segunda-feira, maio 29

Leituras prontas

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Os sete capítulos esquecidos de 'Cem anos de solidão'

Meses antes de terminar Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez amargava sérias dúvidas sobre a qualidade de um romance que se tornaria um clássico da literatura. "Quando li o que tinha escrito", confessou por carta a um amigo, "tive a desmoralizante impressão de estar metido numa aventura que tanto podia ser afortunada quanto catastrófica". Algo pouco conhecido é que García Márquez publicou sete capítulos de Cem Anos de Solidão para aplacar essas dúvidas. E fez isso antes de acabar o livro (o que aconteceu em agosto de 1966) e de assinar o contrato com a Editorial Sudamericana, que firmou em 10 de setembro do mesmo ano. A obra foi lançada em 30 de maio de 1967. Na próxima terça-feira fará 50 anos.

Os sete capítulos foram publicados em jornais e revistas que circulavam em mais de 20 países. Representam mais de um terço do livro, que ao todo tem 20 capítulos. Nem sequer há cópias deles no arquivo pessoal de García Márquez no Harry Ransom Center, no Texas, que abriga seu legado. Para encontrar seu rastro é preciso percorrer bibliotecas na França, Estados Unidos, Colômbia e Espanha.

Os capítulos caíram no esquecimento porque se acreditava que eram idênticos aos publicados na primeira edição, de 1967, do livro. Só que a comparação das versões revela outra realidade. Desde a primeira página há mudanças na linguagem, na estrutura e na descrição dos personagens. Isso dá aos capítulos esquecidos grande valor literário para entender como a obra foi escrita. García Márquez afirmou que tinha queimado as notas e os manuscritos preparatórios depois de receber a primeira cópia do livro.


O primeiro capítulo saiu em 1º de maio de 1966 no El Espectador, de Bogotá, quando ainda faltavam três meses para finalizar a obra. Entre essa versão e a edição final de 1967 há 42 alterações significativas, que aparecem desde a primeira página. As casas de Macondo, por exemplo, não eram "de barro e taquara" como na edição final, e sim simplesmente de "adobe". O escritor buscava uma linguagem mais precisa.

Também há modificações importantes na estrutura geral do livro. Por exemplo, na edição de 1967, a ação destruidora dos cupins, que anuncia o declínio da casa da família Buendía, é descrita mais para o final da obra. Mas na versão de El Espectador, "o cupim minava os alicerces da casa" desde o primeiro capítulo. Referências tão no começo aos insetos davam dramaticidade à futura decadência da casa.

Na edição definitiva, Macondo é um povoado isolado da civilização, com localização exata desconhecida. Ao contrário, no capítulo de El Espectador, Macondo é localizada com facilidade, pois fazia fronteira "a Oeste com as dunas do rio La Magdalena", na Colômbia. García Márquez suprimiu esse e outros detalhes sobre a localização precisa da cidadezinha para criar no leitor a impressão de que poderia ser um lugarejo típico de qualquer país latino-americano.

Outra mudança surpreendente tem a ver com o nascimento do coronel Aureliano Buendía. Na edição final, o coronel "tinha chorado no ventre de sua mãe e nasceu com os olhos abertos", enquanto no capítulo de El Espectador o herói recebia tratamento pouco heroico e até prosaico: a parteira lhe dá "três palmadas enérgicas" para fazê-lo chorar.

O capítulo seguinte que García Márquez testou com os leitores saiu na revista Mundo Nuevo em agosto de 1966. Publicada em Paris, essa revista se tornou a principal vitrine da literatura do boom latino-americano. Seus 6.000 exemplares mensais eram vendidos em 22 países, incluindo Estados Unidos, Holanda, Espanha, Portugal e quase toda a América Latina. Nesse capítulo encontrei 51 diferenças em relação à edição final. Por exemplo, José Arcadio, cuja mãe, Úrsula, temia que nascesse com rabo de porco, veio ao mundo como "um filho saudável", ao passo que na edição final o autor aumenta a dramaticidade ao escrever: "Deu à luz um filho com todas as suas partes humanas".

A alquimia, tão importante nos capítulos iniciais, era mencionada em Mundo Nuevo usando o termo especializado "a Opera Magna". O escritor simplificou a leitura e optou somente por alquimia.

Após a publicação do segundo capítulo, passaram-se cinco meses até a saída do seguinte. García Márquez deve ter empregado esse intervalo para revisar a obra, porque o novo capítulo era o mais arriscado: a ascensão ao céu de Remedios, a bela. O escritor escolheu para sua divulgação Amaru, uma revista peruana dedicada à literatura de vanguarda internacional. Seus leitores eram exigentes escritores e críticos literários. García Márquez não só comprovou a solidez literária desse capítulo com eles, como também o leu em voz alta a seu círculo de amizade em sua casa na Cidade do México. "Convoquei aqui as pessoas mais exigentes, competentes e francas", escreveu em carta endereçada a seu amigo Mendoza no verão de 1966. "O resultado foi formidável, especialmente porque o capítulo lido era o mais perigoso: a subida ao céu, em corpo e alma, de Remedios Buendía."

Na revista literária colombiana Eco surgiu outro capítulo "perigoso": a morte de Úrsula, depois de viver entre 115 e 122 anos. Entre as alterações mais notáveis se destaca a eliminação de uma frase, ausente na edição de 1967, de Fernanda del Carpio, após a viagem de Amaranta Úrsula à Europa: "Meu Deus —murmurou Fernanda—, esqueci de lhe dizer para olhar para os dois lados antes de atravessar a rua".

Em março de 1967, saiu na revista Mundo Nuevo o capítulo da peste da insônia, que flagelou Macondo. Como García Márquez explicou em várias entrevistas, seu intento era que a linguagem de Cem Anos de Solidão fosse mais antiquada na primeira parte (por exemplo, usou termos arcaicos para "instrumentos musicais" e "grande alvoroço"). Depois, afirmou o escritor, a linguagem se modernizaria conforme o romance chegasse ao final.
Último tiro

García Márquez disparou seu último tiro em abril de 1967, quando a revista mexicana Diálogos imprimiu o capítulo da chuva que cai sobre Macondo durante quatro anos. Entre as mudanças importantes figura uma que revela não apenas como o autor suprimia frases ou trocava palavras como também sua técnica para acrescentar conteúdo. Quando Fernanda del Carpio termina de repreender severamente seu marido, Aureliano Segundo, depois de um monólogo que ocupa várias páginas, na versão da Diálogos ela conclui que seu marido estava "acostumado a viver das mulheres". Mas na edição de 1967, Fernanda culmina sua bronca monumental com uma frase pletórica, carregada de força mitológica e religiosa. Afirma que seu marido estava "acostumado a viver das mulheres, e convencido de que tinha se casado com a esposa de Jonas, que ficou tão calma com a história da baleia".

Por último, na semana anterior ao lançamento do livro, a revista argentina Primera Plana publicou um fragmento do capítulo sobre as 32 guerras do coronel Aureliano Buendía. Primera Plana era voltada ao grande público, e seus 60.000 exemplares semanais circulavam dentro e fora da Argentina. Embora já não tivesse tempo de fazer mudanças, García Márquez enviou um capítulo que deveria cativar o público de um continente que continuava marcado pelas guerrilhas insurgentes contra o poder, como a guerrilha do próprio coronel Aureliano Buendía.

Como revela a correspondência de García Márquez, ao publicar os capítulos mais inventivos e "perigosos", o escritor anotou bem as sugestões feitas por amigos e leitores. A história por trás desses capítulos esquecidos de Cem Anos de Solidão revela o árduo trabalho de edição feito por García Márquez, em especial para aplacar aquela "desmoralizante impressão" que teve ao ler o que havia escrito de uma obra que a partir de 30 de maio de 1967 mudaria o rumo da literatura.

Álvaro Santana-Acuña

domingo, maio 28

Não esqueça de regar as plantas

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Um habitante de Carcosa

Pois há diversos tipos de morte. Em algumas, o corpo é preservado; em outras desaparece, junto com o espírito. Geralmente isso ocorre quando o indivíduo está só (esta é a vontade de Deus) e, como não nos é dado conhecer o fim, dizemos que o homem desapareceu, ou que se foi numa longa jornada — o que é verdade. Mas, às vezes, o fato ocorre diante da vista de muitos, como provam vários testemunhos. Num determinado tipo de morte o espírito também morre e sabe-se de casos em que isso aconteceu quando o corpo ainda continuaria vivo por muitos anos. Em outras vezes, como tem sido provado, o espírito morre com o corpo, mas algum tempo depois volta a erguer-se, naquele mesmo lugar onde o corpo se decompôs.
Refletindo a respeito dessas palavras de Hali (que descanse em paz) e perguntando-me sobre seu verdadeiro significado — como o faria alguém que, tendo recebido um sinal, ainda tivesse dúvidas e pressentisse algo por trás daquilo que compreendera —, eu seguia sem prestar atenção no caminho, até que um vento gelado no rosto reavivou meus sentidos para o que havia em torno.

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Surpreso, observei que tudo ali me era estranho. De um lado e outro, estendia-se uma vasta planície, descampada e desolada, recoberta por um capim alto e seco, que assobiava e gemia ao vento de outono, provocando sensações misteriosas e inquietantes cujo significado só Deus poderia saber. Acima da vegetação, a grandes intervalos, despontavam pedras de formatos estranhos e cor escura, que pareciam ter entre si um mudo entendimento, como se trocassem olhares de significado assustador, ou como se houvessem erguido as cabeças para espiar alguma coisa que estivesse por acontecer. Aqui e ali, surgiam umas poucas árvores, batidas pelo vento, parecendo ser as líderes dessa conspiração maligna de silenciosa expectativa.

O dia já ia alto, imaginei, embora não pudesse ver o sol. E apesar de perceber o ar frio e úmido, minha consciência de tal fato era mais mental do que física — não tinha qualquer sensação de desconforto. Acima daquela terra lúgubre, nuvens baixas, cor de chumbo, formavam uma cobertura, como se fosse uma maldição visível. Em tudo havia ameaça e presságio — um toque maligno, o sinal do juízo final. Pássaro, animal, inseto — nada disso existia. O vento suspirava nos galhos nus das árvores mortas e o capim cinzento curvava-se para sussurrar à terra seus segredos terríveis. Mas nenhum outro som ou movimento quebrava a imobilidade daquele lugar sombrio.

Notei que havia, por entre o capim, algumas pedras gastas pelo tempo, parecendo ter sido moldadas por mãos humanas. Estavam partidas, recobertas de limo e meio enterradas no chão. Algumas caídas, outras inclinadas em vários ângulos. Nenhuma estava de pé. Com toda a certeza, eram lápides de sepulturas, embora as sepulturas em si já não existissem, nem em forma de montículos nem como depressões na terra. O passar dos anos nivelara tudo. Espalhados aqui e ali, blocos maiores de pedra apontavam o local onde alguma sepultura suntuosa ou monumento ambicioso lançara um dia seu débil desafio contra o esquecimento.

Tão antigas pareciam aquelas relíquias, aqueles vestígios da vaidade e da memória de afeições e piedades, tão batidos, gastos, manchados — e tão abandonado, deserto e esquecido aquele lugar — que não pude deixar de pensar que acabara de descobrir o cemitério de alguma raça pré-histórica, de homens dos quais até mesmo o nome estava há muito extinto.

Caminhava tão impregnado desses pensamentos, que por algum tempo vaguei sem prestar muita atenção no que fazia, até pensar: "Como vim parar aqui?" Um momento de reflexão pareceu tornar tudo muito claro e ao mesmo tempo explicar — embora de forma inquietante — o cará ter estranho com que minha imaginação revestira tudo o que via e ouvia. Eu estava doente. Agora lembrava-me de que estivera prostrado com uma febre repentina. Minha família me dissera que, em meus delírios, várias vezes eu gritara, pedindo ar e liberdade, tendo sido amarrado à cama para não fugir. Na certa eu vencera a vigilância de quem tomava conta de mim e saíra para — para onde? Não podia sequer imaginar. Claramente estava a uma imensa distância da cidade onde vivia — a antiga e famosa cidade de Carcosa.

Em parte alguma havia sinais audíveis ou visíveis da existência humana. Nenhum rolo de fumaça, nenhum cão latindo ou gado mugindo, nenhum barulho de crianças brincando. Nada. Apenas aquele cemitério sombrio, com seu ar de mistério e terror, consequências de meu cérebro comprometido. Não estaria eu tendo um novo delírio, ali, onde não havia ninguém para me ajudar? Não seria tudo, afinal, uma ilusão provocada por minha loucura? Gritei os nomes de minhas mulheres e filhos, estendendo os braços à sua procura enquanto caminhava por entre as pedras destroçadas, sobre o capim seco.

Um ruído atrás de mim fez com que eu me virasse. Um animal selvagem — um lince — se aproximava. E, de imediato, pensei: se eu desmaiar aqui, neste lugar deserto, se a febre voltar e eu perder os sentidos, esse animal voará em minha garganta. E corri na direção dele, gritando. Ele continuou seu caminho tranquilamente, passando quase ao alcance de minha mão e desaparecendo por trás de uma pedra.

Logo depois, a cabeça de um homem pareceu surgir do chão, a poucos metros de mim. Ele subia um aclive a uma certa distância, numa colina baixa cujo topo mal se podia distinguir do resto do terreno. Logo, todo ele ficou visível, sua figura recortada contra o céu cinzento. Estava meio nu, meio vestido, em farrapos. Seu cabelo desalinhado, a barba imensa e embaraçada. Em uma das mãos, levava um arco e uma flecha. Na outra, uma tocha acesa, de onde se desprendia um longo fio de fumaça negra. Caminhava devagar, com cuidado, como se temesse cair num túmulo aberto que o capim alto escondesse. Essa estranha aparição me deixou surpreso, mas não com medo. E comecei a caminhar em sua direção até que nos vimos frente a frente. Cumprimentei-o com a saudação usual: "Que Deus esteja com você.”

Mas ele não me deu atenção, nem parou de caminhar. "Meu bom amigo", continuei, "estou doente e perdido. Poderia me orientar, por favor? Preciso voltar para Carcosa.”

O homem começou a entoar um canto bárbaro, numa língua desconhecida, e seguiu em frente.

No galho de uma árvore morta, uma coruja soltou seu pio lúgubre, sendo respondida, a distância, por outra coruja. Erguendo a vista, através de um claro que subitamente se formara entre as nuvens, enxerguei as estrelas Aldebaran e Hy ades. Tudo fazia crer que era noite — o lince, o homem com a tocha, a coruja. E contudo eu enxergava — via até as estrelas, mesmo não havendo escuridão. Via, mas aparentemente não era visto, nem ouvido. Sob aquele estranho encantamento, será que eu existia?

Sentei-me na raiz de uma imensa árvore, tentando pensar no que fazer.

Já não duvidava que estivesse louco, porém reconhecia um resquício de dúvida naquela minha certeza. Não sentia febre. Além disso, tinha uma sensação de euforia e vigor que me eram desconhecidos — uma excitação física e mental.

Todos os meus sentidos estavam alerta. Podia perceber o ar como se fosse uma substância palpável. Era capaz de ouvir o silêncio.

Uma imensa raiz da gigantesca árvore em cujo tronco me apoiara estava enrolada em uma laje de pedra, parte da qual surgia por entre o vão formado por outra raiz. A pedra ficara assim parcialmente protegida das intempéries, embora bastante gasta. Seus cantos estavam arredondados, comidos pelo tempo, e a superfície muito sulcada e descamada. Partículas faiscantes de mica eram visíveis na terra sob a pedra — vestígios de decomposição. A pedra parecia ter marcado o túmulo do qual a árvore brotara, muitas eras antes. Suas raízes possessivas tinham tomado a sepultura, transformando a pedra em prisioneira.

Uma súbita lufada de vento varreu o punhado de folhas secas e gravetos que recobriam a lápide. E, vendo as letras em baixo-relevo de uma inscrição, curvei-me para lê-la. Deus! Era meu nome. A data de meu nascimento... e a data de minha morte!

Um raio de luz oblíqua iluminou todo o lado da árvore no mesmo instante em que me pus de pé, aterrorizado. O sol nascia a leste, no céu cor-de-rosa. Eu estava de pé entre a árvore e seu disco de fogo no horizonte — mas não havia qualquer sombra no tronco!

Um coro de lobos uivando saudou o amanhecer. Podia vê-los, sentados nas patas traseiras, solitários ou em grupos, nos topos dos montículos e dos túmulos, preenchendo em parte a visão desértica que se estendia até o horizonte.

E só então compreendi que estava nas ruínas da antiga e famosa cidade de Carcosa.

Tais fatos foram relatados ao médium Bayrolles pelo espírito de Hoseib Alar Robardin.
Ambrose Bierce

Canto de leitura

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Café com leite

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É preciso amar, sabe? Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno. O corpo lasso e confortável, de noite, pede um cais. A mulher a quem se chega, exausto e, com a força do cansaço, dá-se o espiritualíssimo amor do corpo.

Como deve ser triste a vida dos homens que têm mulheres de tarde, em apartamentos de chaves emprestadas, nos lençóis dos outros! Como é possível deixar que a pele da amada toque os lençóis dos outros! Quem assim procede (o tom é bíblico e verdadeiro) divide a mulher com quem empresta as chaves.

Para os chamados “grandes homens”, a mulher é sempre uma aventura. De tarde, sempre. Aquela mulher, que chega se desculpando; e se despe, desculpando-se; e se crispa, ao ser tocada, e cerra os olhos, com toda força, com todo desgosto, enquanto dura o compromisso. É melhor ser-se um “pequeno homem”.

Amor não tem nada a ver com essas coisas. Amor não é de tarde, a não ser em alguns dias santos. Só é legítimo quando, depois, se pega no sono. E há um complemento venturoso, do qual alguns se descuidam. O café com leite, de manhã. O lento café com leite dos amantes, com a satisfação do dever cumprido.

No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo ascetismo da ioga... tudo é menor. O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira.
Antônio Maria

sábado, maio 27

Café da manhã

Café y lectura (ilustración de Tüylek)
 Tüylek

A estante

Slightly Harry Potterish...  What a marvelous place!  rooms and rooms of books:
Naquele novo apartamento da rua Visconde de Pirajá pela primeira vez teria um escritório para trabalhar. Não era um cômodo muito grande mas dava para armar ali a minha tenda de reflexões e leitura: uma escrivaninha, um sofá e os livros. Na parede da esquerda ficaria a grande e sonhada estante que caberia todos os meus livros. Tratei de encomendá-la a seu Joaquim, um marceneiro que tinha oficina na rua Garcia D’Avila com Barão da Torre.

O apartamento não ficava tão perto da oficina. Era quase em frente ao prédio onde morava Mário Pedrosa, entre a Farme de Amoedo e a antiga Montenegro, hoje Vinicius de Moraes. Estava ali há uma semana e nem decorara ainda o número do prédio. Tanto que, quando seu Joaquim, ao preencher a nota da encomenda, perguntou-me onde seria entregue a estante, tive um momento de hesitação. Mas foi só um momento. Pensei rápido: “Se o prédio do Mário é 228, o meu, que fica quase em frente, deve ser 227. “Mas lembrei-me de que, ao ir ali pela primeira vez, observara que, apesar de ficar em frente ao do Mário, havia uma diferença na numeração.

— Visconde de Pirajá 127 — respondi, e seu Joaquim desenhou o endereço na nota.

— Tudo bem, seu Ferreira. Dentro de um mês estará lá sua estante.

— Um mês, seu Joaquim! Tudo isso? Veja se reduz esse prazo.

— A estante é grande, dá muito trabalho… Digamos, três semanas.

Contei as semanas. Não via chegar o momento de ter no escritório a estante sonhada, onde enfim poderia arrumar os livros por assunto e autores. E,mais que isso, sentir-me um escritor de verdade, um profissional, cercado de livros por todos os lados. No dia da entrega, voltei do trabalho apressado para ver minha estante.

— Como é, veio? — perguntei ao entrar.

— Veio o quê?

— Como o quê? A estante!

Não viera. Seu Joaquim não cumprira com a palavra empenhada, ah português filho de… Telefonei para ele sem dissimular, no tom da voz, minha irritação. E ele:

— Como não cumpri? Andei com dois homens de cima para baixo da rua e não encontrei o tal número que o senhor me indicou. Não existe na rua Visconde de Pirajá o número 127, senhor Ferreira.

Fiquei sem ação. Dera a ele o número errado.

— Diga-me o número certo e sua estante estará em sua casa amanhã mesmo.

Fiquei sem palavra. Se não era 127, qual número seria? Não era 227, disso

tinha certeza… E o Joaquim ao telefone:

— Qual o número, seu Ferreira?

— É 217, seu Joaquim… É isso, 217.

— Muito bem, 217. Já anotei. Amanhã terá sua estante.

Não tive. Ao chegar em casa e verificar que a estante não estava lá, conclui que havia dado de novo o número errado ao marceneiro. E corri para o telefone a fim de me desculpar.

— Seu Joaquim, é o senhor Ferreira… da estante.

— O senhor está querendo brincar comigo?

Fui tomado por um frouxo de riso, enquanto seu Joaquim, indignado, dizia que não ia mais entregar estante nenhuma, que eu fosse buscá-la, pois já era a segunda vez que subira e descera a Visconde de Pirajá, carregando aquela estante enorme, etc. etc…
Ferreira Gullar

quarta-feira, maio 24

Nem Tom distrai a leitora

É de se espantar


Os livreiros, no Iraque, se atrevem a deixar livros empilhados à noite nas estreitas ruas. Segundo os iraquianos, não há por que trancafiar os volumes porque " leitor não rouba e não ladrão não lê"

Biblioteca acumula 15 mil livros doados em porão

Um acervo sem tratamento de pelo menos 15 mil livros doados por pessoas e empresas à Biblioteca Mário de Andrade se acumula em uma sala fechada. As obras não foram catalogadas e nem sequer se sabe exatamente a importância de tais peças, já que não foram totalmente analisadas pela equipe técnica. Por causa do acúmulo - a sala que recebe as doações está cheia - a biblioteca determinou a suspensão do recebimento de doações no local.


A pilha de livros tem coleções inteiras doadas por grandes editoras, como Massao Ohno, Saraiva, Cosac & Naify, além do Consulado da França, Biblioteca de Shanghai e até da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Até mesmo uma doação de livros do arquivo pessoal do jornalista Elio Gaspari feita em 2013 ainda está sem catalogar e segue indisponível ao público desde então.

“Com essa grande quantidade de títulos acumulados que temos, levaria alguns anos para terminar”, disse ao Estado o supervisor de acervo da Mário de Andrade, Henrique Ferreira. A Secretaria Municipal da Cultura estima em dois anos o prazo para catalogar e disponibilizar ao público todas as obras. A biblioteca tem cerca de 350,3 mil livros catalogados.

A Mário de Andrade, biblioteca mais importante da cidade e segunda maior do País, é a unidade que mais concentra doações de livros na capital, embora não haja uma estimativa oficial de quantas obras foram recebidas. Os livros são analisados na chegada e, caso constatado que a biblioteca já os possui em bom estado, são encaminhados a alguma das 54 bibliotecas da rede municipal.

O secretário de cultura André Sturm põe a responsabilidade do problema gestão do ex-prefeito Fernando Haddad. “Quando chegamos aqui, achamos uma pilha de livros jogados em um porão. Não se cataloga um livro recebido por doação na Mário de Andrade há pelo menos dois anos”, disse à reportagem. Já a gestão Haddad fala em desconhecimento do problema e descumprimento de ordem por parte dos servidores.

segunda-feira, maio 22

Bungee Jumping

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Pawel Kuczynski

A tragédia dos livros

Este era o único aspecto trágico dos livros: eles mudavam as pessoas. Mas não as realmente más. Essas não se tornavam pais melhores, maridos melhores, amigos melhores. Continuavam sendo tiranos, torturavam seus funcionários, filhos e cães, eram odiosos nas pequenas coisas e covardes nas grandes, e se rejubilavam com o constrangimento das vítimas.

Kinser, Karen (EUA, 1951-...) menina lendo no tapete
Karen Kinser
— Os livros eram meus amigos — disse Catherine … — Acho que aprendi todos os meus sentimentos com os livros. Neles amei mais, sorri mais e aprendi mais do que em toda a minha vida sem leitura
Nina George, A livraria mágica de Paris

domingo, maio 21

Leitura à beira-mar

A experiência de participar de um grupo de leitura:
Donald Moodie (1958)

Frases curtas, ideias simples

Entre Lápis e Pincéis: Julho 2016:
Uma borboleta é uma presa tão fácil para os maus poetas. Nós deveríamos envergonhar-nos.


***

Não era um poeta cabeça de vento como os outros. Tinha emprego na bolsa e terras no Parnaso.

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O que a vida merece mesmo de nós é ou o sarcasmo ou a chacota. E, no entanto, nós lhe oferecemos poesia.

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As maneiras de enaltecer o amor são tantas quantos os modos de maldizê-lo.

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Estamos tão escaldados com falsificações que, se uma estrela nos cair no quintal, a primeira coisa que faremos será cheirá-la.

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A pieguice surge quando a tristeza escolhe para si as metáforas mais cafonas.

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Uma flor faz mais sentido quando interrogada pelo vento.

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Um haicai pesa menos que o sonho de um morto.

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E quem defende os interesses das categorias gramaticais?

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Terminado o poema, o concretista o apalpa: lindo.

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Um haicai é uma perfeição instantânea, um milagre da concisão.

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Era um daqueles poetas românticos que apanhavam no próprio jardim as flores que punham na lapela.

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Vasculhou a cidade e não encontrou onde tirar xérox de sua querida cornucópia.

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Fazer poesia pode dar, a quem a faz, certa sensação de importância, embora ninguém mais note.

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Provérbios costumam ser tão verossímeis que se isentam de apresentar seu certificado no departamento da verdade.

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Uma das coisas que envelhecem mais rapidamente são as reformas ortográficas.

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Se valesses alguma coisa, não achas que alguém já teria dito?

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Na sessão, um espírito o chamou de tu, e ele pensou estar falando com Fernando Pessoa.

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Saibam os leitores que não preciso fazer nenhum esforço para soar triste. Quem me deu este papel na peça sabia o que estava fazendo.

Raul Drewnick

Seleção para a semana

Avez-vous commencé à faire votre sélection de livres pour les vacances?:

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John White Alexander
Um best-seller em geral é um não tão bom livro cuja venda permite ao editor outros livros que não são tão maus assim mas que não são vendáveis
Robert Sabatier

sábado, maio 20

À beira mar

Reading on the walled beach, 2009 by Judi A Gorski:
Judi A Gorski

Em 2527

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No futuro, a obra literária será apresentada sob forma de essências em frasquinhos ou de alguma especial eletricidade acumulada em bobinas. Sorvendo a essência ou pondo-se em contato com o fluido, o leitor terá, desdobrado na tela da imaginação, o romance que o autor enfrascou ou acumulou, e sentirá as mesmas emoções que o romancista sentiu. 

Já em nossos tempos ao álcool, o ópio e outras drogas produzem visões e deliciosos estados d'alma. Indeterminados, porém, sem controle possível. No futuro, não. A seriação das imagens será perfeitamente ordenada pelo jogo dos estímulos..

Não se dirá cmo hoje: li um romance e sim - cheirei.

- Marieta, onde pôs você o Professor Jeremias que estive cheirando ontem?

- Caiu das mãos da Valéria e quebrou-se.

- Mande à farmácia comprar outro. E mais uns novos, Vida Ociosa, Condenados, por exemplo.

- Fluido ou comprimido?

- Em comprimidos. Com estas cridas, impossível uma biblioteca fluida...

Monteiro Lobato