sábado, abril 21

Cada um com seu jeito de ler

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Charles James Adams 

Os pequenos pensamentos

Menina lendo à janela, Karl Harald Alfred Broge (Dinamarca, 1870-1955),óleo sobre tela
 Karl Harald Alfred Broge
Um livro ajuda-me a pensar. Deve-me deixar à vontade, fora ou dentro dele, como um conhecimento fortuito que me excitasse. Quem se obriga à crítica severa, ou à versão do livro, está inibido de seguir os pequenos pensamentos que ele lhe lança à frente, de brincar com as pedrinhas ideais que ele lhe levanta debaixo dos pés
Irene Lisboa

Uma janela para alegrar a vista

Ritratti

Escrever para quê?

São curiosos os escritores. Dizem que nasceram para escrever, que não se imaginam fazendo nada além de escrever, que vivem para escrever. Mas como se queixam: ah, que cansaço é escrever, que tortura, que suplício, que desgraça. Dá pena ouvi-los. Somos tentados a nos oferecer para escrever por eles. Melhor não. Não há ninguém como um escritor para defender tão bravamente seu papel de vítima.
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No início, quando a literatura em nós é ainda só um projeto, nós nos dizemos, como incentivo: escrever, escrever, escrever. No meio do caminho, nossa voz já não é tão resoluta: escrever, escrever. E, no fim, como náufragos jogados ao mar, insistimos ainda, mais como uma súplica do que como uma esperança: escrever.

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Toutes les sources de ces photos sont disponibles sur mon profil Pinterest.
O escritor novato, quando atinge o estágio de escrever bem, descobre que é aí que o verdadeiro trabalho começa. É hora de esquecer o advérbio bem e aprender a escrever, só escrever. Escrever bem é habitualmente sinônimo de ser maçante. O jovem escritor há de desconfiar da facilidade. Quando se fala de uma obra de arte, dificilmente a primeira isca lançada trará o melhor resultado. Na literatura, como em tudo na vida, há de haver algo amargo, doído, uma escavação que deixe ao menos um pouco de sangue à mostra nos dedos.

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Comparado a outras atividades, o ato de escrever me parece quase uma distração. Invejo os lavradores, que tiram frutos da terra, e, entre os artistas, admiro os pintores e os escultores, que mexem com substâncias, com coisas tangíveis, que as transformam. Os escritores mexem em quê? Respondo por mim: em nuvens, em abstrações.

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Minha ideia, há algum tempo, era escrever menos, para escrever melhor. Agora é parar de vez, para não escrever pior ainda.

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E chega um dia em que escrever é só escrever. Você não está mais ali, a alma também não. É uma transação da qual participam apenas a sua caneta e o seu bloquinho. Nesse dia, você deve aceitar a imposição do tempo e dizer ao menino, que por acaso tem os seus olhos e o mesmo nome, que é hora de desistir, embora ele olhe para você com o ressentimento dos traídos.

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Há muitos modos de ser um escritor. O melhor eu não sei, porém o pior é escrever por escrever.

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A maioria dos que vivem para escrever não vive de escrever.

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Escrever é uma atividade com a qual nos cansamos e maçamos os outros.

sexta-feira, abril 20

Começa o dia

#BuenosDías los #libros son las atalayas desde las que observar el mundo

Literatura nos põe no lugar do outro

Os romances nunca serão totalmente imaginários nem totalmente reais. Ler um romance é confrontar-se tanto com a imaginação do autor quanto com o mundo real cuja superfície arranhamos com uma curiosidade tão inquieta. Quando nos refugiamos num canto, nos deitamos numa cama, nos estendemos num divã com um romance nas mãos, a nossa imaginação passa o tempo a navegar entre o mundo daquele romance e o mundo no qual ainda vivemos. O romance nas nossas mãos pode-nos levar a um outro mundo onde nunca estivemos, que nunca vimos ou de que nunca tivemos notícia. 

Menino lendo Alexandros Christofis (Grécia, 1882-1953) óleo sobre tela, 36 x 27 cm
Alexandros Christofis
Ou pode-nos levar até às profundezas ocultas de um personagem que, na superfície, parece-se às pessoas que conhecemos melhor. Estou a chamar a atenção para cada uma dessas possibilidades isoladas porque há uma visão que acalento, de tempos a tempos, que abarca os dois extremos. Às vezes tento conjurar, um a um, uma multidão de leitores recolhidos num canto e aninhados nas suas poltronas com um romance nas mãos; e também tento imaginar a geografia de sua vida quotidiana. E então, diante dos meus olhos, milhares, dezenas de milhares de leitores vão tomando forma, distribuídos por todas as ruas da cidade, enquanto eles leem, sonham os sonhos do autor, imaginam a existência dos seus heróis e vêem o seu mundo. 

E então, agora, esses leitores, como o próprio autor, acabam por tentar imaginar o outro; eles também se põem no lugar de outra pessoa. E são esses os momentos em que sentimos a presença da humanidade, da compaixão, da tolerância, da piedade e do amor no nosso coração: porque a grande literatura não se dirige à nossa capacidade de julgamento, e sim à nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.
Orhan Pamuk

Somos o que lemos?

Somos pasajes de nuestro libro. Somos lo que leemos (ilustración de Aykut Aydoğdu)
 Aykut Aydoğdu

A terapia de jogar conversa fora

Os pequenos momentos fazem valer as penas. Neste caso, chegou o dia de trocar as minhas. Após alguns comentários de que estaria sobrecarregado, decidi me dar um presente de aniversário. Algo simples, porém radical em tempos de excessos de informação e boletos: relaxar. “Você precisa tirar um tempo para si mesmo.”, foi a frase que mais ouvi após felicitações por completar mais um giro neste carrossel desgovernado chamado vida.

Vencido pelo cansaço (em mais de um sentido), cedi. Dediquei meu fim de semana ao lema do “barquinho vai, barquinho vem.” Sem um violão, mas com livros de confiança e uma cadeira. Fui no sebo de um amigo meu, e passei dois dias horas a fio batendo papo com estranhos e conhecidos, bebendo café e guaraná, lendo…


O Baratos da Ribeiro é um dos meus pontos favoritos há mais de uma década (afinal, estou mais velho agora). Desde sua mudança de uma loja em Copacabana para uma casa em Botafogo, fiz amizades e boas aquisições por lá. O novo ambiente, além de mais espaço para livros, vem com uma área descoberta que liga duas salas. Lá, as pessoas sentam, conversam e escutam música. Boa. Sempre pego dicas pelo que escuto no local.

Por ser uma casa antiga e ter uma abertura para o céu, há uma atmosfera calma. Quase como se fosse um subúrbio antigo, em que nós substituímos as velhinhas de cadeiras de praia na rua em frente de residências. E, como elas, passamos tempo jogando palavras ao vento. Geralmente, música e cultura pop, e, algumas vezes, a vida alheia (afinal, temos que representar as velhinhas em certo grau). As pessoas chegam, desconhecidas ou clientes antigos e amigos, sentam, tomam café e uma conversa surge como os sacos de livros e vinis que adentram quando o dono, Maurício, e seus funcionários retornam de compras de lotes.

Maurício é o típico dono de comércio carioca, embora seja de Taubaté. Cordial e resmungão, cheio de opiniões e que torna a loja uma extensão de si mesmo. Com regras rígidas, mas aberto, sempre me diverte vê-lo interagir com os outros, especialmente quando contrariado. “Ribas, você não pode botar essa banca toda. Tá muito arrogante pra quem não sabia nada há pouco tempo, né, cara.”, me falou em um momento. Eu rio, e reflito. Gosto desses momentos. É como o Bip Bip, o bar de samba do querido Alfredinho. Se você não levou um beijo ou um esporro do Alfredinho, perdeu parte da experiência.

E, para completar o perfil, adora conversa. Especialmente se envolver música. Eu ouço e anoto os nomes das bandas que referencia para buscar depois. Neste fim de semana, por exemplo, dissertou com entusiasmo sobre My Morning Jacket, um grupo americano, e tocou faixas de quase toda sua discografia. “Esse lembra o David Giulmor”, ou “Cara, olha só esse falsete. O cara (vocalista) falseteia muito neste disco.” Aprendi quase tanto sobre rock underground com ele quanto na fase na boate Bunker.

Nesses momentos em que os pássaros voam acima, a música flui, e pessoas aparecem sem compromisso, o mundo segue leve. E lembro-me que a sutileza desses instantes é uma das melhores coisas de estar aqui. Talvez por estar mais velho aprecie estes episódios calmos. Há pessoas que comem chocolate, outras que viajam, algumas vão as spas. Eu converso, leio e ouço música. Assim, começo um novo solo vital com a serenidade de que há um pouso em meio ao ritmo bate estaca que aguarda na calçada no lado de fora.

Daniel Russell Ribas

quinta-feira, abril 19

Vem feriadão aí!

Livros estão sempre sós

H O M E
Os livros estão sempre sós. Como nós. Sofrem o terrível impacto do presente. Como nós. Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar. Como nós. Calam a sua fúria com a sua farsa. Como nós. Têm fachadas lisas ou não. Como nós. Formosas, delirantes, horrorosas. Como nós. Estão ali sendo entretanto. Como nós. No limiar do esquecimento. Como nós. Cheios de submissão ao serviço do impossível. Como nós 
Ana Hatherly, "Tisanas"

Quando batem duas fomes...

Dormir em uma livraria em Paris

Em 1919 Sylvia Beach fundou a Shakespeare and Company, a livraria mais famosa de Paris, primeiro na Rue Dupuytren e depois na Rue de l’Odéon. Fez isso com o objetivo de que escritores estrangeiros e leitores encontrassem na capital francesa novidades em inglês e um lugar de reunião. Também foi editora, e entre seus maiores riscos (ou, melhor dizendo, conquistas) ficará para a história ter editado o Ulisses, de James Joyce. Beach morreu em 1962, e o legado e o nome da livraria foram adquiridos por George Whitman, que a transferiu para sua atual localização, no Bairro Latino, ao lado do Sena, à sombra da Notre Dame.

Ainda hoje tem uma cama no piso de cima, talvez como emblema de que foi durante anos refúgio para todo tipo de escritor, trompetista, notívago e poetas sem obra que pernoitaram nela, convertendo-a por momentos em uma hospedaria digna de Dickens. Segundo confessou Whitman ao escritor Jeremy Mercer quando escrevia o livro Time Was Soft There: A Paris Sojourn at Shakespeare & Co, a livraria havia alojado mais de 40.000 pessoas!


Interior de La Librairie, antiga livraria transformada em suíte no Marais
Pois bem, que este preâmbulo sirva para constatar que hoje, quase cem anos depois, a Shakespeare and Company ganhou concorrência em sua faceta de albergue. Porque em Paris existe outra livraria na qual se pode pernoitar, seja a pessoa artista ou não: La Librairie. Trata-se de uma das duas acomodações em operação pela Paris Boutik, um novo conceito de hotel idealizado por David Lecullier, rosto visível (com outros dois sócios) de um projeto que está dando o que falar e que desperta admiração em clientes (basta ver suas pontuações e comentários na Internet) e em revistas especializadas de todo o mundo.

A ideia é restaurar estabelecimentos tradicionais que tenham ficado em desuso e transformá-los em locais de hospedagem. “As lojas de Paris fazem parte do caráter da cidade, lhe dão personalidade, e nos desagrada vê-las desaparecer. Decidimos convertê-las em suítes conservando sua essência, para assim valorizar os bairros e propor uma experiência parisiense única”, diz Lecullier. Para levar adiante a restauração dos espaços ele contatou Aurélie Cattelain e Clément Karam, do estúdio de design de interiores CKA.
La Librairie

A livraria da Rue Caffarelli (que em outros tempos foi um sebo) é um espaço muito acolhedor, voltado para a calçada. O hóspede dorme e vive em uma grande biblioteca, com cerca de 4.500 livros (muito bons, aliás), na qual todo apaixonado pela leitura e sem rumo encontrará o norte. Também há todo tipo de serviço (máquina de café, pia, minibar gratuito) em uma área interna de 45 metros quadrados pensada para até quatro pessoas. Bem equipado (ah, esse duplo colchão king size convida ao sono à primeira vista), o espaço está completamente protegido de ruídos externos e isolado graças a um vidro e cortinas especiais para garantir intimidade.

La Librairie fica no Marais alto, um bairro com atrativos constantes e clássicos da gastronomia, como o cuscuz do Chez Omar, o colorido Marché des Enfants Rouges e o refinado Café Charlot, os três na Rue de Bretagne. E também estabelecimentos delicados como Papier Tigre e Bibi Idea Shop, aplaudidas lojas de moda (Études, Cuisse de Grenouille, Commune de Paris, Mont Saint-Michel) e fromageries como Jouannault e La Petite Ferme d’Ines Slimania. Justo ao lado de La Librairie se situa a Galerie Glénat, especializada em quadrinhos.

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quarta-feira, abril 18

Aviso de livraria

bookpatrol: “ Wolfman’s Books by kylejglenn on Flickr. ”

Sem água com açúcar

Bookwyrm-maybe he's reading The Hobbit? Though I would hope it's the Enchanted Forest Chronicles.
Gostava de ler livros sem ressaibos sentimentais! Em que o pensamento fosse sempre aríete, ou então pêndulo... que os regulasse
Irene Lisboa

Gastronomia

Books: eat 'em up by Lido Contemori
 Lido Contemori

De ler e possuir livros

O fato de qualquer bocado de papel impresso representar um valor, de qualquer impressão nascer do trabalho intelectual e merecer respeito é considerado entre nós uma opinião fora de moda. Só raramente, junto ao mar ou no topo da montanha, se encontram ainda seres isolados cuja vida não foi até agora alcançada pela maré de papel e para os quais um almanaque, um pequeno manual ou mesmo um jornal constituem uma posse preciosa e digna de ser conservada. Estamos habituados a receber gratuitamente em casa uma grande quantidade de material impresso e rimo-nos dos chineses, para os quais todos os papéis escritos ou impressos são sagrados.

E, todavia, o respeito pelo livro não desapareceu. Somente nestes últimos tempos se começaram a distribuir livros gratuitamente e, aqui e ali, o livro está a tornar-se uma mercadoria vil. Por outro lado, dir-se-ia que até na Alemanha a alegria de possuir livros está a aumentar.

Que fique bem claro que estamos ainda distantes de uma recta compreensão do valor de tal posse. Aqueles que sentem relutância em gastar com os livros apenas a décima parte daquilo que reservam para a cerveja e o café-concerto são uma falange inumerável; enquanto, para outros, com uma mentalidade mais antiquada, o livro é uma espécie de relíquia para ter na melhor sala, a encher-se de poeira sobre o pequeno corte de felpa.

THE LIGHTNESS OF BEING  © Andreas NOSSMANN (Artist, Germany). 840 € ... ... Library, Man, Books, Floating Away,
 Andreas Nossmann
No fundo, todo o verdadeiro leitor também é um amigo do livro. De fato, quem é capaz de acolher com todo o seu coração um livro e de o amar quer, se puder fazê-lo que esse livro também seja seu, quer relê-lo, possuí-lo, ter a certeza de que o mesmo está próximo e disponível. Pedir um livro emprestado e lê-lo à pressa para o restituir em seguida é coisa que não apresenta dificuldades mas, na maior parte dos casos, aquilo que se leu perde-se com a mesma rapidez, ou quase, com que o livro desapareceu de casa. Há, aliás, leitores, particularmente entre as mulheres desocupadas, capazes de devorar um livro por dia: para estes, a fonte mais apropriada continua definitivamente a ser a biblioteca itinerante; na verdade, estes leitores não recolhem tesouros, não adquirem amizades, nem enriquecem a sua vida, aspiram simplesmente a satisfazer uma vontade momentânea. Esta espécie de leitores da qual Gottfried Keller nos deu uma eficaz descrição deve ser deixada entregue ao seu vício.

Para o bom leitor, ler um livro significa ficar a conhecer a índole e o modo de pensar de um ser que lhe é estranho, procurar compreendê-lo e, se possível, torná-lo seu amigo. Na leitura dos poetas, especialmente, aquilo que ficamos a conhecer não é decerto apenas um pequeno âmbito de pessoas e de factos mas, em primeiro lugar, o próprio poeta, o seu modo de viver e de ver, o seu temperamento, a sua fisionomia interior e, por fim, também a sua escrita, os seus meios artísticos, o ritmo dos seus pensamentos e da sua língua. Há quem, de um modo ou de outro, seja conquistado por um livro, quem comece a conhecer e a compreender o seu autor, quem entabule uma relação com o mesmo: só a partir deste momento o livro começa a desenvolver sobre esse leitor o seu verdadeiro efeito. Por isso, este último não irá cedê-lo nem esquecê-lo, irá, pelo contrário, conservá-lo, ou seja, irá adquiri-lo, de modo a poder relê-lo, a poder reviver nesse mesmo livro, quando sentir necessidade disso. Quem compra com base nestes critérios, quem procura sempre para si próprio só aqueles livros cujo tom e cuja alma tenham conseguido tocar o seu coração deixará bem cedo de devorar livros indiscriminadamente e sem um fim preciso e, em vez disso, com o decurso do tempo, irá reunir em seu redor um círculo de livros queridos e preciosos do qual saberá extrair alegria e conhecimento e que, em qualquer circunstância, lhe serão mais frutíferos do que abandonar-se desordenadamente à leitura casual e irreflectida de tudo aquilo que lhe caia nas mãos.

Não existem cem ou mil «livros mais belos», há, para cada indivíduo, uma escolha particular baseada naquilo que lhe é afim e compreensível, caro e precioso. Por isso, é impossível constituir uma boa biblioteca sob encomenda; cada um de nós deve seguir as suas próprias exigências e preferências, e criar, pouco a pouco, uma coleção de livros, da mesma forma que se criam amizades. Então, uma pequena coleção poderá para o leitor significar o mundo inteiro. Os leitores verdadeiramente bons foram sempre aqueles cujas exigências se restringiram a pouquíssimos livros; uma simples camponesa, que não possui nem conhece nada além da Bíblia, leu-a mais a fundo e extraiu dela uma maior soma de saber, de conforto e de alegria do que um qualquer ricaço mimado poderá alguma vez obter da sua luxuosa biblioteca.

O efeito que os livros produzem tem algo de misterioso. Qualquer pai ou educador já fez a seguinte experiência: julgou dar, no momento certo, um livro óptimo e belíssimo a um rapaz ou a um adolescente para, a seguir, se aperceber de que se enganou. 0 facto é que todos, velhos ou jovens, devem encontrar o seu próprio caminho no mundo dos livros, ainda que o conselho e a vigilância amigável possam ter alguma utilidade. Há quem consiga tornar-se íntimo dos poetas muito cedo, enquanto outros precisam de longos anos antes de constatarem o quão doces e singulares tais leituras são. É possível começar com Homero e acabar com Dostoiévski ou vice-versa, é possível crescer na companhia dos poetas e acabar por passar para os filósofos ou vice-versa: os caminhos são inúmeros. Porém, só existe um critério, um único caminho para formar e desenvolver o próprio espírito através dos livros: é o da atenção para com aquilo que se lê, a paciente vontade de entender, a atitude humilde de quem não rejeita e permanece à escuta. Quem lê apenas por passatempo, por muito numerosas e belas que sejam as suas leituras irá esquecê-las rapidamente e dará por si pobre como dantes. Quem, pelo contrário, lê os livros como se ouvem os amigos, verá como esses revelarão os seus tesouros e se tornarão para ele uma posse íntima. Aquilo que ele ler não deslizará para longe nem será perdido, pelo contrário, irá permanecer e pertencer-lhe, irá alegrá-lo e consolá-lo, como somente os amigos sabem fazer.

Hermann Hesse, "Uma Biblioteca da Literatura Universal"

terça-feira, abril 17

Tapete mágico

Tirinhas (@tirinhass) | Twitter

O bem que faz a TV

I am feeling useless...


Acho que a televisão é muito educativa. Todas as vezes que alguém liga o aparelho, vou para a outra sala e leio um livro
Groucho Marx

Livro deixa marcas

...
Uma pessoa, por exemplo, lê na idade madura um livro importante para ela, que a faz dizer: "Como poderia viver sem o ter lido!" e ainda: "Que pena não o ter lido quando era jovem!". Pois bem, estas afirmações não fazem muito sentido, sobretudo a segunda, porque a partir do momento em que ela leu aquele livro, a sua vida torna-se a vida de uma pessoa que leu aquele livro, e pouco importa que o tenha lido cedo ou tarde, porque até a vida que precede a leitura assume agora uma forma marcada por aquela leitura
Italo Calvino, "Palomar"

Recanto de leitura

After buying many books, now it… rest and reading / Después de comprar muchos libros, ahora toca.. descanso y lectura (ilustración de Eva Vázquez)
Eva Vázquez