sexta-feira, dezembro 15

Acabando de acordar

Los que leen, leen mucho. Los que no leen, no leen nada (ilustración de Elisa Ansuini)
Elisa Ansuini

O livro tem futuro?

O que vai acontecer com o livro? Ele continuará existindo no papel ou apenas digitalmente? Neste caso, não acabará sendo ultrapassado por mídias mais modernas? Muitos acham que pelo fato de eu ser autor, editor e historiador tenho a obrigação de saber o que o futuro reserva ao livro.

Confesso aos interlocutores, um pouco contrariado, não ter instrumentos adequados para prever o futuro. Tento explicar que o historiador é, por profissão, um camarada modesto: ele tenta explicar o que já aconteceu, e por vezes até elabora uma narrativa coerente. Não tem a pretensão dos economistas que insistem em fazer previsões... e quase invariavelmente erram. Nem dos adivinhos de plantão que a cada final de ano cometem a proeza de profetizar sobre coisas óbvias e genéricas: garantem que ocorrerá a queda de alguma aeronave; que um artista muito famoso morrerá; que guerras continuarão assolando o Mundo Árabe e a fome não abandonará a África subsaariana (minha avó Sara é capaz de fazer “previsões” como essas...).

Já o historiador, no máximo consegue explicar os “comos” do passado, raramente os “porquês”. E esses são os bons profissionais. Pior são aqueles que não têm pudor em alterar os fatos acontecidos para que se encaixem melhor em suas teorias. Historiador que se preza também não se dispõe a produzir ficção fingindo que é História, ou, em um neologismo descarado, uma “reportagem do passado”... Nada disso. O historiador é modesto, mas é sério.

Ele sabe que o futuro é difícil de prever, muito difícil. E o motivo é simples: olhando para trás temos clareza sobre o caminho percorrido, ele nos parece lógico, óbvio até. Olhando para frente nosso cenário é de muitos trajetos, todos aparentemente viáveis. Qual deles será o mais adequado, qual nos levaria a um beco sem saída? Não sabemos.

liquidnight:
“ Werner Bischof - Reading by candlelight - Rovaniemi, Finland, 1948
From Werner Bischof Pictures
”
Werner Bischof
Que historiador poderia ter previsto que em 1985 que teríamos um presidente eleito pelo Congresso e morto antes de tomar posse, pelo menos dois outros depostos antes de completar o mandato, um intelectual, um operário e uma mulher eleitos pelo voto direto? Quem sonharia em ver banqueiros, grandes empresários e políticos importantes atrás das grades, marqueteiros denunciando antigos chefes, governadores desonestos condenados, candidatos a candidatos tremendo de medo? Ninguém. 

Mais ainda: há meio século imaginava-se para o século XXI o tráfico urbano com veículos zanzando nas alturas, aviões supersônicos ligando os continentes, viagens rotineiras para a Lua, um mundo de robôs nos servindo em tudo e para tudo. Nada disso aconteceu. Por outro lado ninguém previu algo que provocou mudanças radicais na vida cotidiana dos habitantes do planeta: a Internet, com celulares, mídias sociais e todo o resto. É pouco?

Assim, o prudente é seguir um conselho que me dava Francisco Iglesias, talentoso e machadiano historiador mineiro, já falecido: “Não se arrisque a fazer previsões para o ano que vem, fale sobre o que vai acontecer daqui um ou dois séculos. Mesmo que erre, nenhum leitor estará aqui para cobrar seus enganos”. Seguirei o sábio ensinamento. Cobrem meus acertos ou erros em 2117. E aí vai minha primeira previsão:

O livro vai continuar existindo.

E a segunda: haverá leitores de livros.

Não bastassem essas duas, arrisco uma terceira: editoras continuarão sendo fundamentais. ?
Contudo...

A era de Gutemberg está acabando. A leitura de livros como hábito universal (estamos, é claro, falando de pessoas plenamente alfabetizadas e com acesso ao livro, comprando ou tomando emprestado de bibliotecas) está se esgotando. Países desenvolvidos tiveram sua fase de cultura oral, que foi, em grande parte, substituída pela cultura escrita. Países como o nosso nem chegaram a ter um período com prevalência da cultura livresca: saltamos diretamente do oral para o virtual... Com isso, a maior parte da população se satisfaz com truísmos repetidos à saciedade, com bobagens pomposas, com pseudoverdades profundas deslocadas de seu contexto circulando pelo ar que nos cerca (tem gente que acha até que eles colaboram na poluição das cidades).

Mas sempre haverá uma elite cultural, originária de diferentes extratos socioeconômicos da população, que lerá, aprenderá coisas com profundidade e será a criadora de softwares que serão utilizados pela manada. Esta continuará postando bobagens dentro de um universo de referências criado pela elite cultural, gente criativa. Os leitores de livros, enfim... 

quinta-feira, dezembro 14

A melhor cabana

Acampada lectora (ilustración de Marie Caudry)
 Marie Caudry

Ler e crescer

bibliolectors:
“What novel are you reading? / Qué novela está leyendo? (ilustración de Zenina)
”
Zenina
O indivíduo que lê, além do conhecimento adquirido, seja pedagógico ou ficcional, será um cidadão capaz de decisões conscientes. Isto é, será capaz de contextualizar a sua vida, as suas escolhas. E, mais que isso: será capaz de ser dono de opinião perante o estado/status das coisas.

E é esta, a meu ver, a colheita mais importante: o ser cidadão construído através de seus conhecimentos.

Quando criança, ao observar a conversa entre adultos ( fui uma criança muito curiosa) ,me lembro de que tinha um forte desejo: o de um dia ter a minha opinião. Não a que meus pais tinham, mas a minha.

Se hoje aqui escrevo é porque o consegui. Não digo que ela é verdade absoluta e nem que não a mudarei, mas com certeza, adquiri conhecimento e vivência para tê-la: minha própria!

1
– um dia minha sobrinha, Laura, me perguntou o porquê de eu preferir livro ao cinema.

Gosto muito de cinema, mas o livro me proporciona o uso de minha imaginação. Os meus cenários, as trilhas sonoras das histórias que leio são parte minha e não a mostrada pelo diretor. Além de desenhar os personagens e de ter os diálogos e a narrativa mais próximos. Além de, às vezes, em segredo, me colocar na trama. Na época, ela tinha assistido ao filme do Harry Potter. Depois da nossa conversa, ela leu todos os livros da saga. Mais uma leitora!

2- em 2010, fiz parte de um grupo de Leitores Itinerantes. Líamos Carlos Drummond de Andrade, nas escolas do ensino fundamental, da cidade.

Tinha acabado de ler E, agora José quando uma aluna me disse que já estava vendo um homem sentado em uma cadeira de rodas, numa esquina, se perguntando: – E, agora?

Outros acontecimentos, neste projeto: – Se eu colocar Itabira, no Google, consigo ver a cidade onde ele nasceu?; – Na biblioteca tem livros dele? Vou fazer a carteirinha, hoje mesmo; – Eu também; – Eu também!; – Nossa! Vocês também são escritores e não estão mortos?

Além de apresentar o nosso Poeta aos alunos, incentivamos a leitura e, acredito, a escrita, pois éramos escritores, estávamos vivos e morávamos na mesma cidade deles (Santo André-SP).

3- há pouco tempo: você só lê e escreve ou lava louça, limpa a casa?

Sim, faço tudo e mais um tanto. E, assim: mais uma escritora diante da normalidade da vida.

Hoje, não faço mais leituras para crianças, mas proporciono, em meus projetos líteroculturais, contações de histórias; oficinas de criação literária e oficinas de leitura crítica, sempre com profissionais de excelência. Divulgo livros e autores no facebook e em palestras. Resultado: os comentários nas postagens e nos e-mails que recebo: -Estou lendo; Estou escrevendo um livro… Fora os originais que me são entregues.

Sim, a leitura transforma, acrescenta e faz crescer moralmente, culturalmente e desperta a criatividade. Também, uma pessoa que lê terá um vocabulário e conhecimento que o fará ser um cidadão mais completo. Nunca só mais um.

Ah! Menti: leio para os meus netos, Arthur e Cesar.

Rosana Banharoli

Livro conquista até monstros

Assim começa o livro...

Não faz muito tempo que aquela história aconteceu — menos do que costuma durar uma vida, e quão pouco é uma vida quando ela já está terminada e já se pode contá-la em poucas frases e só ficam na memória cinzas que se soltam à menor sacudida e voam à menor lufada —, e no entanto hoje ela seria impossível.

Refiro-me sobretudo ao que aconteceu com eles, com Eduardo Muriel e sua mulher, Beatriz Noguera, quando eram jovens, e não tanto ao que aconteceu comigo e com eles quando eu era jovem e o casamento deles uma longa e indissolúvel desdita.

Este último, sim, continuaria sendo possível: o que aconteceu comigo, já que também agora acontece, ou talvez seja a mesma coisa que não termina. E igualmente poderia ser, acredito, o que aconteceu com Van Vechten e outros fatos daquela época. Deve ter havido Van Vechtens em todos os tempos e não cessarão e continuarão existindo, a índole dos personagens não muda nunca, ou assim parece, os da realidade e os da ficção, sua gêmea, se repetem ao longo dos séculos como se as duas esferas
carecessem de imaginação ou não tivessem escapatória (ambas obra dos vivos, afinal de contas, talvez entre os mortos haja mais inventividade), às vezes dá a sensação de desfrutarmos um só espetáculo e um só relato, como as crianças pequeninas. Com suas infinitas variantes, que os disfarçam de antiquados ou novos, mas que são na essência sempre os mesmos. Também deve ter
existido, portanto, Eduardos Muriel e Beatrizes Noguera em todos os tempos, para não falarmos nos comparsas; e Juanes de Vere aos montes, assim me chamava e assim me chamo, Juan Vere ou Juan de Vere, conforme quem diga ou pense meu nome.

Minha figura não tem nada de original. Na época ainda não existia divórcio, muito menos se podia
esperar que viesse a existir um dia quando Muriel e sua mulher se casaram, uns vinte anos antes de eu me imiscuir em suas vidas, ou melhor, foram eles que atravessaram a minha, apenas a de um principiante, como se diz. Mas desde o momento em que você está no mundo começam a lhe acontecer coisas. Sua frágil roda incorpora você com ceticismo e tédio e o arrasta sem a menor vontade, pois é velha e triturou muitas vidas sem pressa à luz da sua vigia folgazã; a lua fria que cochila e observa com uma só pálpebra entreaberta conhece as histórias antes mesmo de acontecerem.

E basta prestar atenção em alguém — ou lhe lançar um olhar indolente —, e esse alguém não poderá mais escapar, mesmo que se esconda e permaneça quieto e calado e não tome iniciativas nem faça nada. Mesmo que ele queira se escafeder, já o terão visto, como um vulto distante no oceano, que não se pode ignorar, do qual é preciso se esquivar ou se aproximar; ele conta para os outros, e os outros contam com ele, até que desaparece. Também não foi essa minha circunstância, afinal. Não fui nem um pouco passivo, nem fingi ser uma miragem, não tentei me fazer invisível.

quarta-feira, dezembro 13

Pescador de imaginação

Entre Lápis e Pincéis: Julho 2016

Universidade abre arquivos de García Márquez

Mais da metade de um arquivo de 27 mil páginas referentes ao escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez foi liberada para uso público gratuito, informou o jornal The New York Times. O material em questão envolve diversos manuscritos, fotografias, roteiros e cartas, além de 22 cadernos de anotações pessoais e de memórias do prêmio Nobel de Literatura, tudo disponível em inglês e espanhol.

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A iniciativa partiu do Centro Harry Ransom, da Universidade do Texas, que adquiriu o arquivo literário do autor em 2014 por 2 milhões de dólares. A medida chama a atenção pelo fato de a obra ainda estar sob proteção dos direitos autorais.

"Muitas vezes, tem-se uma visão limitada da propriedade intelectual, com a ideia de que o uso acadêmico ameaça ou diminui seu interesse comercial", disse ao jornal Steve Enniss, diretor do Harry Ransom Center.

"Agradecemos a família de Gabo por liberar o arquivo e reconhecer esse trabalho como uma prestação de serviço a seus leitores em todo o mundo", acrescentou, usando o popular apelido pelo qual Garcia Márquez é conhecido.

Desde 2015, quando foi aberto para pesquisas, o arquivo do escritor colombiano se tornou uma das coleções mais circuladas da instituição, um fenômeno que agora deverá se expandir ainda mais.

"Qualquer pessoa com acesso à internet pode ter uma visão aprofundada do arquivo de García Márquez", disse Jullianne Ballou, bibliotecária do projeto Ransom Center. "Abrangendo mais de meio século, o conteúdo reflete a energia e a disciplina de García Márquez e revela uma visão íntima de seu trabalho, família, amizades e política."

O escritor alcançou renome internacional graças ao uso do chamado "realismo mágico”, especialmente em romances aclamados como 100 anos de solidão e O amor nos tempos de cólera. Após sua morte em 2014, ele chegou a ser descrito pelo presidente Juan Manuel Santos como o "maior colombiano que já viveu".

Garcia Márquez começou a carreira de escritor como jornalista e não teve medo de tecer críticas tanto contra políticos colombianos como contra estrangeiros. Um crítico ardente do capitalismo desenfreado, também se opôs ao que ele apontou ao longo de sua vida como um imperialismo arrebatador por parte do governo dos Estados Unidos.

Seus laços com o partido comunista da Colômbia foram inclusive motivo para que ele fosse proibido de entrar nos EUA por três décadas. Ironicamente, Garcia Márquez é o romancista favorito do ex-presidente americano Bill Clinton, que uma vez o chamou de "o mais importante escritor de ficção em qualquer idioma desde a morte de William Faulkner".

Oceano para navegar

Hay tanto y tanto y tanto por leer que se podría llenar un océano de palabras (ilustración de Rogelio Naranjo)
Rogelio Naranjo

Este Natal

— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava­os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.

— De qualquer maneira, este Natal é fogo — voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se disfarçam em Papai Noel, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de um astronauta? Pode ser de verdade, pode ser de mentira; acabou-se a confiança no próximo.

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De resto, é isso mesmo que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre”.Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino infante.

O gerente de uma loja de brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores, pois o vende­dor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher objetos ao alcance da mão rápida.

O punguista é a delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau.

Triste é desconfiar da saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Acontece — informa um detetive, que nos inocula a suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de pé atrás, que nos ensina o desamor.

E mais. Não aceite o oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu embrulho.

Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta, primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor, munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia.

Eis os conselhos que nos dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo. Francamente, o melhor seria suprimir o Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou — idéia de João Brandão, o sempre inventivo — comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança de Deus.
Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, dezembro 12

Enquanto espera a água ferver...

Nanette Regan

O progresso e a fossa

Deve acontecer com todo mundo. Em momentos de fossa, qualquer tipo de fossa, o pensamento positivo mais eficaz é a comparação que qualquer um de nós pode fazer com o passado, não o passado remoto, mas o recente, digamos, de 15, 20 anos atrás.

Não havia internet, computador nem celular. Com viveríamos sem isso? Bem verdade que a grande maioria ainda não teve acesso aos três símbolos da modernidade. Mas quando se pensa que até o século 19 não havia eletricidade, precisava-se de velas e lamparinas para iluminar a noite, e o cavalo era o meio de transporte mais confortável e rápido, não mais se poderia invejar nem mesmo os grandes do mundo, como Napoleão, Bismark, Garibaldi e a primeira geração dos Rothschild.

Recuando mais ainda, lembremos que Júlio César chorava quando pensava que Alexandre, mais moço do que ele, já havia conquistado todo o mundo conhecido. Mas os dois não tinham sequer papel higiênico para suas necessidades.

queerliness:
“ ‘Reading after Lunch’ by Sara Bryant
”
Sara Bryant
Jesus Cristo teve famoso triunfo quando entrou em Jerusalém, pouco antes de sua paixão e morte. Mas estava montado num jumento atrofiado, como todos os jumentos daquela região. E fez o seu mais importante sermão do alto de uma montanha, sem uso de alto-falantes ou microfones --mesmo assim foi ouvido e continua ouvido até hoje.

Meditar sobre as deficiências do passado pode curar a fossa do presente. No meu caso, às vezes cura, às vezes não. Depende do tipo de fossa. Quando penso no milhão de dólares que nunca tive, louvo a lâmpada elétrica que acendo em minhas noites e me consolo. Os milionários do passado não a tiveram.

Mas quando penso nas mulheres que desejei e não tive ou perdi, mergulho na fossa e descubro estranha, inexplicável doçura nela.
Carlos Heitor Cony

segunda-feira, dezembro 11

Leitura não tem idade

bibliolectors:
“What novel are you reading? / Qué novela está leyendo? (ilustración de Zenina)
”
Zenina

O joio que sobrou do trigo

O que indispõe Deus com os poetas dos quais recebe perguntas e invocações é a desleixada métrica, além da vulgaridade das rimas. Ele continua fiel ao parnasianismo, que criou com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac.

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O novo em arte é quase sempre uma habilidosa forma de repetição.

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bibliolectors:
“Introspection reader / Ensimismamiento lector (ilustración de Sterling Hundley)
”
Somos nosso filho predileto: nos protegemos, nos mimamos, nos enaltecemos, somos o sumo e o suprassumo. Pena que no dia da nossa morte não possamos nós mesmos fazer nosso elogio.

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Chamar-me de idiota é algo que ninguém pode fazer com tanta propriedade quanto eu mesmo.

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Quem diz não ter palavras para exprimir certos sentimentos talvez não tenha nenhum para exprimir.

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Minha vontade anda apática, minha volúpia raquítica, minha situação dramática e minha fortuna crítica.

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Vivemos nos queixando do tempo que perdemos com as pequenas coisas. E nunca pensamos no tempo que perdemos com essas queixas.

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Vinícius de Moraes era um poeta envelhecido em tonéis de carvalho.

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Se fosse simples viver, não haveria tantas filosofias.

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A melhor mensagem de boas-vindas que pode haver em uma casa é o gato gostosamente escarrapachado no sofá.

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Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia não há mais quem o encontre.

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Se pudessem ver como se infla tua vaidade quando dizes que és o mais vil de todos os seres.

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Sou um homem que valeria pelo espírito, se por ventura ou porventura o tivesse.

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O Diabo é quem melhor conhece os escritores: querem dar almas de segunda em troca de obras de primeira.

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Os poetas românticos não beijavam. Pousavam os lábios sobre lábios virgens e desmaiavam em êxtases angelicalmente carnais.

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Para ser épico, um poema concretista precisa ter pelo menos dez andares.

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A literatura me ensinou a chorar na terceira pessoa.

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Que pretensiosas são as frases curtas com reticências no final…

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Sou um homem que escreveu a vida inteira. Não sou um escritor. Escritor foi o que eu quis ser.

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Os poemas concretistas são agora fiscalizados pelo Inmetro.
Raul Drewnick

domingo, dezembro 10

Pronto para o Natal

Nanette Regan

Verdade dos livros e da vida

danskjavlarna:
“Here’s a precursor to tablets and smart phones destroying human communication, from Humorous Poems by Alfred Ainger, 1893. The caption says, “Reading,—and wept.”
My Strange & Unusual Site | Books | Videos | Music | Etsy
”
Humorous Poems. Alfred Ainger (1893)
As coisas que nos tocam aos vinte não são necessariamente as que nos tocam aos quarenta, e vice-versa. Isso é verdade para livros e para a vida 
 A. J. Fikry, "A vida do livreiro"

Sonho de livraria

En medio del bosque hay una librería que fomenta la lectura a todos los animales del bosque (ilustración de Cale Atkinson)
 Cale Atkinson

Eu, leitor, confesso

Para mim, a leitura transformou-se de obrigação em paixão, vício, fuga, etc, etc, etc. Obrigação porque agora me lembro que o pai (usando o tom de Carlos H. Cony) insistia, durante a infância/adolescência, na leitura – imaginem! – até de enciclopédias (Conhecer, com fascículos distribuídos em bancas nos anos 70). Como era maçante – mas também no campo, época de semear é feia, cheira mal, e, de repente, que transformação! Eis que chega a colheita – florida, cheirosa, rica e prazerosa.

Leer en libertad (ilustración de John Ferenov)
John Ferenov
Sim, sou um leitor amador, com certa lógica (minha), em que uma palavra puxa outra; um autor, outra autora; um filme, um livro; ou ao contrário, desde que essa leitura traga inflamação (calor, rubor, tumor e dor), que transporte não só para outros sítios, mas principalmente pra dentro de outras personalidades, atos (aqueles que não posso ou quero), pesquisa das sensações humanas. Ah! Que delírio ler um autor contando aquilo que passou ou gostaria de ter passado, por um lado tão inusitado que te joga contra as paredes do auto-conhecimento.

Bem, acima de tudo, leitura pra mim é pura distração, diversão, passatempo, hobby, "previdência privada" (pro futuro, tanto os não lidos quanto os lidos, que espero repetir em busca de sensações maiores).

Onze pequenos e grandes prazeres de um leitor amador:

1. Entrar numa livraria, abrir um livro de poesia, cair naquele poema que parece que foi escrito naquele momento e diretamente pra você. Ex.: Paulo Bonfim, "Epitáfio para o meu silêncio".

2. Ler Henry Miller, Trópico de Câncer, pensando ser livro de "sacanagem" e descobrir, no fim, talvez a melhor definição de pra que servem os artistas e a arte.

3. Nunca ter lido Rubem Braga e, na primeira vez, ler a crônica "Os Pés do Morto".

4. Não admitir sair de uma livraria sem comprar nada, comprar um autor desconhecido, capa interessante, chegar em casa, começar a ler, não parar, ir até o fim, adorar a simplicidade e a maravilha da estória (A Máquina, de Adriana Falcão).

5. Ter lido um romance (que era o único largado num rancho de pescaria), nunca mais encontrá-lo e após sete anos receber um telefonema de um sebo pra ir buscá-lo (Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sábato).

6. Imaginar-se no amor de Florentino Ariza e Fermina Daza naquele cruzeiro no caribe colombiano (O Amor nos Tempos do Cólera, Gabriel G. Marquez).

7. Sentir-se como se fosse o próprio Paul Auster em O Inventor da Solidão.

8. Saber que Martha Medeiros é viva, tem a mesma idade que você, está apenas a mil quilômetros e pode a qualquer momento lançar outro livro.

9. Abrir a Folha de S. Paulo de sexta-feira, procurar na ilustrada a crônica do Carlos H. Cony como primeira leitura da manhã, tendo certeza de que não será sobre o FHC.

10. Assistir a um filme argentino na TV, desconhecido, ser atraído por citações poéticas, gravar os créditos, descobrir Mario Benedetti. Na mesma hora comprar pela internet o que encontrou (Antologia Poética), receber depois de três dias, abrir, esganado, esfomeado, cair no poema "Intimidade".

11. Todos os próximos que certamente estão por vir...

Ricardo Wagner Modes

sábado, dezembro 9

Leitura espionada

Lucy Fleming

A chaminé e a porta

A grande vantagem da criança sobre o adulto é o direito, a vontade e a necessidade que ela tem de perguntar tudo. Com o passar do tempo, esse direito, essa vontade e, sobretudo, essa necessidade vão acabando. Daí que o velho, em geral, nada mais pergunta.

Para quê? A quem? Evidente que o velho também cultiva suas dúvidas. E como qualquer outro sábio, sabe que pouco sabe. Tive a prova disso na véspera de Natal. Veio de Washington um netinho que acredita em Papai Noel e sabe que o bom velhinho desce pela chaminé, pois nos subúrbios da capital americana toda casa tem uma chaminé exatamente para facilitar a vinda de Papai Noel até a sala onde está armada a árvore de Natal.

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Avisaram-me que não decepcionasse o guri, armei a árvore da melhor maneira possível, admito que ficou imponente, faiscando tão forte que suas luzes, no profundo da noite, se refletem nas águas da Lagoa.

Pensei que obrara bem e que tudo estava resolvido. O menino veio, aprovou a árvore com entusiasmo, e perguntou onde estava a chaminé. Bolas! Eu pensara em tudo, menos em chaminé!

Seria complicado explicar que na Lagoa as casas não precisam de chaminé. E que o Papai Noel, quando chega ao Brasil, depois de ter descido e subido em tantas chaminés pelo mundo afora, vem muito cansado e entra pela porta mesmo.

Ele ficou maravilhado. Um Papai Noel que entra pela porta das casas, sem necessidade de se esfolar pelas chaminés! Não era à toa que na escola maternal que frequenta, em Washington DC, o Brasil tem fama de ser um país onde certas coisas acontecem.

Evitei que o assunto se aprofundasse. Mas invejei o garoto que, além da coragem de perguntar, tivera a sabedoria de concluir. Vergado aos anos, fico eu com meus espantos e dúvidas, sem ter a quem perguntar por que o Papai Noel nunca veio para mim, nem pela chaminé que nunca tive nem pela porta que nunca soube abrir.
Carlos Heitor Cony, "O harém das bananeiras"