sábado, dezembro 10

Espelho da nossa imaginação

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R.O.Schäfer

Um bairro dedicado ao livro

cidades Livro: Jinbocho - Second Hand Bookshop 2
Jinbocho, bairro no centro de Tóquio, tem na área de Chiyoda, o reduto dos livros, livrarias e editoras. com mais de 170 lojas. A tradição livresca do local surgiu em 1913, quando o professor universitário Shigeo Iwanami abriu uma pequena editora e inspirou outras editoras a fazer o mesmo. 
cidades Livro: Jinbocho - Durante a Festa do Livro Jinbocho
Ruas tomadas durante o Festival do Livro em Jimbocho

Valor do exemplo

O que estimula a criança a ler é o exemplo. O exemplo estimula a aprender qualquer coisa. Se a criança come de garfo e faca é porque vê os pais comerem assim. Mas se ela mora numa sociedade onde adultos comem com a mão, ela vai comer com a mão. Então, se ela mora numa família ou numa sociedade em que ninguém lê, ela não vai se interessar por leitura, mas se as pessoas em volta dela leem e falam sobre livros, ela vai se interessar, porque ler é uma atividade como outra qualquer 
Ana Maria Machado

'O sol é para todos' censurado em escolas nos EUA devido à linguagem

Os exemplares de O Sol é para Todos, de Harper Lee, e As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, voltaram a ser banidos de algumas salas de aula dos Estados Unidos depois do protesto de uma mãe. Um condado da Virgínia deverá avaliar se a linguagem usada nessas duas obras, consideradas títulos imprescindíveis da literatura norte-americana, justifica que sejam censuradas de maneira permanente no currículo escolar.

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Marie Rothstein-Williams, mãe de um adolescente mestiço, alegou em uma reunião do conselho escolar que as palavras empregadas nessas obras tinham perturbado seu filho. “Não discuto que seja uma literatura excelente”, afirmou Rothstein-Williams, “mas há tantos insultos racistas e palavras ofensivas que é impossível ignorá-las e agora mesmo já vivemos em uma nação dividida”.

Rothstein-Williams argumenta que o conteúdo desses livros legitima o uso de insultos racistas, especialmente pelo reiterado emprego da palavra “nigger”, ponto de partida de todas as tentativas prévias de bloquear esses dois títulos. A rejeição popular ao termo, carregado do racismo com o que os brancos se referiam aos afroamericanos durante décadas de segregação e discriminação, transformou-o na “palavra ‘N’”, para evitar que seja pronunciado por completo.

A ação chega em um momento de intenso debate no setor educacional dos Estados Unidos entre quem reivindica a criação de espaços seguros em que os estudantes possam escolher não ler ou não ouvir palavras que possam ferir sua sensibilidade e aqueles que alegam que negar o acesso dos menores a essas obras é impedi-los de aprender as lições contidas em suas páginas e a realidade de épocas anteriores.

O Sol é para Todos, ambientado no Alabama dos anos 1930, conta a história de um advogado branco que aceita defender um afroamericano acusado de estuprar uma mulher, também branca. Em As Aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain retrata a vida de um jovem no Sul dos Estados Unidos no final do século XIX.

A ação dessa mãe na Virgínia é a última em uma longa lista de tentativas que colocaram As Aventuras de Huckleberry Finn no primeiro lugar da lista dos títulos mais censurados nas escolas dos Estados Unidos. O Sol é para Todos também está entre os primeiros colocados por causa de sua linguagem. Entre outros títulos censurados estão desde O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald) e As Vinhas da Ira (John Steinbeck) até A Cor Púrpura (Alice Walker) e Amada (Toni Morrison).

Em 2013, um condado da Louisiana suspendeu a proibição que há 12 anos impedia os estudantes do estado de ler O Sol é para Todos nas escolas públicas. Até aquele momento, segundo a Associação Norte-americana de Bibliotecas pela Liberdade Intelectual, a mesma obra tinha sido banida em diferentes estados quase vinte vezes desde 1977.

sexta-feira, dezembro 9

Biblioteca dos sonhos

Furúnculo lírico e outras atrações

Se quiseres que ouçam com atenção o relato de tuas desgraças, convém atribuí-las ao amor. É um personagem que, digam o que disserem, não sai de moda. Até um furúnculo na nádega, se for lançado como obra dele, assume certo lirismo.

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Quando chega a fase em que os gorjeios começam a parecer cacarejos, o passarinho deve pedir ao dono que o leve com a gaiola para dentro de casa e ali o deixe ficar até a morte. Que seja poupado dos impiedosos olhos do sol e da zombaria dos passarinhos jovens.

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Eu a chamei de Caperucita. Ela não entendeu e, por não entender, não notou também a insinuação de lobo que eu, com todo o meu improvável charme, tentava lhe impingir. À nossa frente, a floresta era toda convites.

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Para ser poeta, não é preciso muito mais que ter o jeito certo de entender alguns acontecimentos da vida, como as flores, as nuvens e os pássaros.

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Às vezes, o senso comum se rebela e adota um estilo próprio.

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Nunca leiam sonetos. A única e descarada missão deles é provar que o amor existe. Ou não.

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Se aspiras à glória, pensa em como ela deve estar aquecendo agora o coração de Shakespeare.

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Os que morrem por amor são sempre aqueles tidos como idiotas antes desse gesto grandioso. E depois também.

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O passarinho da literatura todo dia vem nos acordar com sua impostura cruel: trabalhar, trabalhar, trabalhar – quem não trabalha não ganha o Nobel.

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Demos a vida. Foi pouco, já se vê. O que terão dado Shakespeare, Dostoiévski e Flaubert?

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Constrangidos por só falarem de amor, os poetas às vezes se aventuram por outros temas. É quando os leitores menos gostam deles.

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À inquietação da carne o amor não traz cura ou sossego – é só placebo.

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Morrer é uma das aporrinhações da vida, assim como ir ao dentista. A diferença é não haver dia e hora marcados.

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Quando menino, uma tarde pensei em deixar que minha pipa ficasse no céu até a chegada da noite. Talvez na volta ela pudesse me contar como é uma estrela vista de perto.

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Para montar uma farsa, o amor precisa só de um tolo e uma comparsa.

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Morrer pela literatura é um projeto que, se eu não o apressar, será precedido pelo prosaico processo de morte natural, com as causas costumeiras: cardiopatia, diabetes, pancreatite, pneumonia.

Raul Drewnick

quinta-feira, dezembro 8

Ladrão deixou uma pista

Hay un ladrón que lee? (ilustración de Andrew Davidson)
Andrew Davidson

Nuvem

Dia lindo desse, a vida de luzes acesas, combinadas, certinhas, eis que surge a nuvem. É uma bela nuvem, de volumes cheios, que mudam de forma o tempo todo. O sol traça os contornos de dourado, mas você nem repara a princípio em como é linda. Mas deixa-se atrair, à medida que ela chega, devagar, e vai mudando as cores, você repara nessas coisas.

Um dia de calmaria.
A nuvem encobre aos poucos o sol, muda o tom da vida, uma luz diversa. Aos poucos, aos flocos, ela vai possuindo o dia e o que era azul vai ganhando branco. Tem uns cinzas no meio, mas você só vê os brancos.

O sol fica encoberto, o calor arrefece, escurece. Não chega a ficar frio, mas algo em você treme. De vez em quando, o sol fura a nuvem em raios que parecem trazer um recado: não fui embora, não se esqueça, estou sempre aqui.

A nuvem envolve você, na velocidade de um espanto. Parece uma neblina espessa, divina, que sobe do chão e ganha o alto. Cerca o mundo, até que você não vê mais nada, está cercado pela nuvem, cegado pela nuvem, parece um tipo de gás mas é nuvem.

Mas ela não pediu para vir, não teve culpa de acontecer. Só apareceu, você que quis saber mais, menino curioso de cabelos brancos. Ao contrário: se dependesse da nuvem, ela iria para outro lado, envolver outros mundos, nunca que quis encobrir esse.

Você tenta conhecê-la melhor, ela se dissipa. Quer tocar, entender, ter a nuvem, ela muda de formato, some e reaparece ali, some e nem reaparece. Nas voltas atrás dela, você fica tonto e quer se sentar, mas não há chão.

Então, a chuva. Por três dias e três noites e três meses e três anos, só faz chover. Você não consegue enxergar, cercado pela neblina, e vai se ensopando, afundando na poça, se queimando e pior: os morros, suas pedras, sua referência, estão encobertos, desapareceram, bem como as lanternas e os salva-vidas de costume.

E vem o vento. Bate forte no corpo, gruda a roupa na pele; um tapa no rosto, uma folha seca entra nos seus olhos, você esfrega com os dedos e – hã? – acorda, foi salvo pelo vento, que soprou a nuvem mais linda que já houve, feito ventilador que afasta um calor que arrepia mais que esquenta. A nuvem vai como veio. Fica uma coceira estranha nos olhos.

E o sol volta, ou o mais lindo de tudo: sempre esteve. Ele brilha, seca a pele, sem pressa, como a mãe fazia com a toalha em você menino, e enxuga toda tristeza. Seu olhar é paciente, como se perguntasse: sério que você achou que uma nuvem fosse colorir melhor?

Você segue a sombra que o sol acendeu, ela tenta imitar seus movimentos, você dá um pulo e cai pisando pesado sob a sombra. Acabou.

Nuvem. Sei. Ela não venceu. Não dessa vez.

Cássio Zanatta

Livro é sempre aventura

É hora de salvar as Bibliotecas Parque do Rio

No último dia 19/10, estive pela primeira vez em uma Biblioteca Parque, no caso a unidade do centro do Rio. Faço aqui um mea culpa, pois já deveria ter visitado o espaço muito antes. Meus filhos com sotaque carioca, no entanto, já foram várias vezes, algumas com a mãe e muitas com a escola. Era um sábado e fui assistir ao espetáculo Parada Shakespeare, da Cia iLtda, junto com a Tarsila e o Lorenzo, e seus esses e erres puxados.

A biblioteca estava cheia e com muitas atividades. Fui atendido logo de cara por uma recepcionista que, atenciosamente, me indicou o caminho para o teatro. Andei até o local observando jovens que ocupavam todos os espaços da biblioteca. Como chegamos cedo, pudemos participar de uma contação de histórias. Honestamente, uma das melhores que já vi, com direito a tradução para surdos. Mais importante: Tatá e Lolô adoraram... “Iraaado, papai!”

O teatro era ótimo. A lojinha era linda. Tudo organizado e de alta qualidade. A internet, gratuita, era mais rápida que a da minha casa. Me lembrou as bibliotecas suecas que frequentei quando morei em Estocolmo.

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Tarsila e Lorenzo brincando com uma cadeira de rodas em uma exposição lúdica na Biblioteca Parque do centro do Rio | © Lima AndruškaMas parece que o sonho acabou. Drömmen är över, diriam os suecos. "Deu ruim, papai", diriam Tarsila e Lorenzo. Afinal, as quatro unidades das Bibiotecas Parque – Estadual (Centro), Niterói, Rocinha e Manguinhos ­– passaram a funcionar em horário reduzido desde ontem(1º). Mais grave, os funcionários das mesmas, contratados pelo Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG), a organização social que administra a rede, já estão todos de aviso prévio. Embora as bibliotecas sejam estaduais, com o colapso do Estado do Rio de Janeiro, as prefeituras do Rio e Niterói haviam assumido os custos das unidades. No entanto, os apoios municipais não estão garantidos para 2017, e não precisa ser nenhum gênio para se concluir que, se os funcionários estão em processo de demissão, a possibilidade de os novos prefeitos Marcelo Crivella, do Rio, e Rodrigo Neves, de Niterói, manterem a verba é remota na avaliação do IDG.

As três Bibliotecas Parque cariocas custam R$ 1,5 milhão por mês e a unidade de Niterói outros R$ 250 mil. Não é pouco dinheiro, mas também não é um valor impeditivo. Mas temos de ser realistas: o Estado do Rio está quebrado, o novo prefeito do Rio não parece ter o mínimo de interesse em cultura e, em Niterói, a história pode não ser diferente.

Mas vamos ficar assim? Vamos deixar o sonho acabar? Aceitar o “Deu ruim”? Tenho certeza que o IDG e os diretores das bibliotecas estão tentando de tudo para manter os projetos, mas cabe à sociedade se mobilizar também. Estou falando de se manifestar, protestar, mas mais ainda de tentar achar uma solução. Já coloco o PublishNews à disposição para ajudar em qualquer iniciativa para salvar as bibliotecas, seja como canal de comunicação ou facilitador de contatos com o mercado editorial. Eu também, como pessoa física, teria todo interesse em ser um “sócio-apoiador” da iniciativa ou coisa que o valha.

A verdade é que R$ 1,75 milhão por mês é até bem pouco para a iniciativa privada e para grandes empresas. Será que uma ou algumas delas não poderiam bancar o projeto? E quer uma prova de que o valor é baixo? A Odebrecht, que pede hoje desculpas a todos nos jornais por seus atos de corrupção, vai pagar R$ 6,7 bi por esse “perdão”, conforme seu acordo de leniência. Este valor poderia manter as Bibliotecas Parque abertas no Rio de Janeiro por nada mais que 319 anos.

Vamos salvar as Bibliotecas Parque do Rio? “Partiu, papai, demorô!”, diriam Tatá e Lolô.

terça-feira, dezembro 6

Banheira de leitura

Steph Fizer Coleman

A estante

Quero !!!:
Naquele novo apartamento da rua Visconde de Pirajá pela primeira vez teria um escritório para trabalhar. Não era um cômodo muito grande mas dava para armar ali a minha tenda de reflexões e leitura: uma escrivaninha, um sofá e os livros. Na parede da esquerda ficaria a grande e sonhada estante que caberia todos os meus livros. Tratei de encomendá-la a seu Joaquim, um marceneiro que tinha oficina na rua Garcia D’Avila com Barão da Torre.

O apartamento não ficava tão perto da oficina. Era quase em frente ao prédio onde morava Mário Pedrosa, entre a Farme de Amoedo e a antiga Montenegro, hoje Vinicius de Moraes. Estava ali há uma semana e nem decorara ainda o número do prédio. Tanto que, quando seu Joaquim, ao preencher a nota da encomenda, perguntou-me onde seria entregue a estante, tive um momento de hesitação. Mas foi só um momento. Pensei rápido: “Se o prédio do Mário é 228, o meu, que fica quase em frente, deve ser 227. “Mas lembrei-me de que, ao ir ali pela primeira vez, observara que, apesar de ficar em frente ao do Mário, havia uma diferença na numeração.

— Visconde de Pirajá 127 — respondi, e seu Joaquim desenhou o endereço na nota.

— Tudo bem, seu Ferreira. Dentro de um mês estará lá sua estante.

— Um mês, seu Joaquim! Tudo isso? Veja se reduz esse prazo.

— A estante é grande, dá muito trabalho… Digamos, três semanas.

Contei as semanas. Não via chegar o momento de ter no escritório a estante sonhada, onde enfim poderia arrumar os livros por assunto e autores. E,mais que isso, sentir-me um escritor de verdade, um profissional, cercado de livros por todos os lados. No dia da entrega, voltei do trabalho apressado para ver minha estante.

— Como é, veio? — perguntei ao entrar.

— Veio o quê?

— Como o quê? A estante!

Não viera. Seu Joaquim não cumprira com a palavra empenhada, ah português filho de… Telefonei para ele sem dissimular, no tom da voz, minha irritação. E ele:

— Como não cumpri? Andei com dois homens de cima para baixo da rua e não encontrei o tal número que o senhor me indicou. Não existe na rua Visconde de Pirajá o número 127, senhor Ferreira.

Fiquei sem ação. Dera a ele o número errado.

— Diga-me o número certo e sua estante estará em sua casa amanhã mesmo.

Fiquei sem palavra. Se não era 127, qual número seria? Não era 227, disso tinha certeza… E o Joaquim ao telefone:

— Qual o número, seu Ferreira?

— É 217, seu Joaquim… É isso, 217.

— Muito bem, 217. Já anotei. Amanhã terá sua estante.

Não tive. Ao chegar em casa e verificar que a estante não estava lá, conclui que havia dado de novo o número errado ao marceneiro. E corri para o telefone a fim de me desculpar.

— Seu Joaquim, é o senhor Ferreira… da estante.

— O senhor está querendo brincar comigo?

Fui tomado por um frouxo de riso, enquanto seu Joaquim, indignado, dizia que não ia mais entregar estante nenhuma, que eu fosse buscá-la, pois já era a segunda vez que subira e descera a Visconde de Pirajá, carregando aquela estante enorme, etc. etc…
Ferreira Gullar (1930-2016)

domingo, dezembro 4

Preparados para as férias

Kerry Hyndman:
Kerry Hyndman

Para Maria da Graça

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Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.

Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.

Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?”

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.

Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.

A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gato se fosses eu?”

Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.

Disse o ratinho: “A minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.

Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo” Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.

E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuido tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.

Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.
Paulo Mendes Campos

Personagem à procura de leitor

bibliolectors:
“Personaje en busca de lectores (ilustración de Andrea De Santis)
”
Andrea De Santis

Dormindo com 5 mil livros

O público japonês apaixonado por livros não se contentou com apenas um hostel com o tema de livraria. Depois do sucesso do Book and Bed Tokyo, os criadores do empreendimento lançaram um outro hostel na cidade de Kyoto. Quem quiser dormir em um ambiente com confortáveis camas dispostas entre prateleiras e mais de 5 mil livros, deverá desembolsar, no mínimo, 39 dólares por noite. 

quinta-feira, dezembro 1

Leitora ao sol

simena:
“ Frank Weston Benson - The Reader
”
Frank Weston Benson

O round do século

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Desvendada a história dos livros roubados por nazistas

Coleções roubadas foram distribuídas entres bibliotecas públicas,
centros culturais nazistas ou funcionários dos regime
Em meio aos cerca de 8,5 milhões de livros do acervo das bibliotecas da Universidade Livre de Berlim, Ringo Narewski e sua equipe têm uma nobre missão: encontrar livros que foram confiscados de judeus por autoridades nazistas durante o Terceiro Reich (1933-1945). O objetivo dos pesquisadores é devolvê-los ao legítimos donos.

O caminho até devolução, porém, é longo e exige um minucioso trabalho de investigação. O ponto de partida é a identificação de todos os livros impressos antes de 1945. A universidade estima que cerca de 1,5 milhão de livros se encaixem nesta categoria.

"A maior dificuldade neste trabalho é o volume de livros para serem avaliados sem termos qualquer estimativa sobre o resultado final. Além disso, se há a suspeita sobre determinada obra, é preciso muito tempo para desvendar 70 anos de história de uma pessoa", afirma Narewski, diretor do grupo de trabalho responsável por identificar obras saqueadas por nazistas que fazem parte do acervo de bibliotecas da universidade.

Nesse trabalho de detetive, a Universidade Livre de Berlim ganhou reforço extra há um ano. Além dela, três instituições – a Fundação Nova Sinagoga, a Universidade de Potsdam e a Biblioteca Estadual de Berlim – reuniram as informações sobre pesquisas realizadas nesta área num banco de dados online, o "Looted Cultural Assets" (bens culturais roubados).

Nos últimos anos, a instituição verificou cerca de 44 mil livros. Atualmente, eles investigam a origem de 2 mil assinaturas em livros. E uma dessas histórias tem passagem pelo Brasil.

Um dos livros roubados encontrados no acervo pertenceu ao jornalista Ernst Feder, que fugiu de Berlim para Paris em 1933. Com a marcha nazista em direção à França, Feder emigrou para o Brasil em 1941, onde viveu, em Petrópolis, até 1957, quando retornou para Berlim.

Sua biblioteca, com quase 10 mil títulos, foi saqueada pelo regime nazista, e um destes exemplares foi parar na Universidade Livre de Berlim. No momento, os pesquisadores tentam entrar em contato com os herdeiros do jornalista para devolver a obra.

De acordo com o historiador Götz Aly, a prática do confisco foi instrumentalizada pelos nazistas para garantir a lealdade da população alemã ao regime. Segundo ele, o roubo e redistribuição de bens e economias dos judeus, na Alemanha e, posteriormente, em países ocupados, favoreciam economicamente o povo alemão.

As coleções roubadas foram distribuídas entres bibliotecas públicas, centros culturais nazistas e funcionários do regime. Depois da Segunda Guerra Mundial, muitas destas peças foram vendidas a antiquários ou doadas para instituições.

Desta maneira, livros saqueados foram parar também em estantes de bibliotecas criadas depois de 1945, como é o caso das da Universidade Livre de Berlim, fundada em 1948. Segundo Narewski, além das doações privadas, as bibliotecas da instituição receberam livros confiscados de funcionários do regime nazista pelo exército americano no fim da guerra.

O atual projeto da equipe de Narewski se concentra na análise de cerca de 70 mil livros que foram adquiridos pela universidade entre 1952 e 1968. Com os títulos suspeitos em mãos, a próxima fase é buscar nos livros pistas sobre suas origens, que podem ser um carimbo, um nome escrito a caneta, um ex libris (selo personalizado que identifica as obras de bibliotecas particulares ou públicas) ou algum número de referência. Descoberta alguma identificação, começa o trabalho para decifrar a história e o percurso percorrido por esse livro até chegar às estantes da biblioteca.

A investigação mais longa da universidade já dura três anos e é referente a um livro que pertenceu à família Frohmann-Holländer, de Frankfurt, que, perseguida durante o regime nazista, fugiu para os Estados Unidos.

"Não sabemos o que aconteceu com essa biblioteca durante três anos na década de 1930, antes da emigração da família. Como há a possibilidade de que alguns destes livros tenham sido vendidos na época, não podemos afirmar com certeza se a obra foi confiscada, por isso, ainda não podemos devolvê-la, e a pesquisa continua", explica Narewski.

Após reconstruir a história dos livros, o grupo precisa desvendar a história dos proprietários legítimos dos títulos e de suas famílias para poder restituí-los. E aqui há outra dificuldade, entrar em contato com estas pessoas. Muitas vezes, pesquisadores sabem quem são os herdeiros, mas não conseguem ter acesso a eles, e, em alguns casos, e-mails ou cartas enviados são ignorados pelos destinatários.

Nos últimos dois anos, a Universidade Livre de Berlim devolveu 160 livros que foram saqueados pelos nazistas aos seus legítimos donos. As devoluções a 75 herdeiros e instituições ocorreram na Alemanha, Áustria, Polônia, Letônia, Holanda, Estados Unidos, Israel, República Checa, Reino Unidos e Ucrânia.

"Essa restituição tem uma dimensão moral. Não é uma tentativa de reparação, pois é impossível reparar os crimes cometidos pelos nazistas, mas se trata de devolver às vítimas um pedaço da sua história", diz Narewski.

O pesquisador destaca que, além de ser uma revisão da história da universidade, esse trabalho preserva a memória daquele período, para evitar que crimes como os cometidos pelo regime nazista voltem a acontecer.