terça-feira, maio 22

A palavra dá solução


Não ameis a distância

Em uma cidade há um milhão e meio de pessoas, em outra há outros milhões; e as cidades são tão longe uma da outra que nesta é verão quando naquela é inverno. Em cada uma dessas cidades há uma pessoa, e essas pessoas tão distantes acaso pensareis que podem cultivar em segredo, como plantinha de estufa, um amor a distância?

Andam em ruas tão diferentes e passam o dia falando línguas diversas; cada uma tem em torno de si uma presença constante e inumerável de olhos, vozes, notícias. Não se telefonam mais; é tão caro e demorado e tão ruim e além disso, que se diriam? Escrevem-se. Mas uma carta leva dias para chegar; ainda que venha vibrando, cálida, cheia de sentimento, quem sabe se no momento em que é lida já não poderia ter sido escrita? A carta não diz o que a outra pessoa está sentindo, diz o que sentiu a semana passada... e as semanas passam de maneira assustadora os domingos se precipitam mal começam as noites de sábado, as segundas retornam com veemência gritando - "outra semana!" e as quartas já tem um gosto de sexta, e o abril de de-já-hoje é mudado em agosto...

F.B. Serger
Sim, há uma frase na carta cheia de calor, cheia de luz; mas a vida presente é traiçoeira e os astrônomos não dizem que muitas vez ficamos como patetas a ver uma linda estrela jurando pela sua existência - e no entanto há séculos ela se apagou na escuridão do caos, sua luz é que custou a fazer a viagem? Direis que não importa a estrela em si mesma, e sim a luz que ela nos manda; e eu vos direi: amai para entendê-las!

Ao que ama o que lhe importa não é a luz nem o som, é a própria pessoa amada mesma, o seu vero cabelo, e o vero pelo, o osso de seu joelho, sua terna e úmida presença carnal, o imediato calor; é o de hoje, o agora, o aqui - e isso não há.

Então a outra pessoa vira retratinho no bolso, borboleta perdida no ar, brisa que a testa recebe na esquina, tudo o que for eco, sombra, imagem, um pequeno fantasma, e nada mais. E a vida de todo dia vai gastando insensivelmente a outra pessoa, hoje lhe tira um modesto fio de cabelo, amanhã apenas passa a unha de leve fazendo um traço branco na sua coxa queimada pelo sol, de súbito a outra pessoa entra em fading um sábado inteiro, está-se gastando, perdendo seu poder emissor a distância.

Cuidai amar uma pessoa, e ao fim vosso amor é um maço de cartas e fotografias no fundo de uma gaveta que se abre cada vez menos...

Não ameis a distância, não ameis, não ameis!

Rubem Braga

Momento de paz

 Aeppol

Intimidade

Para mim esta é a melhor hora do dia — Ema disse, voltando do quarto dos meninos. — Com as crianças na cama, a casa fica tão sossegada.

— Só que já é noite — a amiga corrigiu, sem tirar os olhos da revista.

Ema agachou-se para recolher o quebra-cabeça esparramado pelo chão.

— É força de expressão, sua boba. O dia acaba quando eu vou dormir, isto é, o dia tem vinte e quatro horas e a semana tem sete dias, não está certo? — descobriu um sapato sob a poltrona. Pegou-o e, quase deitada no tapete, procurou o par embaixo dos outros móveis. — Não sei por que a empregada não reúne essas coisas antes de ir se deitar — empilhou os objetos no degrau da escada. — Afinal, é paga para isso, não acha?

— Às vezes é útil a gente fechar os olhos e fingir que não está notando os defeitos. Ela é boa babá, o que é mais importante.

Ema concordou. Era bom ter uma amiga tão experiente. Nem precisa ser da mesma idade — deixou-se cair no sofá — Bárbara, muito mais sábia. Examinou-a a ler: uma linha de luz dourada valorizava o perfil privilegiado. As duas eram tão inseparáveis quanto seus maridos, colegas de escritório. Até ter filhos juntas conseguiram, acreditasse quem quisesse. Tão gostoso, ambas no hospital. A semelhança física teria contribuído para o perfeito entendimento? "Imaginava que fossem irmãs", muitos diziam, o que sempre causava satisfação.

— O que está se passando nessa cabecinha? — Bárbara estranhou a amiga, só doente pararia quieta. Admirou-a: os cabelos soltos, caídos no rosto, escondiam os olhos cinza, azuis ou verdes, conforme o reflexo da roupa. De que cor estariam hoje? — inclinou-se — estão cinza.

Ema aprumou o corpo.

— Pensava que se nós morássemos numa casa grande, vocês e nós... Bárbara sorriu. Também ela uma vez tivera a idéia — pegou o isqueiro e acendeu dois cigarros, dando um a Ema, que agradeceu com o gesto habitual: aproximou o dedo indicador dos lábios e soltou um beijo no ar.

— As crianças brigariam o tempo todo.

Novamente a amiga tinha razão. Os filhos não se suportavam, discutiam por qualquer motivo, ciúme doentio de tudo. O que sombreava o relacionamento dos casais.

— Pelo menos podíamos morar mais perto, então.

Ema terminava o cigarro, que preguiça. Se o marido estivesse em casa seria obrigada a assistir à televisão, porque ele mal chegava, ia ligando o aparelho, ainda que soubesse que ela detestava sentar que nem múmia diante do aparelho — levantou-se, repelindo a lembrança. Preparou uma jarra de limonada. Por que todo aquele interesse de Bárbara na revista? Reformulou a pergunta em voz alta.

— Nada em especial. Uma pesquisa sobre o comportamento das crianças na escola, de como se modificam as personalidades longe dos pais.

No momento em que Ema depositava o refresco na mesa, ouviu-se um estalo.

— Porcaria, meu sutiã arrebentou.

— A alça?

— Deve ter sido o fecho — ergueu a blusa — veja.

Bárbara fez várias tentativas para fechá-lo.

— Não dá, quebrou pra valer.

Ema serviu a limonada. Depois, passou a mão pelo busto.

— Você acha que eu tenho seio demais?
— Claro que não. Os meus são maiores...

— Está brincando — Ema sorriu e bebeu o suco em goles curtos, ininterruptos.

— Duvida? Pode medir...

— De sutiã não vale — argumentou. — Vamos lá em cima. A gente se despe e compara — aproveitou a subida para recolher a desordem empilhada. Fazia questão de manter a casa impecável. Bárbara pensou que a amiga talvez tivesse um pouco de neurose com arrumação.

Ema acendeu a luz do quarto.

— Comprou lençóis novos?

— Mamãe mandou de presente. Chegaram ontem. Esqueci de contar. Não são lindos?

— São.

— A velha tem gosto — Ema disse, enquanto se despia em frente ao espelho. Bárbara imitou-a.

É muito bonita — Ema reconheceu. Cintura fina, pele sedosa, busto rosado e um dorso infantil. Porém, ela não perdia em atributos, igualmente favorecida pela sorte. Louras e esguias, seriam modelos fotográficos, o que entendessem, em se tratando de usar o corpo — não é, Bárbara?

— Decididamente perdi o campeonato. Em matéria de tamanho os seus seios são maiores do que os meus — a outra admitiu, confrontando.

Carinhosa, Ema acariciou as costas da amiga, que sentiu um arrepio.

— O que não significa nada, de acordo? — deu-lhe um beijo.

— Credo, Ema, suas mãos estão geladas e com este calor...

— É má circulação.

— Coitadinha — Bárbara esfregou-as vigorosamente. — Você precisa fazer massagens e exercícios, assim — abria e fechava os dedos, esticando e contraindo na palma. — Experimente.

Eram tão raros os instantes de intimidade e tão bons. Conversaram sobre as crianças, os maridos, os filmes da semana. Davam-se maravilhosamente — Bárbara suspirou e se dirigiu à janela: viu telhados escuros e misteriosos. Ela adoraria ser invisível para entrar em todas as casas e devassar aquelas vidas estranhas. Costumava diminuir a marcha do carro nos pontos de ônibus e tentar adivinhar segredos nos rostos vagos das filas. Isso acontecia nos seus dias de tristeza. Alguma coisa em algum lugar, que ela nem suspeitava o que fosse, provocava nela uma sensação de tristeza inexplicável. Igual à que sente agora. Uma tristeza delicada, de quem está de luto. Por quê?

— Que horas são? — Ema escovava o cabelo.

— Imagine, onze horas. Tenho que sair correndo.

— Que pena. Não sei por que fui pensar em hora. Fique mais um pouco.

— É tarde, Ema. Tchau. Não precisa descer.

— Ora, Bárbara... deixa disso — levou a amiga até o portão.

— Boa noite, querida. Durma bem.

— Até amanhã.

Ema examinou atentamente a sala, a conferir, pela última vez, a arrumação geral. Reparou na bandeja esquecida sobre a mesa, mas não se incomodou. Queria um minutinho de... ela apreciava tanto a casa prestes a adormecer — apagou as luzes. A noite estava clara, cor de madrugada pensou, sentando no sofá. Um sentimento de liberdade interior brotava naquele silêncio. Um sentimento místico, meio alvoroçado, de alguém que, de repente, descobrisse que sabe voar. Por quê?

Edla van Steen

segunda-feira, maio 21

Viajante

Anne Soline

Projeto Bibliochila: interação família e leitura!

'Bibliodiário'
O Projeto Bibliochila, desenvolvido pela Biblioteca Pe. Moreau para as turmas do Jardim II e Pré da Educação Infantil do Santa Maria, tem obtido ótimos resultados e alcançado, além dos alunos, suas respectivas famílias. O projeto consiste no empréstimo de uma mochila personalizada que contém um livro de histórias, um caderno de registros – chamado de Bibliodiário – e alguns itens para que a criança reproduza a história, como fantasia, fantoche, bichinho de pelúcia e instrumento reciclado.

A cada aula de biblioteca, um aluno é sorteado para levar a mochila para casa. O objetivo é realizar a leitura do livro junto à família, utilizando os objetos enviados e registrar sua opinião sobre a história através de escrita, desenho, colagem, foto ou o que a imaginação permitir. Depois, cada aluno apresenta seu registro aos colegas em sala, responde às perguntas sobre o livro e compartilha como foi a visita da Bibliochila em sua casa.

O projeto proporciona aos pais e filhos uma boa experiência de contação de história, estimula a criatividade do aluno, desperta o hábito da leitura e reúne a família, possibilitando o diálogo, a troca, a interação e a união entre seus membros.

Os registros feitos no Bibliodiário são de uma riqueza imensa, através deles percebem-se quais as atividades que o projeto proporcionou em casa, como encenação da história, criação de novas histórias, passeios em família com a presença da Bibliochila, roda de leitura, brincadeiras, entre outras. Acreditamos que a leitura realizada em parceria com a família estreita os laços afetivos da criança com o objeto livro.

Comece bem a semana


O rio

O rio Paraíba corria bem próximo ao cercado. Chamavam-no "o rio". E era tudo. Em tempos antigos fora muito mais estreito. Os marizeiros e as ingazeiras apertavam as duas margens e as águas corriam em leito mais fundo. Agora era largo e, quando descia nas grandes enchentes, fazia medo. Contava-se o tempo pelas eras das cheias. Isto se deu na cheia de 93, aquilo se fez depois da cheia de 68. Para nós meninos, o rio era mesmo a nossa serventia nos tempos de verão, quando as águas partiam e se retinham nos poços. Os moleques saíam para lavar os cavalos e íamos com eles. Havia o Poço das Pedras, lá para as bandas da Paciência. Punham-se os animais dentro d'água e ficávamos nos banhos, nos cangapés. Os aruás cobriam os lajedos, botando gosma pelo casco. Nas grandes secas o povo comia aruá que tinha gosto de lama. O leito do rio cobria-se de junco e faziam-se plantações de batata-doce pelas vazantes. Era o bom rio da seca a pagar o que fizera de mau nas cheias devastadoras. E quando ainda não partia a corrente, o povo grande do engenho armava banheiros de palha para o banho das moças. As minhas tias desciam para a água fria do Paraíba que ainda não cortava sabão.

O rio para mim seria um ponto de contato com o mundo. Quando estava ele de barreira a barreira, no marizeiro maior, amarravam a canoa que Zé Guedes manobrava.

Vinham cargueiros do outro lado pedindo passagem. Tiravam as cangalhas dos cavalos e, enquanto os canoeiros remavam a toda a força, os animais, com as cabeças agarradas pelo cabresto, seguiam nadando ao lado da embarcação. Ouvia então a conversa dos estranhos. Quase sempre eram aguardenteiros contrabandistas que atravessavam, vindos dos engenhos de Itambé com destino ao sertão. Falavam do outro lado do mundo, de terras que não eram de meu avô. Os grandes do engenho não gostavam de me ver metido com aquela gente. Às vezes o meu avô aparecia para dar gritos. Escondia-me no fundo da canoa até que ele fosse para longe. Uma vez eu e o moleque Ricardo chegamos na beira do rio e não havia ninguém. O Paraíba dava somente um nado e corria no manso, sem correnteza forte. Ricardo desatou a corda, meteu-se na canoa comigo, e quando procurou manobrar era impossível. A canoa foi descendo de rio abaixo aos arrancos da água. Não havia força que pudesse contê-la. Pus-me a chorar alto, senti-me arrastado para o fim da terra. Mas Zé Guedes, vendo a canoa solta, correu pela beira do rio e foi nos pegar quase que no Poço das Pedras. Ricardo nem tomara conhecimento do desastre. Estava sentado na popa. Zé Guedes porém deu-lhe umas lapadas de cinturão e gritou para mim:

- Vou dizer ao velho!

Não disse nada. Apenas a viagem malograda me deixou alarmado. Fiquei com medo da canoa e apavorado com o rio. Só mais tarde é que voltaria ele a ser para mim mestre de vida.

José Lins do Rego

domingo, maio 20

Parada para a leitura


O primeiro dia

O que o acordou foi o silêncio. Primeiro, o do despertador que não tocou à hora combinada todas as manhãs. Depois, o de outra respiração, que devia ouvir e não ouvia. Estendeu a mão para o quente do outro lado da cama e encontrou o frio. Apalpou e encontrou vazio. Então, sim, despertou completamente.

Um prenúncio de tragédia desceu por ele abaixo, como um arrepio. O que acabara de se lembrar era que não acordara só por acaso ou por acidente: aquele era o primeiro dia, a primeira manhã da sua separação — o primeiro de quantos dias? — em que acordaria sempre sozinho, com metade da cama fria, metade do ar por respirar.

Era Abril, sábado e chovia. Sentado na cama, lembrou-se das instruções que dera a si mesmo para aquela manhã: fazer peito forte à desgraça. Nada é inteiramente bom, mas nada é inteiramente mau - pensou. Posso ler à noite até me apetecer sem me mandarem apagar a luz, posso dormir atravessado na cama, posso-me livrar daquele rol de cobertores com o qual ela me esmagava, fizesse sol, chuva ou frio, porque as mulheres são mais friorentas que eu sei lá, posso usar a casa-de-banho todo o tempo que quiser, posso espalhar as roupas, os jornais e os papéis pelo quarto à vontade e até - oh, suprema liberdade — posso fumar à noite na cama.

Levantou-se para se olhar ao espelho da casa-de-banho. Sorriu à sua própria imagem, ensaiou-a calma, tranquila, confiante. Imaginou mentalmente o texto que poderia redigir sobre si mesmo para a secção de anúncios pessoais do jornal: “Divorciado, 40 anos, bom aspecto, licenciado, rendimento médio-alto, casa própria e espaçosa, desportos, ar livre, terno e com sentido de humor”. Mulheres compatíveis? Deus do céu, dezenas delas! Sou um partidão — concluiu para o espelho.

Calmo, tranquilo e confiante, passou aos outros aposentos da casa para dar uma vista de olhos ao resultado da partilha dos móveis, aliás feita sem grandes problemas, como é próprio de gente civilizada. Por alto, entre o living, o hall, o escritório, a cozinha, o quarto de casal e as duas casas-de-banho, estimou nuns setecentos contos o preço da reposição das coisas em falta. Mais metade dos livros e dos CD's, quase todas as fotografias dos últimos dez anos das suas vidas e algumas outras coisas cujo verdadeiro valor era o vazio que encontrava se olhasse para o lugar onde elas costumavam estar.

“Até agora vou-me aguentando”, considerou ele. Entre perdas e danos e a certeza adquirida de que nada dura para sempre, restavam-lhe várias razões e objectos e sentimentos para olhar em frente sem um sobressalto.

Enquanto fazia, com um prazer insuspeitado, o seu primeiro pequeno-almoço de homem só, passou à fase seguinte do que chamara o “plano de sobrevivência”: desfolhar a agenda de telefones em busca de amigos igualmente sós com quem fazer “programas de homens” ou de antigas namoradas, que se tinham separado ultimamente ou outras que achava acessíveis mas que nunca tivera a coragem e a oportunidade de aproximar. A primeira desilusão foi com os amigos: de A a Z, realizou que só tinha dois amigos sem mulher e, para agravar as coisas, com nenhum deles lhe apetecia sair e entrar numa de “anda daí e mostra-me lá como é o mundo lá fora”. Quanto às mulheres que julgava sortables, sempre eram cinco, mas o resultado foi quase patético. Duas já não moravam naqueles telefones, outra tinha-se casado entretanto, e o marido estava ao lado a ouvir a conversa, o que o deixou completamente idiota a inventar pretextos absurdos para o telefonema. Do número da quarta atendeu uma criancinha e ele desligou e foi só na última da lista que finalmente teve sorte: sim, a Joana morava ali, era ela própria ao telefone. Não, não estava casada nem, pelo que, esforçadamente, percebeu, tinha namorado. Sim, ok, por que não irem jantar logo, para falar do projecto que ele tinha e onde ela poderia caber. “Ah, a tua mulher não vem? Separados? Não, não sabia. Recente? Pois, essas coisas são tão chatas, mas ainda bem que reages e tens projectos novos e tudo! Ok, às oito e meia vens-me buscar”. Ele teria desligado quase em êxtase, não fosse a frase final dela, à despedida, que o deixou verdadeiramente abalado. “Olha, vais-me achar uma grande diferença. A idade não perdoa a ninguém, não é?”

Enfim, sempre era um date. O primeiro, certamente, de uma longa lista. O que interessa se for um flop — achas que ias encontrar uma mulher super logo ao virar da esquina? É preciso é entrar no circuito, pá, começar a sair, a ser visto, fazer com que as pessoas saibam que estás disponível. O resto vem por arrasto.

Passeou-se pela casa, pensativo, fumando o primeiro cigarro do dia. De repente lembrou-se que ainda não tinha visto o quarto do filho. A cama e a escrivaninha tinham ido, assim como praticamente todos os brinquedos. Sobrava um boneco de peluche, três ou quatro carrinhos semi-partidos, uns legos e um quadro para fazer desenhos, com os respectivos marcadores, pousados, à espera de uma mão de criança. A mesa-de-cabeceira ficara e parecia absurda no meio do quarto, sem a cama nem os outros móveis, com um retrato dele e do filho numa praia do Algarve, sorrindo, abraçados um ao outro. Sem saber porquê, sentou-se no chão encostado à parede, muito devagar, a olhar para a fotografia. Duas grossas lágrimas escorregaram-lhe pela cara abaixo e caíram na madeira do chão, entre as pernas. Foi só então que ele percebeu que estava a chorar.
Miguel Sousa Tavares

sábado, maio 19

Começou o dia

Rosemary Leach

Ninguém espera o velho

Na Mariano Torres, há um velho muito velho. Brinca de estátua consigo mesmo, no meio da ciclovia. Fica lá, de pé, um bom tempo. Só se mexe quando vê passar um sujeito correndo, se exercitando. Uma presença fugaz, essencialmente jovem e atlética, que o desperta da inanição. O velho se ouriça, o que não quer dizer que rejuvenesça. Na verdade, o ataca uma súbita nostalgia das competições, e ele decide aderir também à correria, aproveitar o vácuo do outro. Aguenta cinco metros e, arfante, desiste. Mas ainda dá um jeito de gritar, ou gemer, para o atleta que se distancia: espera, espera o véio!

Em vão. O atleta não espera. Vai treinar no Passeio Público, nem notou que o chamavam, tem seus compromissos, quem sabe até o patrocinem e seja pago para não esperar. Tudo bem. Cansado, o velho volta a petrificar-se, precisa poupar bateria. Perdeu a corrida, desperdiçou um estímulo, mas fundamental é competir, e sobreviver talvez seja só isso, insistir em participar, questão de teimosia.

O velho, portanto, se recolhe, na expectativa de novas oportunidades. E está com sorte: um segundo corredor não demora a despontar na ciclovia. Vem no sentido oposto ao do primeiro, acaba de sair do Passeio Público. Novamente acionado pelo movimento alheio, o velho busca interceptá-lo, estende as mãos diante dele, mas seus braços são de vento, e seu arbítrio, um vapor de baixa densidade. O corredor o dissipa e segue em frente, surdo aos apelos do corcundinha que, aos arrancos, o persegue: espera o véio, espera o véio!

Nada feito. Dois ciclistas voam por ele, e depois um guri de skate, uma moça com fones de ouvido, e três caras de regata branca, calção justo e aspecto militar, todos trotando. O velho tenta acompanhá-los, se fazer ouvir e enxergar, acelera, freia, acelera, e muda de direção uma vez, e outra, e mais outra, direita, esquerda, direita, e corre pra lá e pra cá atrás dos moços, e atrás até de cães, borboletas, drones e aviõezinhos de papel, amigos e dispositivos imaginários. Pede que o esperem, e já nem sei se está bêbado, confuso, senil, esperançoso ou otimista, tanto faz, pois o resultado é sempre igual: ninguém o espera, e nem eu, que passo devagar e não quero ouvi-lo.

A despeito de tais fracassos, a vida segue e os treinos se sucedem, assim como os corredores. Cada qual com seu cronômetro. No fundo, nada muda, tudo está sob controle, as instituições preservadas, é o que celebram por aí, é só verificar. As tirivas matraqueiam nas paineiras do Largo Bittencourt e escavam suas bagas, lançando sementes voadoras por toda parte. Os alfeneiros estão de novo roxos e pensos, maio acabou, e as últimas florações das árvores-da-china murcharam. Tudo certo.

Preocupado, vou ao banco, mas registro que sua porta giratória continua funcionando à perfeição, comendo e cuspindo, sem distinção de gosto, investidores e inadimplentes, assalariados e desempregados, clientes e contínuos. Para um banco tudo é saboroso, podemos serenar. Do céu, nos vigiam os helicópteros; na terra, as manifestações avançam em círculos. No ar, já se vão esvanecendo todas aquelas coisas belas e misteriosas com que jamais sonharão os nossos inúteis sistemas de elucidação do mundo.

Tudo vai bem. E, no entanto, no meio da ciclovia, um velho pede que o esperem.

Dia de passeio


Retalhos

A felicidade é um manto feito de retalhos, em que nos agasalhamos muito tarde. Retalhos de alegria, de pequenos prazeres, de algum consolo, de todas as ilusões que nos revelaram a alma que nós temos. Sem saber, serenamente, vamos fazendo, com a vido cotidiana, que pertence a todos, a nosso vida, que ninguém conhece, vida reflexo de tudo que nossos olhos elegeram, de tudo o que o nosso coração amou. Nas nossas palavras encontramos palavras velhas. Certos pedaços de música, ouvidos um dia, nunca mais esquecemos. Vêm do fundo da nossa infância. Vêm, longe, da juventude... A noite vai chegar. É a partida para a viagem de regresso.
Álvaro Moreyra

sexta-feira, maio 18

Eletrônica


Gadinho de osso

Aquilo, sim, que era estância! Não havia, em toda a volta, outra tão linda. Campo de pura Flexilha. Aramado caprichado, com mourões de pauzinhos e os fios feitos de barbante. E tinha até banheiro para se banhar o gado, embora fosse tão só um buraco que a gente enchia de água para ali atirar o boi e tirar-lhe o carrapato. Eu brincava horas a fio. Só o que tinha que evitar, com muito jeito, é que a porca ali chegasse, com a fileira de leitão; se visse vinha escangalhando tudo, botava o aramado abaixo, só eu sei a trabalheira em refazer tudo, depois.

Quando pra os grandes era dia de carneada, pra mim e o meu primo era dia de tropeada. Daquele ossinho comprido, que parece ter as patas e duas pontas de aspas, a gente tirava as vacas. Chicossuelo era touro. Das patas, vinha a cavalhada. E, do espinhaço, as ovelhas.


A lida do trivial era repontar boiada duma invernada pra outra. Em dia de banhação a caneca do barril não tinha folga: nem bem se botava a água, já a terra seca chupava, dê-lhe água novamente. Mas o brabo mesmo era o solaço de verão, nos dias de marcação, com a gente atirando laço, correndo de lá pra cá, aplastado de suor. Mas aí chegava a Leila – a priminha sempre amiga – servindo mate pra mim...

Recordo que um dia peleei feio com um domador novo nas casas, o Cesário, porque me roubou o melhor touro e com ele foi jogar jogo-de-osso no galpão. Parei patrulha! Berrei até que o Cesário teve que me devolver. Mas, naquele dia, morreu a barrosa velha no piquete das tambeiras, foi ele quem foi courear, na hora lembrou de mim, voltou com oito cavalos de presente pra minha estância, fiz as pazes, se abracemo.

Naquela estância – única estância que tive, mas que acompanha minha vida – passei as horas mais lindas do meu tempo de piá.

E hoje, quando me vejo embretado em cidade grande e tão longe da querência, há ocasiões em que acordo ouvindo os gritos campeiros de outrora. É festa de marcação!

– Abre a porteira, Cesário, que venho trazendo os boizitos da Invernada da Saudade!

– Me ceva um mate, priminha, que a sede está me tonteando!

– E aviva o fogo! E esquenta a marca! Já está vermelha? Então...

... Tchhhhhh!

A marca do Rio Grande marcou a fogo minha tropa da saudade.
Barbosa Lessa

quinta-feira, maio 17

Começando bem


Saber viver

Enchi o meu gabinete de trabalho de livros bons, a minha vida moral com a minha arte, a meu gosto, sem me preocupar com o sucesso, com o mercado, com a publicidade, coisas imprescindíveis a quem quer vencer, e rodeei-me duma dúzia de amigos fanáticos cuia admiração me orgulha e me faz bem
Florbela Espanca, "Correspondência"

Crocodilo na biblioteca

Wallace Edwards

Livros, histórias, sensações

Hoje consigo ler no escuro. Não exatamente escuro, na verdade eu gosto de ler na pouca luz. O que permite isso é o livro digital pela luz da tela. Infelizmente não posso mais fazer o mesmo com os livros físicos, porque não enxergaria. Mas esse ambiente de sombras me dá a sensação da volta à infância e estar bem guardada entre livros.

Acordava mais cedo para ler por mais tempo. A casa ainda dormia, e eu com os claros olhos das crianças conseguia ler mesmo sem acender a luz. Não havia abajur no grande quarto de quatro camas que eu dividia com minhas irmãs mais velhas. A luminosidade do dia apenas se insinuava pelas vidraças das janelas sem cortina da casa, e eu já estava de volta às aventuras dos livros que capturavam minha mente. Meu pai costumava dar uma incerta:

– De novo lendo no escuro. Levante, tome café e vá para um lugar iluminado. Você vai estragar a vista - dizia ele.

Forçada, saía do aconchego da cama, do escurinho e do livro e ia fingir interesse pela comida posta sobre a mesa. Apenas pelo tempo suficiente para voltar correndo para o livro. Nunca estraguei a vista. Só o tempo impôs o óculos para leitura. O que ficou foi a sensação que liga leitura a aconchego.

Foi esse encantamento com o livro que me levou de volta à literatura infantil, como escritora. Exatamente a magia que sentia na penumbra das manhãs mal começadas nas quais eu retomava a leitura interrompida no sono da noite, e me deixava levar.

De vez em quando ouço que uma criança gostou de um livro meu e isso me deixa em deslumbramento. Outro dia uma amiga escreveu dizendo que o filho aprendera a ler, mas pede para ela ler antes de ele dormir. E ultimamente tem pedido sempre um livro meu com o qual está encantado.

O que faz nos dias de hoje uma criança leitora eu não sei. Sei que quero fazer parte da contra-corrente, contra-cultura, contra-tendência e passar para as crianças que vivem em volta de mim, e das que me leem, a magia do livro. Não é exatamente uma briga contra os devices eletrônicos, que são inevitáveis e úteis plataformas, mas o livro alma, uma história que fica, uma ligação que não se desfaz. É isso que busco.

O motorista que me levou na semana passada à minha cidade, em Minas, me falou que quando criança a sua mãe contava sempre a mesma história. Não sabia outras. Apenas aquela que ele nunca esqueceu. Não há nada de diferente nas crianças de hoje. As mudanças tecnológicas não alteraram sua natureza. Criança gosta de história. Hoje alguns livros não têm exatamente história. Querem tanto agradar às crianças que montam brincadeiras, mas não constroem enredo, não tentam envolver a criança numa sucessão de eventos. Fui com meu neto Daniel a uma livraria e ele, depois de muito procurar, reclamou que só tinha encontrado “livro-atividade". Ele queria uma história, que acabamos encontrando.

Outro dia fui visitar uma irmã e a neta dela de três anos ficou brincando perto enquanto a gente conversava. De repente, ela se levantou, pôs as mãos na cintura, e me disse:

– Você está aqui há muito tempo e até agora não me contou uma história.

Minha neta mais nova estava chorando sentido. Chorava por bons motivos, e se eu estivesse no lugar dela faria a mesma coisa. Eu a coloquei no colo e inventei uma história boba, meio real, de um jacu que atacava a horta da Chiquinha. E a mulher plantava outra horta em outro lugar e lá ia o jacu e comia tudo. E criei uma negociação entre Chiquinha e a ave e fui por aí em invencionices. O choro parou, ela enxugou as lágrimas e pediu para contar de novo. História é acalanto.

Recentemente meu marido inventou uma história para os netos maiores com um enredo tão cheio de desdobramentos inesperados que ele mesmo esqueceu. No novo encontro, os mais velhos disseram para os mais novos que o vovô sabia uma história incrível. Só que Sérgio tentava recuperar a ordens dos fatos e se atrapalhava. Os netos então contaram a história inteira e pediram para ele escrever para não esquecer mais.

Pais hoje preferem muitas vezes entregar um cala-boca eletrônico a contar uma história. Não quero parar a roda da tecnologia, mas continuarei convencida de que as histórias, os livros, os relatos da infância dos pais e avós, as criações mágicas a partir de retalhos da realidade são mais do que um passatempo. Vão fertilizar as mentes, vão construir sensações, vão atar relações para a vida inteira.

Miriam Leitão