versátil e curiosa que, em 1952, foi às lágrimas lendo o Diário de Anne Frank, autora da autobiografia mais famosa do Holocausto. Ficou tão comovida que resgatou o manuscrito da pilha de outros rejeitados por sua empresa, a editora Doubleday, a maior dos Estados Unidos nos anos cinquenta. Graças a Jones, a obra, até então traduzida apenas para o alemão e o francês, foi apresentada ao grande público.

Quando perguntada sobre como soube que o Diário de Anne Frank era um livro importante, lembrou da reação de seu chefe. Ele disse o seguinte: “Você está falando desse livro, o da menina?”. Jones havia lido o livro em uma só tacada e defendeu ardentemente a prosa da adolescente holandesa, que descreve o medo e a raiva por sua prisão pelos nazistas, mas também seu primeiro amor e o sonho de liberdade à medida que seu tempo de esgotava. “É uma dessas obras inesquecíveis”, costumava dizer, para depois afirmar que sua profissão consistia nessa difícil tarefa de “estar no lugar certo na hora certa”. Traduzida em 70 idiomas, a obra de Anne Frank foi publicada em cerca de 60 países.

Dez anos depois desse sucesso, Jones já estava trabalhando como chefe de edições para a editora Alfred A. Knopf, também em Nova York, e teve outro feliz palpite. Desta vez, o livro era totalmente o oposto da obra de Anne Frank. Estava assinado por uma tal de Julia Child, que se tornaria uma renomada chef, escritora e apresentadora de TV nos EUA, introdutora da cozinha francesa em seu país. Em vez de um diário íntimo, o livro de Child, assinado com outras duas amigas, era um grande volume de cerca de mil páginas. O título original, Receitas Francesas para Cozinheiros Norte-Americanos, era descritivo, mas sem nenhum gancho. A já falecida editora já havia morado em Paris e era uma grande conhecedora da mesa francesa, então testou vários pratos propostos. Quando viu que até o boeuf bourgignon, um ensopado de carne com vinho tinto da Borgonha, ficou bom, decidiu que era hora de perder o medo. Com seu novo título, Mastering the Art of French Cooking (Dominando a Arte da Culinária Francesa), o livro estava pronto para o sucesso.

Child “descrevia as receitas com senso comum, indicava os utensílios adequados e alertava que erros seriam cometidos, mas acrescentava soluções”, disse Jones ao The New York Times em 2004, ano em que Child faleceu. “Uma boa receita deve criar seu próprio vocabulário. Precisamos de palavras que nos façam sentir a textura da massa do pão em nossas mãos antes que soe o plop na tigela onde a colocamos”, acrescentou. Embora o livro de receitas tenha obtido vendas regulares durante anos, seu enorme salto à fama ocorreu em 2009, com a ajuda do filme Julie & Julia, dirigido por Nora Ephron e protagonizado por Meryl Streep (como Child) e Amy Adams (no papel da blogueira Julie Powell, que testa os ensopados). Jones, também editora para o inglês dos escritores franceses Camus e Sartre e do norte-americano John Updike, se animou com o livro de Child para publicar receitas de outras chefs.

Filha do advogado nova-iorquino Charles Bailey e de Phyllis Hedley, Jones tinha uma irmã, Susan, e cresceu em Manhattan. Licenciada em 1945 em Filologia Inglesa, morou em Paris com seu marido, Evan Jones, um crítico gastronômico que conhecera na capital francesa em 1948. Ele já tinha duas filhas, e adotaram um menino e uma menina. Escreveram três livros de receitas juntos e, anos após ficar viúva, publicou Pleasures of Cooking for One (2009). Uma espécie de livro de autoajuda para a velhice sem perder o amor pela boa comida.

terça-feira, agosto 8

À espera de visita

O telefonema

DIY Passo a Passo: Suporte para livros telefônico |
Um homem saiu de casa para ir ao trabalho mas não seguiu o caminho do escritório e sim do aeroporto. Comprou uma passagem com um nome que não era o seu, e foi para São Paulo, que é a maior cidade do Brasil. Lá escolheu um hotel em que havia telefone nos quartos. No registro de hóspedes todos os dados que fornecera eram falsos. Ele nunca havia ido a São Paulo e não conhecia ninguém de lá.

No quarto o homem trancou a porta, tirou os sapatos, as meias, a roupa do corpo e sentou-se na cama. Puxou a mesa do telefone para perto e ficou esperando o telefone tocar. O telefone não tocou uma vez e o homem morreu de fome e sede sentado na cama esperando que alguém lhe telefonasse.

Oswaldo França Júnior, "As laranjas iguais"

Para a música dos livros

Para quem sempre quis ter um piano em casa (ou no quintal), mas nunca teve porque não sabia tocar. Ou porque era caro demais. Com essas ideias, é possível pegar pianos que não servem mais para música, mas são perfeitos para a decoração. E o melhor.. com um preço bem mais acessível! As opções são inúmeras e dependem das partes do piano que serão utilizadas. Bar, estante, mesa e apoio para plantas são algumas.

A língua dos alquimistas

Línguas assobiadas são, regra geral, muito antigas e muito raras. Quase todas, como a sfyria, que se assobia em Antia, minúscula localidade no canto sudeste da ilha grega de Evia, são ou eram usadas por populações rurais, em particular por pastores, que precisavam comunicar-se entre dois vales. Há quem defenda que o assobio chegou à ilha trazido por soldados persas, há 2.500 anos. Os últimos assobiadores de Antia conseguem comunicar-se uns com os outros a mais de quatro quilômetros de distância. Gritando, não somos capazes de nos fazer entender além de 400 metros, e rapidamente perdemos a voz.

Felizmente a sfyria não é a última das línguas assobiadas no mundo. Em La Gomera, nas Ilhas Canárias, persiste o silbo gomero. Como a sfyria, o silbo gomero estava à beira da extinção, quando, nos últimos anos do século passado, o governo local decidiu que o mesmo deveria ser ensinado nas escolas públicas. Em 2009, a língua assobiada das Canárias foi reconhecida como Patrimônio Oral Imaterial da Humanidade, pela Unesco, e hoje o seu futuro parece assegurado. Ou seja, existindo vontade política é quase sempre possível reverter o declínio de uma língua.

O colapso das línguas assobiadas está ligado à proliferação dos telefones celulares. Podemos dizer que as línguas assobiadas comprovam a utilidade prática da poesia. Por outro lado, o exemplo da sfyria também nos mostra como a poesia é frágil.
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Habitante de Antia (Grécia)
Muitas das línguas assobiadas conhecidas inspiram-se no canto dos pássaros. Nada que nos deva surpreender. Há muitos anos, enquanto jornalista, entrevistei um poeta e musicólogo angolano chamado Jorge Macedo. Como quase todos os escritores angolanos, Jorge era um personagem interessantíssimo. Estudara marimba em Kinshasa, na atual República Democrática do Congo, uma das cidades mais loucas e mais musicais do planeta. Contou-me que muitas das melodias tradicionais para marimba se haviam inspirado no canto dos pássaros. Deu exemplos, tocando marimba, ao mesmo tempo que imitava diferentes aves canoras. Também me mostrou como algumas palavras do quimbundo e quicongo tinham a sua etimologia na língua secreta dos pássaros.

Poucos anos mais tarde, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, gravei uma entrevista maravilhosa, entre risos e choros, com a cantora Tetê Espíndola, que me explicou como o jazz se originou do canto de certos pássaros. Tendo escutado antes Jorge Macedo, não me pareceu improvável. Tetê, de resto, sabe do que fala — fala passarês. Em 1991, gravou o álbum “Ouvir/ Birds”, no qual junta a sua famosa voz aguda ao canto de diversas aves da bacia amazônica.

Ainda mais tarde, no interior de Angola, conversando com um antigo soldado da Unita, movimento que durante longos anos combateu o regime instalado em Luanda, ele contou-me que no mato, durante a guerra, os guerrilheiros comunicavam uns com os outros assobiando e cantando como pássaros. Disse-me que haviam desenvolvido toda uma complexa linguagem, estudando o canto de diferentes aves.

As conversas com Jorge Macedo, Tetê Espíndola e aquele antigo guerrilheiro sem nome ajudaram-me a escrever “Milagrário pessoal”, um romance que tem como personagem principal a língua portuguesa, mas que trata, na verdade, do fascinante mistério da fala. Descobri, enquanto escrevia o romance, que persistem em culturas diversas, geograficamente distantes umas das outras, um sem número de mitos sobre a participação dos pássaros na criação das línguas humanas. Um dos mais interessantes é o da língua verde, ou língua dos pássaros, utilizada pelos alquimistas, e considerado um idioma perfeito, o único no qual seria possível expressar os mistérios mais profundos da existência. Esta língua verde seria também ela assobiada.

Talvez a sfyria, o silbo gomero, ou qualquer outra das raras línguas assobiadas que ainda resistem sejam, afinal, o idioma perdido dos alquimistas. O que sei, com toda a certeza, é que sempre que uma língua morre perdemos com ela não apenas palavras, mas formas únicas de exprimir sentimentos e emoções — e a cada 14 dias há uma que se extingue.

Talvez a tecnologia ameace algumas destas línguas, como os celulares no caso das línguas assobiadas; contudo, é também a tecnologia que pode ajudar a salvá-las: o Google, por exemplo, criou uma plataforma, a Endangered Languages, onde qualquer pessoa pode colocar vídeos e gravações de áudio, bem como documentos, sobre línguas em vias de extinção. Parece-me necessário muito mais. Mas é um princípio.

José Eduardo Agualusa