domingo, novembro 29

Assim começa o livro...


Havia na Westfália, no castelo do senhor barão de Thunder-ten-tronckh, um jovem a quem a natureza tinha dado os mais suaves costumes. Sua fisionomia anunciava a sua alma. Tinha o juízo bastante reto, com a mente mais simples; era, creio, por essa razão que o chamavam de Cândido. Os antigos criados da casa suspeitavam que ele fosse filho da irmã do senhor barão e de um bom e honesto fidalgo da vizinhança, a quem essa senhorita nunca quis desposar porque ele só conseguiu comprovar setenta e um quartos,1 e porque o resto de sua árvore genealógica tinha se perdido pela injúria do tempo.

O barão era um dos senhores mais poderosos da Westfália, pois o seu castelo tinha uma porta e janelas. Sua grande sala era até ornamentada com tapeçarias. Todos os cães de seu terreiro compunham uma matilha, se necessário; os seus palafreneiros eram os adestradores; o pároco da cidade era seu capelão-mor. Todos o chamavam de “meu senhor” e riam quando ele pilheriava. A senhora baronesa, que pesava cerca de trezentas e cinquenta libras, angariava com isso uma grande consideração, e fazia as honras da casa com uma dignidade que a tornava ainda mais respeitável. Sua filha Cunegunda, de dezessete anos, era corada, fresca, gorda, apetitosa. O filho do barão parecia em tudo digno do pai. O preceptor Pangloss2 era o oráculo da casa, e o pequeno Cândido escutava as suas lições com toda a boa-fé de sua idade e de seu caráter.

Pangloss ensinava a metafísico-teológico-cosmolonigologia. Ele provava admiravelmente que não há efeito sem causa, e que, no melhor dos mundos possíveis, o castelo do senhor barão era o mais belo dos castelos e a senhora, a melhor das baronesas possíveis. “Está demonstrado”, dizia ele, “que as coisas não podem ser de outro jeito: pois tudo sendo feito para um fim, tudo é necessariamente para o melhor fim. Notem que os narizes foram feitos para carregar óculos. As pernas foram visivelmente instituídas para usar calças, e nós temos calças. As pedras foram formadas para ser talhadas e para fazer castelos; assim meu senhor tem um belíssimo castelo; o maior barão da província deve ser o mais bem alojado; e os porcos sendo feitos para serem comidos, comemos porcos durante o ano todo; por conseguinte, aqueles que afirmaram que tudo está bem disseram uma bobagem; era preciso dizer que tudo está o melhor.”

Cândido escutava atentamente, e acreditava inocentemente, pois ele achava a srta. Cunegunda extremamente bela, embora nunca tivesse tido a ousadia de dizer isso a ela. Concluía que, depois da felicidade de ter nascido barão de Thunder-ten-tronckh, o segundo grau de felicidade era ser a srta. Cunegunda; o terceiro, vê-la todos os dias; e o quarto, ouvir mestre Pangloss, o maior filósofo da província e, consequentemente, de toda a Terra. Um dia, Cunegunda, passeando perto do castelo, no bosquezinho a que chamavam parque, viu por entre o matagal o dr. Pangloss dando uma aula de física experimental à camareira de sua mãe, moreninha muito bonita e muito dócil. Como a srta. Cunegunda tivesse muita disposição para as ciências, observou, sem sofrer, as experiências reiteradas de que foi testemunha; ela viu claramente a razão suficiente do doutor, os efeitos e as causas, e voltou muito agitada, toda pensativa, toda cheia do desejo de ser sábia, imaginando que ela bem que podia ser a razão suficiente do jovem Cândido, que também ele podia ser a dela.

Ela encontrou Cândido ao voltar para o castelo, e corou; Cândido também corou; ela lhe disse bom-dia com voz entrecortada, e Cândido falou com ela sem saber o que dizia. No dia seguinte, depois do jantar, ao saírem da mesa, Cunegunda e Cândido encontraram-se atrás de um biombo; Cunegunda deixou cair o lenço; Cândido recolheu-o, ela tomou-lhe inocentemente a mão, o rapaz beijou inocentemente a mão da moça com uma vivacidade, uma sensibilidade, uma graça toda particular; as suas bocas se encontraram, os olhos se inflamaram, os joelhos tremeram, as mãos se apertaram. O senhor barão de Thunder-ten-tronckh passou perto do biombo e, vendo aquela causa e aquele efeito, expulsou Cândido do castelo com grandes pontapés no traseiro; Cunegunda desmaiou; foi esbofeteada pela senhora baronesa logo que voltou a si; e tudo ficou consternado no mais belo e mais agradável dos castelos possíveis.

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