sábado, fevereiro 17

Vida vazia

Barriga de quatro meninos

Bevenuto era seu nome de batismo. Baixote, barrigudinho, olhinhos sumidos no rosto de sagui. Cabelos de índio na cabeça pequena, pernas finas. Levava a vida no trabalho diário, por trás do balcão. Sua vendola ficava no meio do quarteirão da rua estreita, por onde não passava carro, às vezes servindo de campo de futebol improvisado para a garotada se divertir aos gritos no vaivém do jogo.

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A preocupação maior era que até o momento não tinha se tornado pai, casado há seis anos e nada da mulher Cidália emprenhar, dando-lhe de preferência um menino na primeira barriga. Não havia perdido a esperança, a boa surpresa podia acontecer um dia. No primeiro ano de casado, vendera as duas carroças de fazer mudança e aproveitara o cômodo da casa pequena na frente para instalar ali uma venda. Naquele cômodo, antes era uma sala, piso de cimento, vendia cigarro, charuto, fumo, fósforo, vela, aguardente; requeijão, farinha, milho, carvão. Pão, bolacha, cocada de coco, balas de jenipapo que a mulher fazia e a garotada achava uma delícia. Abria cedinho o pequeno estabelecimento, mesmo sabendo que os fregueses apareciam a partir das oito horas. O movimento dos fregueses era razoável na semana, melhorava no sábado.

Não gostava de emitir opinião sobre algum fato grave que abalava a cidade pequena. Não se encaixava com o seu jeito de homem reservado, mais para escutar, não gostava de se meter na vida dos outros. Tinha só que se preocupar com o seu trabalho diário na venda. Acostumara-se desde pequeno a ver a vida como uma viagem em que tudo acontecia porque tinha de acontecer mesmo. O destino era quem comandava os passos de cada vivente na estrada da vida, como certa vez lhe dissera o avô Bertino, um de cara de índio. Do passado, a gente deve só lembrar as boas, as amargas nunca. Viver, sim, o presente, que o futuro ninguém tem controle, completou o avô, o rosto sereno, de quem sabia das coisas, como se fosse uma espécie de filósofo popular, acumulado de lições proveitosa que a vida lhe ofertava sem nada cobrar.

Saltou um brilho dos olhos miúdos do Bevenuto quando Cidália acordou toda alegre naquele dia de domingo. Nossa Senhora Perpétua do Socorro atendera finalmente seus rogos, com vela acesa e reza do peito contrito, durante a semana. Antes de sair para a missa, noticiou ao marido que ultimamente estava com uma fome indomável, tinha vontade de comer até pedra, um enjoo esquisito, vomitava em segredo. Resolveu ir ao posto popular do bairro para consultar o médico. Soube dele que estava grávida. Melhor presente ele não podia ter recebido da Cidália, já na segunda-feira atendera aos fregueses num jeito tão falante como ainda não tinha acontecido.

Mais surpreso ficaria quando tomou conhecimento que a mulherzinha iria ter gêmeos. Que presentão, que notícia supimpa! Ah, a vida, gostava de fazer certas brincadeiras de bom gosto ou com asneiras, que deixam o vivente lambuzado de contente ou como um herói abatido, conforme o desfecho. Ainda bem que agora ela apareceu de bom grado para o lado dele. Iria satisfazer em definitivo o desejo de ser pai. Só não ficou mais satisfeito quando soube depois que a Cidália teve uma parição de quatro meninos. Com rendimentos modestíssimos que a venda fornecia, a vida, que já não era fácil, de agora em diante ia ser um suplício. Como iria se arranjar para alimentar e educar quatro filhos? Cidália recebeu a ajuda da Irmandade Senhoras de Caridade, que recolheu donativos entre os comerciantes e moradores das ruas principais da cidade. As contribuições deram para comprar o enxoval das quatro crianças e o leite em pó durante o primeiro ano. Outras contribuições vieram de pessoas que moravam na rua onde Benvindo mantinha a sua venda. Ajudaram na feira semanal, durante certo tempo.

Em casa com apreensões e muxoxos. Na venda tinha de ser compreensivo e sorridente com certos fregueses. Precisava manter a freguesia, mais que nunca. Curiosos, alguns dos fregueses queriam conferir de perto se a notícia era verdadeira. Aquela mulher magrinha, de estatura baixa, tivera mesmo quatro meninos duma só barriga? Durante a gestação, a barriga pequena nem parecia suficiente para ter um filho quanto mais quatro num só despejo, o de boca desdentada observava, junto do balcão. Tratava-se de verdadeira heroína! – outro dizia admirado, o mais afoito entre os três, que conversavam animados. Todo sorridente, pediu mais um copo de cachaça para comemorar o feito da mulherinha incrível.

Os quatro meninos foram batizados com os nomes de Geraldino, Genolino, Natalino e Nivaldino. Quando se tornaram rapazes, já dispostos para o esforço da vida, vivendo do suor do corpo, dois disseram ao pai que tinham escolhido como profissão para sobreviver a atividade mecânico de carro, os outros preferiram o ofício de eletricista. Assumiam suas atividades na semana, no domingo destacavam-se como jogador de futebol na liga amadora da cidade. Defendiam a camisa azul da aguerrida equipe do Janízaros Futebol Clube. Eram atacantes rápidos e com algum recurso técnico. Quando um deles fazia um gol, o difícil para a torcida era saber quem fora o autor da proeza. Nivaldino, Natalino, Geraldino ou Genolino?

Cyro de Mattos

sexta-feira, fevereiro 16

A melhor sala para se estar

Romance e romances: a arte da leitura

Ao longo do tempo, alguns escritores debruçaram-se sobre a leitura do romance, a origem da ficção e o papel do leitor. Mas não conseguimos chegar ao "centro secreto" da questão. "Centro secreto" é a expressão usada por Orhan Pamuk em O romancista ingênuo e o sentimental, para sublinhar a diferença entre o romance e as outras narrativas literárias. Segundo o escritor turco, o romance, e só ele, tem um centro secreto. Que centro é esse? De que é feito? Trata-se de um centro real ou imaginário? Tolstoi chamou a esse centro de "sentido da vida". O leitor, ainda segundo Pamuk, age como um "caçador que vê um indício em cada folha e em cada galho e os examina com toda a atenção, à medida que avança pela paisagem".

Tarde de nieve y lectura (ilustración de Sandy Vazan )
 Sandy Vazan
Para esse Prêmio Nobel de Literatura, Anna Karenina, de Tolstoi, é o maior romance de todos os tempos e sublinha a descrição do regresso de comboio de Anna a sua casa em São Petersburgo, ao marido e ao filho, após ter conhecido Vronski em Moscovo. Sublinha igualmente a descrição de Pierre a observar do alto de um monte a batalha de Borodinó, em Guerra e paz, do mesmo escritor russo.

O leitor é alguém que observa pela janela, confortavelmente, o panorama da batalha. Está diante de uma grande paisagem pintada, não entre as palavras de um romance, acrescenta. Por outro lado, em A metamorfose, de Kafka, com sufocantes atmosferas interiores, o leitor deixa-se influenciar e procura constantemente o aprisionamento da personagem. A ilusão de que o livro nos imerge num universo tridimensional dever-se-ia à presença do centro secreto. Mais imaginário do que real.

Quando lemos um romance ocorrem dentro de nós várias sensações. Essas sensações interiores diferem do que sentimos quando vemos um filme, contemplamos um quadro ou ouvimos um poema? Um romance pode proporcionar os mesmos prazeres que a leitura de uma biografia, a visão de um filme, a leitura de um conto ou de um poema, no entanto "o efeito singular e verdadeiro da arte do romance é fundamentalmente diferente do de outros géneros literários, do filme ou do quadro", segundo Pamuk.

José Ortega y Gasset, no livro que escreveu sobre o Dom Quixote, afirma que lemos romances de aventura, romances de pouca qualidade (de amor, espionagem ou histórias de detectives) ou novelas de cavalaria para ver o que acontece na sequência da história, mas lemos o romance moderno pela sua atmosfera, o que é mais valioso. O filósofo espanhol parece portanto retirar valor à obra de Cervantes, um autor consagrado da História da Literatura.

Os alemães consideram a Bildungsroman o gênero mais condizente com o espírito e a forma da arte do romance. Ou seja, a obra que narra a educação e o amadurecimento de jovens personagens em sua adaptação à vida e ao mundo. O "romance de formação". É o caso de A educação sentimental, de Flaubert, ou A montanha mágica, de Mann.

E o que dizer, por exemplo, do nouveau roman de Alain Robbe-Grillet ou Michel Butor? Adiante. Ao ler um romance, sobretudo nas passagens que mais surpreendem e espantam os leitores, perguntamo-nos se a história que nos é contada é uma experiência real e em que medida é penetrada pela imaginação do escritor. (Mario Vargas Llosa, a respeito do seu primeiro romance, A casa verde, proferiu uma conferência nos EUA sobre os meandros da sua consciência que teriam levado à trama e personagens desse seu livro passado na Amazônia peruana. Trata-se da melhor reflexão divulgada a este respeito, de que tenho conhecimento, por parte de um romancista).

Perdemo-nos no romance, mas com ingenuidade pensamos que é real. A vitalidade da obra provém, em grande parte, da sua confiança em gerar esse efeito. Acreditar em ideias contraditórias. E assim, como afirma Pamuk, "uma terceira dimensão da realidade começa, pouco a pouco, a emergir dentro do leitor: a dimensão do complexo mundo do romance. Os seus elementos conflituam mutuamente, porém ao mesmo tempo são aceites e descritos". Ou seja, a leitura suspende a experiência e a recompõe em outro contexto.

Temos um outro aspecto: as personagens que lêem. "Hamlet entra lendo um livro" (sinalizou Shakespeare) ao encontrar-se com Polónio que lhe pergunta o que está a ler. O ambiente é a luta pelo poder no reino da Dinamarca. "Palavras, palavras, palavras", responde o príncipe. Marlowe, o detective privado dos roman noir de Raymond Chandler, dialoga longamente sobre T.S. Eliot com um motorista negro, antes de decifrar um violento crime em Los Angeles. A tensão entre a cultura de massas (cujo campo é a informação) e a alta cultura (inspirada na experiência) é bem mediada neste estilo de narrativa policial de origem norte-americana.

"Que livro levaria para uma ilha deserta?", é pergunta recorrente em inquéritos da sociedade de massas. Há uma relação entre leitura e ilha deserta - e Robinson Crusoé é o modelo do leitor isolado. O que ele lê dirige-se só a ele. O leitor ideal é aquele que está isolado, fora da sociedade. Podemos chegar a consensos. A literatura transmite experiência e não informação e o romance é mais eficaz quando compreende as personagens e não quando as julga.

Enfim, a intimidade que se estabelece entre o leitor e o escritor, a ilusão de que o romance que o leitor lê foi escrito unicamente para ele e a cumplicidade entre o romancista e o leitor que a obra consegue estabelecer, que ajuda o leitor a evadir-se, parecem ingredientes necessários a um bom romance. Ou, como escreveu E. M. Forster em Aspectos do romance: "O teste final de um romance será o afecto do leitor por ele.

 Jacinto Rêgo de Almeida

Encontro noturno

 Debbie Tung 

O amendoim e a fábula

Veio de longe para tentar a vida no Rio. Queria ser escritor. Até a idade de oito anos vendera amendoim torradinho.

Entre o amendoim torradinho e a glória, o caminho era duro, mas ele seria forte. O físico não ajudava: pequenino, magrinho, nervoso. Tipo ideal para extrema esquerda do Olaria.
Sabia escrever e escrevia bem. Não tinha cultura, mas ninguém precisa ter cultura para escrever. Cultura até atrapalha.

Amor também atrapalha. E começou a amar e a ficar atrapalhado. Quando levou o primeiro fora respeitável, deixou crescer a barba em sinal de protesto ou de dor. Protesto um tanto lírico, dor um tanto velhaca, mas a cara adquiriu aspectos sombrios, parecia efígie de selo belga.

s.o.s

Murmuram as línguas informadas que nunca esqueceu esse primeiro amor. Se não esqueceu, pelo menos não abriu as veias: enfrentou novamente a vida e o amor, e foi amando e escrevendo para os jornais. Mas, ao fim da noite, quando se olhava no espelho, ele sabia que amara e fora traído, sofrera e gozara apenas para esquecer a primeira.

Saía então para beber. Bebia e perdia o emprego. Mudou de jornal, em um ano percorreu todas as redações do Rio e todos os bairros onde houvesse mulher digna de seu amor e de sua dor. Ameaçava escrever um romance quando os amigos diziam que ele estava se perdendo.

Até que um dia correu a notícia: fugira com uma mulher casada para Brasília, num Volkswagen. A notícia tinha metade digna de crédito: a fuga com a mulher casada. A metade inverossímil era o Volkswagen -os tempos andavam magros, e ele não tinha dinheiro nem para o bonde.

Mas o carro podia ser da mulher, e aí a fuga faria sentido. Não fez sentido foi a semana seguinte. Voltaram os dois de Brasília, ele e ela, sem Volkswagen mesmo. O marido perdoou a esposa prevaricadora, e a esposa, livre da prevaricação, tomou fobia pela cara do ex-amante, e o ex-amante tomou pifões em diversos bares e escreveu cartas que os suplementos literários publicavam.

Recusou oferta de um emprego em Brasília. Volta e meia os governantes querem prestigiar a classe e convidam tudo quanto é intelectual para os gabinetes. Em uma dessas ondas, veio o convite e seguiu a recusa:

-Vim ser escritor no Rio, e não funcionário em Brasília!

Atitude e a frase eram dignas de figurar na Enciclopédia Britânica, e, por causa disso, pediu R$ 500 ao amigo: estava na negra. Precisava encher a cara, uma infiel de Ipanema. Dera-lhe sopa no teatro e bolo no dia seguinte.

-Como pode, hein?

-Mulher é assim mesmo.

-Mas elas mudam tanto!

-Isso já está em ópera.

Não foi beber com os R$ 500. Foi é enfrentar um macarrão com bastante queijo, matar a fome de dois ou três dias.

E, dois ou três dias depois, ameaçou suicídio. Uma mulata fatal, de olhos enormes, carnuda. Tomou enorme pifão e tentou a morte: pulou da janela.
Mas não morreu nem se feriu: dois meses atrás morava num oitavo andar, agora morava no chão -a altura da janela não deu nem para curar a bebedeira.

Agora sim, iria escrever um romance. Todo mundo acreditou no romance, inclusive ele.

Comprou resmas de papel, máquina portátil, fez um esboço que chegou a publicar. O livro passou a ser citado. Duas ou três passagens conhecidas de relato oral foram incorporadas definitivamente aos melhores momentos da ficção nacional.

Raspou e deixou crescer a barba inúmeras vezes, amou e foi traído, pulou janelas e empregos, foi envelhecendo e perdendo a pinta de menino prodígio, os olhos ficavam baços atrás das lentes cada vez mais grossas.

Pelas madrugadas da cidade, é agora um vulto que passa sempre às mesmas horas e nos mesmos lugares, procurando público e amor. Qualquer um dos dois serve: tanto o amigo que ouvirá mais um trecho do romance que ainda não escreveu como a moça que lhe despertará paixão, ciúmes, novas e sofridas epístolas.

Some pela rua escura. O passo é nervoso, ligeiro. Tem ainda a agilidade do vendedor de amendoim. E o cansaço do homem grande que o vai envolvendo em silêncio e tornando cada vez mais obstinada a vontade de ser feliz.
Carlos Heitor Cony

quinta-feira, fevereiro 15

Em casa, à moda antiga

A great place to read by Artist: Annika Connor The Lovejoy Approach, 21st century.

Livros de amor

O livro nas mãos do padre foi como isca para os olhos de Antonio José Bolívar. Pacientemente, esperou até que o padre, vencido pelo sono, o deixasse cair de um lado.

Era uma biografia de são Francisco, a qual ele examinou furtivamente, sentindo que ao fazê-lo cometia um pequeno roubo.

Juntava as sílabas, e à medida que o fazia, o desejo de compreender tudo o que havia naquelas páginas o levou a repetir a meia voz as palavras capturadas.

O padre despertou e observou, divertido, Antonio José Bolívar com o nariz metido no livro.

— É interessante? — perguntou.

— Desculpe, eminência. Mas eu o vi dormindo, e não quis incomodá-lo.

— Interessa-lhe? — repetiu o padre.

— Parece que fala muito de animais — respondeu timidamente.

— São Francisco amava os animais. Amava todas as criaturas de Deus.

— Eu também gosto deles. À minha maneira. O senhor conhece são Francisco?

— Não. Deus me privou de tal prazer. São Francisco morreu há muitíssimos anos. Quer dizer, deixou a vida terrena e agora vive eternamente junto ao criador.

Para los enamorados del libro y la lectura: Feliz Día de San Valentín / For lovers of books and reading: Happy Valentine’s Day
(ilustración de Alberto Gamón)

— Como sabe disso?

— Porque li o livro. É um dos meus preferidos.

O padre enfatizava suas palavras acariciando a rafada brochura. Antonio José Bolívar o olhava enlevado, sentindo a coceira da inveja.

— O senhor leu muitos livros?

— Uma porção. Antes, quando ainda era jovem e meus olhos não se cansavam, devorava toda obra que parasse em minhas mãos.

— Todos os livros tratam de santos?

— Não. No mundo há milhões e milhões de livros. Em todas as línguas, e abrangem todos os temas, inclusive alguns que deveriam estar proibidos aos homens.

Antonio José Bolívar não entendeu aquela censura e continuou com os olhos cravados nas mãos do padre, mãos gorduchas, brancas sobre a brochura escura.

— De que falam os outros livros?

— Já lhe disse. De todos os temas. Há livros de aventuras, de ciência, histórias de seres virtuosos, de técnica, de amor…

O último interessou-lhe. Conhecia do amor aquilo que ouvia nas canções, especialmente nos pasillos cantados por Jurito Jaramillo, cuja voz de guaiaquilenho pobre às vezes escapava de um rádio de pilhas tornando os homens taciturnos. Segundo os pasillos, o amor era como uma picada de um inseto invisível, mas procurado por todos.

— Como são os livros de amor?

— Temo que não possa lhe falar disso. Não li mais que um par.

— Não importa. Como são?

— Bem, contam a história de duas pessoas que se conhecem, se amam e lutam para vencer as dificuldades que os impede de ser felizes.

Luís Sepúlveda, "Um velho que lia romances de amor"

Árvore da sabedoria

Qual a melhor forma de incentivar a leitura do seu filho?

Forçar uma criança a ler pode atrapalhar seu desenvolvimento natural. Mas infelizmente isso acontece com frequência, pois algumas famílias costumam antecipar essa situação. Um aluno na fase de Educação Infantil ou de séries iniciais do Fundamental está em processo de alfabetização, que acontece desde seu ingresso na escola. Esse desenvolvimento é muito espontâneo. O pequeno tem uma motivação, que é interna, e tem todo estímulo externo, trazido pela escola e família. Porém, temos que respeitar o tempo de cada um, pois a aprendizagem é individual. Não podemos pular alguma etapa desse desenvolvimento. Nesse sentido, a escola é que sabe dessa caminhada e entende o processo. Por não ser especialista na área, muitas vezes a família pode não compreender e tomar um direcionamento errado. Portanto, a ajuda por parte dos pais é mostrar para a criança a importância da leitura e qual a sua função social, mas sem obrigá-la a ler.

Pai e mãe tornam-se bons exemplos sendo leitores. O segredo é motivar e não exigir. De que forma? Ler para seus filhos, levá-los à biblioteca, à livraria e ter um ambiente letrado em casa. Esses são fatos que ajudam muito mais que atitudes formais de estudo. É a escola que vai orientar a família. Com mais de 30 anos na área de educação e também atuando como coordenadora pedagógica da Educação Infantil no Colégio Salesiano Santa Teresinha, situado na Zona Norte de São Paulo, eu percebi que se houver qualquer necessidade de um acompanhamento diferente, é a instituição que vai dar a orientação. Por isso, os pais devem tomar cuidado, porque às vezes uma expectativa grande acaba atrapalhando a criança, que passa por várias fases que precisam ser respeitadas. Se a família as antecipa, o filho pode se prejudicar, pois fica inseguro e frustrado ao não conseguir corresponder aos anseios.

A unidade escolar tem autoridade nesse processo, que tem de acontecer de maneira espontânea, com o pequeno estudante construindo seu saber de forma participativa, resultando no sucesso e desenvolvimento adequados. Mas, afinal, qual é a melhor forma de incentivar a leitura? Como inseri-la no dia a dia? É importante que seja um hábito diário e, sempre que possível, motivador, envolvente e prazeroso. Em casa, a família deve cuidar para que esses momentos não sejam didáticos, pois competem à escola.

A família não pode trazer para casa atitudes ou atividades formais escolares, mas ela pode incentivar, valorizar e motivar. A simples atitude de ir até uma banca de jornal com o filho(a) comprar uma revista ou um jornal – algo que está ficando raro por conta da tecnologia – e deixar a criança pegar uma história em quadrinhos ou outro tipo de publicação infantil, por exemplo, é uma forma muito boa de estimular, pois a insere nessa rotina. Deixá-la folhear revistas, gibis, livros e outros veículos de acordo com a faixa etária. Ler e trazer toda aquela magia da história ajuda muito, ou seja, fazer atividades lúdicas e motivadoras, como sentar e ler os livrinhos dela. Não é levar o pequeno em um cantinho da leitura e deixá-lo lá enquanto faz outras coisas, é estar com ele.

Sempre que possível, o momento de leitura deve ser compartilhado. Além dos materiais didáticos, atualmente as editoras de ótimos livros infantis investem em publicações recreativas, coloridas e informativas, recheadas de interatividade, com belas ilustrações e muitos detalhes do nosso cotidiano. Mas vale lembrar que bom senso é a palavra certa, ou seja, não é recomendável deixar a criança com pouco tempo livre para seu lazer, pois isso também pode prejudicar o desempenho escolar.

O pequeno não deve ter muitas atividades extras, que preencham todo o seu dia. Ele tem que ter o tempo para brincar, descansar ou assistir a um desenho. Ele pode até adorar a leitura, mas também precisa ter uma rotina com outras atividades para participar. Portanto, é necessário regrar o tempo livre entre os livros, os momentos de estudar e de escolher com o que ele vai brincar e o que vai fazer. Afinal, o lúdico faz parte da infância.

Gislene Naxara

quarta-feira, fevereiro 14

Voltamos!

Me voy a leer (ilustración de João Vaz de Carvalho)
João Vaz de Carvalho

Delírio nem tanto anônimo

felicita sala illustration
Com 40° à sombra, numa canícula senegalesca, o livreiro sonha com uma livraria em pleno Polo Norte. Venderá a esquimós livros de viagem sobre países tropicais, ou obras infantis como “Minha foquinha feliz”, “Aventuras de um leão marinho”, ou “Sonhos de uma baleia branca”. Com tanto calor, só mesmo delirando!

Natureza à luz da lua

A solidão da leitura

Leitora com guarda-sol, 1921 Henri Matisse ( França 1869-1954) óleo sobre tela Tate Gallery,  Londres
Henri Matisse
Adoro a solidão da leitura. Eu amo o mergulho profundo na história de outra pessoa, a dor deliciosa de uma última págin
Naomi Shihab Nye

Livro novo

Crônica

12 de Fevereiro de 1893

Faleci ontem, pelas sete horas da manhã. Já se entende que foi sonho; mas tão perfeita a sensação da morte, a despegar-me da vida tão ao vivo o caminho do céu, que posso dizer haver tido um antegosto da bem-aventurança.

Ia subindo, ouvia já os coros de anjos, quando a própria figura do Senhor me apareceu em pleno infinito. Tinha uma ânfora nas mãos, onde espremera algumas dúzias de nuvens grossas, e inclinava-a sobre esta cidade, sem esperar procissões que lhe pedissem chuva. A sabedoria divina mostrava conhecer bem o que convinha ao Rio de Janeiro; ela dizia enquanto ia entornando a ânfora:

— Esta gente vai sair três dias à rua com o furor que traz toda a restauração. Convidada a divertir-se no inverno, preferiu o verão não por ser melhor, mas por ser a própria quadra antiga, a do costume, a do calendário, a da tradição, a de Roma, a de Veneza, a de Paris. Com temperatura alta, podem vir transtornos de saúde, — algum aparecimento de febre, que os seus vizinhos chamem logo amarela, não lhe podendo chamar pior... Sim, chovamos sobre o Rio de Janeiro.

Ernest Meissonier [ le liseur blanc ] 1857
 Jean-Louis Ernest Meissonier 
Alegrei-me com isto, posto já não pertencesse à terra. Os meus patrícios iam ter um bom carnaval, — velha festa, que está a fazer quarenta anos, se já os não fez. Nasceu um pouco por decreto, para dar cabo do entrudo, costume velho, datado da colônia e vindo da metrópole. Não pensem os rapazes de vinte e dous anos que o entrudo era alguma cousa semelhante às tentativas de ressurreição, empreendidas com bisnagas. Eram tinas d'água, postas na rua ou nos corredores, dentro das quais metiam à força um cidadão todo, — chapéu, dignidade e botas. Eram seringas de lata; eram limões de cera. Davam-se batalhas porfiadas de casa a casa, entre a rua e as janelas, não contando as bacias d'água despejadas a traição. Mais de uma tuberculose caminhou em três dias o espaço de três meses.

Quando menos, nasciam as constipações e bronquites, ronquidões e tosses, e era a vez dos boticários, porque, naqueles tempos infantes e rudes, os farmacêuticos ainda eram boticários.

Cheguei a lembrar-me, apesar de ir caminho do céu, dos episódios de amor que vinham com o entrudo. O limão de cera, que de longe podia escalavrar um olho, tinha um ofício mais próximo e inteiramente secreto. Servia a molhar o peito das moças; era esmigalhado nele pela mão do próprio namorado, maciamente, amorosamente, interminavelmente . . .

Um dia veio, não Malesherbes, mas o carnaval, e deu à arte da loucura uma nova feição. A alta roda acudiu de pronto; organizaram-se sociedades, cujos nomes e gestos ainda esta semana foram lembrados por um colaborador da Gazeta. Toda a fina flor da capital entrou na dança. Os personagens históricos e os vestuários pitorescos, um doge, um mosqueteiro, Carlos V, tudo ressurgia às mãos dos alfaiates, diante de figurinos, à força de dinheiro. Pegou o custo das sociedades, as que morriam eram substituídas, com vária sorte, mas igual animação.

Naturalmente, o sufrágio universal, que penetra em todas as instituições deste século, alargou as proporções do carnaval, e as sociedades multiplicaram-se, com os homens. O gosto carnavalesco invadiu todos os espíritos, todos os bolsos, todas as ruas. Evohé! Bacchus est roi! dizia um coro de não sei que peça do Alcazar Lírico, — outra instituição velha, mas velha e morta. Ficou o coro, com esta simples emenda: Evohé! Momus est roi!

Não obstante as festas da terra, ia eu subindo. subindo, até que cheguei à porta do céu, onde S. Pedro parecia, aguardar-me, cheio de riso.

— Guardaste para ti tesouros no céu ou na terra? perguntou-me.

Se crer em tesouros escondidos na terra é o mesmo que escondê-los, confesso o meu pecado, porque acredito nos que estão no morro do Castelo, como nos cento e cinqüenta contos fortes do homem que está preso em Valhadolide. São fortes; segundo o meu criado José Rodrigues, quer dizer que são trezentos contos. Creio neles. Em vida fui amigo de dinheiro, mas havia de trazer mistério. As grandes riquezas deixadas no Castelo pelos jesuítas foram uma das minhas crenças da meninice e da mocidade; morri com ela, e agora mesmo ainda a tenho. Perdi saúde, ilusões, amigos e até dinheiro, mas a crença nos tesouros do Castelo não a perdi. Imaginei a chegada da ordem que expulsava os jesuítas. Os padres do colégio não tinham tempo nem me os de levar as riquezas consigo; depressa, depressa, ao subterrâneo, venham os ricos cálices de prata, os cofres de brilhantes, safiras, corais, as dobras e os dobrões, os vastos sacos cheios de moeda, cem, duzentos, quinhentos sacos. Puxa, puxa este Santo Inácio de ouro maciço, com olhos de brilhantes, dentes de pérolas, toca a esconder, a guardar, a fechar...

— Pára, interrompeu-me S. Paulo; falas como se estivesses a representar alguma cousa. A imaginação dos homens é perversa. Os homens sonham facilmente com dinheiro. Os tesouros que valem são os que se guardam no céu, onde a ferrugem os não come.

— Não era o dinheiro que me fascinava em vida, era o mistério. Eram os trinta ou quarenta milhões de cruzados escondidos, há mais de século, no Castelo; são os trezentos contos do preso de Valhadolide. O mistério, sempre o mistério.

— Sim, vejo que amas o mistério. Explicar-me-ás este de um grande número de almas que foram daqui para o Brasil e tornaram sem se poderem incorporar?

— Quando, divino apóstolo?

— Ainda agora.

— Há de ser obra de um médico italiano, um doutor ... esperai... creio que Abel, um doutor Abel, sim Abel... É um facultativo ilustre. Descobriu um processo para esterilizar as mulheres. Correram muitas, dizem; afirma-se que nenhuma pode já conceber; estão prontas.

— As pobres almas voltavam tristes e desconsoladas; não sabiam a que atribuir essa repulsa. Qual é o fim do processo esterilizador? — Político. Diminuir a população brasileira, à proporção que a italiana vai entrando; idéia de Crispi, aceita por Giolitti, confiada a Abel ...

— Crispi foi sempre tenebroso.

— Não digo que não; mas, em suma, há um fim político, e os fins políticos são sempre elevados ... Panamá, que não tinha fim político ...

— Adeus, tu és muito falador. O céu é dos grandes silêncios contemplativos.
Machado de Assis

sexta-feira, fevereiro 9

Bom Carnaval...

...com livros ou mesmo sem eles, mas melhores dias momescos são acompanhados.
Damos uma paradinha para a folia livresca   

Oi, boa noite

Digo-te boa noite e gostaria de não dizer mais nada – nem agora, nem nunca. Digo-te boa noite, boa noite, e gostaria de ficar dizendo boa noite pela madrugada adentro, pelo dia afora. Continuar dizendo boa noite, boa noite, boa noite, como se essas fossem as únicas palavras que eu tivesse aprendido um dia e descobrisse que as aprendi só para dizê-las hoje a ti.

Vladimir Volegov
Vladimir Volegov
Gostaria que meus lábios, como se fossem uma engenhoca eletrônica, travassem nesse boa-noite e ficassem a repeti-lo dias e dias, meses e meses, e anos, muitos, muitos. Que o fenômeno fosse tão assombroso e repercutisse tanto que viessem ver-me especialistas de várias áreas, linguistas, pesquisadores paranormais, fisiólogos, exorcistas.

Que multidões se reunissem e que um empresário astuto resolvesse cobrar ingressos e que a procura tumultuada e febril obrigasse a venda a ser feita pela internet. Que o número de acessos na rede ultrapassasse três milhões em seis meses e que os advogados do meu empresário acionassem na Justiça qualquer pessoa que em qualquer parte do planeta, e em qualquer idioma, dissesse boa noite. Que aparecessem impostores tentando impingir seus bons-dias e boas-tardes como se fossem iguais ao meu boa-noite. E que todos fossem humilhados e condenados à execração.

Que repórteres de todo o mundo tentassem me entrevistar e que eu, restrito à minha doce tarefa, só pudesse dizer-lhes boa noite, boa noite, boa noite.

Que lançassem sobre mim a suspeita de ser robô e me examinassem à procura de parafusos e placas de metal. Que, quando ninguém mais imaginasse ser possível desvendar o mistério, eu certa madrugada repentinamente gritasse as duas palavras e acrescentasse a elas um nome que depois muitas mulheres fascinadas por um tardio romantismo diriam ser o delas, camuflado.

E que eu tivesse a ventura de dizer e continuar dizendo essas três palavras até o último dos meus dias: boa noite, ********.

O livro te dá asas

Crônica de Carnaval

4 de Fevereiro de 1894

Quando eu li que este ano não pode haver carnaval na rua, fiquei mortalmente triste. É crença minha, que no dia em que deus Momo for de todo exilado deste mundo, o mundo acaba. Rir não é só le propre de 1'homme, é ainda uma necessidade dele. E só há riso, e grande riso, quando é público, universal, inextinguível, à maneira de deuses de Homero, ao ver o pobre coxo Vulcano.

Não veremos Vulcano estes dias, cambaio ou não, não ouviremos chocalhos, nem guizos, nem vozes tortas e finas. Não sairão as sociedades, com os seus carros cobertos de flores e mulheres, e as roupas de veludo e cetim. A única veste que poderá aparecer, é cinta espanhola, ou não sei de que raça, que dispensa agora os coletes e dá mais graça ao corpo. Esta moda quer-me parecer que pega; por ora, não há muitos que a tragam. Quatrocentas pessoas? Quinhentas? Mas toda religião começa por um pequeno número de fiéis. O primeiro homem que vestiu um simples colar de miçangas, não viu logo todos os homens com o mesmo traje; mas pouco a pouco a moda pegando, até que vieram atrás das miçangas, conchas, pedras e outras. Daí até o capote, e as atuais mangas de presunto, em que as senhoras metem os braços, que caminho! O chapéu baixo, feltro ou palha, era há 25 anos uma minoria ínfima. Há uma chapelaria nesta cidade que se inaugurou com chapéus altos em toda a parte, nas portas, vidraças, balcões, cabides, dentro das caixas, tudo chapéus altos. Anos depois, passando por ela, não vi mais um só daquela espécie; eram muitos e baixos, de vária matéria e formas variadíssimas.

Não admira que acabemos todos de cinta de seda. Quem sabe não é uma reminiscência da tanga do homem primitivo? Quem sabe se não vamos remontar os tempos até ao colar de miçangas? Talvez a perfeição esteja aí. Montaigne é de parecer que não fazemos mais que repisar as mesmas cousas e andar no mesmo círculo; e o Eclesiastes diz claramente que o que é, foi, e o que foi, é o que há vir. Com autoridades de tal porte, podemos crer que acabarão algum dia alfaiates e costureiras. Um colar apenas, matéria simples, na mais; quando muito, nos bailes, um simulacro de gibus para pede com graça uma quadrilha ou uma polca. Oh! a polca das miçanga. Há de haver uma com esse título, porque a polca é eterna, e quando não houver mais nada, nem sol, nem lua, e tudo tornar às trevas, últimos deus ecos da catástrofe derradeira usarão ainda, no fundo do infinito, esta polca, oferecida ao Criador: Derruba, meu Deus, derruba!

Como se disfarçarão os homens pelo carnaval quando voltar a idade da miçanga? Naturalmente com os trajes de hoje. A Gazeta de Notícias escreverá por esse tempo um artigo, em que dirá:

Pelas figuras que têm aparecido nas ruas, terão visto os nossos leitores Onde foi, séculos atrás, já não diremos o mau gosto, que é evidente, mas a violação da natureza, no modo de vestir dos homens. Quando possuíam as melhores casacas e calças, que são a própria epiderme, tão justa ao corpo, tão sincera, inventaram umas vestiduras perversas, falsas. Tudo é obra do orgulho humano, que pensa aperfeiçoar a natureza, quando infringe as suas leis mais elementares. Vede o lenço; o homem de outrora achou que ele tinha uma ponta de mais, e fez um tecido de quatro pontas, sem músculos, sem nervos, sem sangue, absolutamente imprestável, desde que não esteja a da pessoa. Há no nosso museu nacional um exemplar dessa ridicularia. Hoje, para dar uma idéia viva da diferença das duas civilizações, publicam um desenho comparativo, dous homens, um moderno, outro dos fins do século XIX; é obra de um jovem por um dos redatores desta folha, o nosso excelente companheiro João, amigo de todos os tempos.

Que não possa eu ler esse artigo, ver as figuras, compará-las, e repetir os ditos do Eclesiastes e de Montaigne, e anunciar aos povos desse tempo que a civilização mudará outra vez de camisa! Irei antes, muito antes, para aquela outra Petrópolis, capital da vida eterna. Lá ao menos há fresco, não se morre de insolação, nome que já entrou no nosso obituário, segundo me disseram esta semana. Não se pode imaginar a minha desilusão. Eu cria que, apesar de termos um sol de rachar, não morreríamos nunca de semelhante cousa. Há anos deram-se aqui alguns casos de não sei que moléstia fulminante, que disseram ser isso; mas vão lá provar que sim ou que não. Para se não provar nada, é que o mal fulmina. Assim, nem tudo acaba em cajuada, como eu supunha; também se morre de insolação. Morreu um, morrerão ainda outros. A chuva destes dias não fez mais que açular a canícula.

De resto, a morte escreveu esta semana em suas tabelas, algumas das melhores datas, levando consigo um Dantas, um José Silva, um Coelho Bastos. Não se conclui que ela tem mais amor aos que sobrenadam, do que aos que se afundam; a sua democracia não distingue. Mas há certo gosto particular em dizer aos primeiros, que nas suas águas tudo se funde e confunde, e que não há serviços à pátria ou à humanidade, que impeçam de ir para onde vão os inúteis ou ainda os maus. Vingue-se a vida guardando a memória dos que o merecem, e na proporção de cada um, distintos com distintos, ilustres com ilustres.

Essa há de ser a moda que não acaba. Ou caminhemos para a perfeição deliciosa e terna, ou não façamos mais que ruminar, perpétuo camelo, o mesmo jantar de todas as idades, a moda de morrer é a mesma ... Mas isto é lúgubre, e a primeira das condições do meu ofício é deitar fora as melancolias, mormente em dia de carnaval. Tornemos ao carnaval, e liguemos assim o princípio e o fim da crônica. A razão de o não termos este ano, é justa; seria até melhor que a proibição não fosse precisa, e viesse do próprio ânimo dos foliões. Mas não se pode pensar em tudo.

Machado de Assis