terça-feira, setembro 19

Novidades em cena

Señoras y señores: desfile de las novedades de otoño en la biblioteca / Fashion parade books: autumn collection (ilustración de Nelleke Verhoeff)
Nelleke Verhoeff

Atlas literário

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A ideia é boa, embora me pareça que o trabalho seja interminável enquanto os escritores forem escrevendo livros passados em Portugal. Trata-se de um atlas da paisagem portuguesa que consta da literatura (O Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental, em execução), um projecto coordenado pela investigadora Ana Isabel Queiroz que compreende mais de 350 obras de mais de 170 escritores, do século XIX aos nossos dias, e pretende ser um “repositório de excertos literários” de livros escritos por autores do mundo inteiro (portugueses também – ou sobretudo) que incluam referências à paisagem portuguesa, assim permitindo aos leitores uma viagem pela literatura e pelo território ao mesmo tempo. A notícia dá como exemplo uma descrição da Praça do Comércio, em Lisboa, feita nada mais nada menos do que por Hans Christian Andersen, por causa de uma visita que fez à capital portuguesa em 1866; mas o atlas incluirá naturalmente muitos excertos de Viagens na Minha Terra, de Garrett, Portugal Pequenino, de Raul Brandão, Praias de Portugal, de Ramalho Ortigão, A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, Contos da Montanha, de Miguel Torga, ou Novelas do Minho, de Camilo Castelo Branco – e só estou a mencionar o mais óbvio. O mapa deve ser trabalho para muitas mãos e desconheço quando fica pronto, mas lá que vou gostar de lhe meter o nariz, não nego.

segunda-feira, setembro 18

Hora de passear

Imagina lo aburrido y soso que seria no leer (ilustración de Художник Олег Чубаков)
 Художник Олег Чубаков

Palavra nas tintas é outra coisa

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Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia
Graciliano Ramos, "São Bernardo"

Vertigem na biblioteca

'Esse não sou eu'

reading-as-breathing:
“ Pietro Antonio Rotari (1707-1762)
”
Pietro Antonio Rotari (1707-1762)
Ele ganha seu dinheirinho fazendo caricaturas na Praça da Sé. Está há três anos nisso, tempo suficiente para se considerar bem-sucedido. Nunca precisou voltar a ser distribuidor de folhetos ou entregador de pizza. Sabe que tem talento e o defende com veemência se o colocam em dúvida. Agora mesmo está explicando a um office-boy, que não se reconheceu no rosto desenhado, que é um caricaturista, não um retratista. Ao garoto, que já pagou mas resmunga alguma coisa, ele pergunta:

“Do que você não gostou?”

O office-boy diz que o queixo não lhe agradou.

“O queixo? Está achando o quê? Que ele está grande?”

O garoto faz que sim, com a cabeça. Ele, pacientemente, justifica:

“Ah, sabe como é. uma caricatura é sempre meio exagerada. Mas você está muito bem, pode crer.”

Outro típico office-boy passa com sua mochila e cumprimenta:

“Oi, Queixinho.”

“Queixinho é a mãe.”

O office-boy de queixo miúdo vai embora, olhando ainda desconfiado a caricatura, e o caricaturista, porque já conseguiu um dinheiro razoável, resolve ir para casa. Alonga o caminho para o ponto do ônibus só para passar diante da loja de calçados femininos e ver a atendente, que fica sempre na entrada, ao lado da vitrine. Todas as vezes ele tem vontade de parar. Mas parar para admirar sapatos de mulher? O que a moça pensaria dele?

Ela parece mais bonita hoje, assim como ontem dava a impressão de estar mais bela que anteontem. Ele para uns passos adiante, numa banca de jornais, e, observando disfarçadamente o rosto amado, se põe a desenhá-lo. É um retratista agora, não o caricaturista. Trabalhando com uma lentidão inabitual, que julga agora necessária à perfeição, termina o perfil. Ele lhe parece tão pessoal, tão íntimo, que resolve não assinar seu nome artístico: Pablo. Escreve o nome real – Paulo Mateus da Conceição – e, com uma dessas coragens que só os apaixonados conhecem, volta para diante da loja e entrega à moça, enrolado, o desenho.

Quando ela, mais espantada que curiosa, se põe a desenrolá-lo, ele olha para o seu nariz e vê que é muito mais gracioso, e também os olhos lhe parecem mais expressivos do que nunca.

Assim que a atendente fixa o olhar no desenho, ele se sente ridículo, diz “olha, amanhã eu te explico tudo, tá bom?”, e sai correndo como um trombadinha, sem notar o sorriso que ela esboça, igual ao que está na cartolina.

domingo, setembro 17

Aproveitando a tarde

Aprovechamos el buen tiempo para leer al aire libre (ilustración de Joel Spector)
 Joel Spector

Assim começa o livro...

Uma viagem de carro de uma hora, boa parte dela na subi‑ da, no meio da chuva e da fumaça. Eu mantinha minha janela abaixada alguns centímetros, na esperança de sentir uma fragrância, um olor de arbustos aromáticos. Nosso motorista diminuía a velocidade nos piores trechos da estrada e nas curvas mais fechadas, e sempre que vinha um carro em sentido contrário em meio à neblina. Em alguns trechos a vegetação à beira‑estrada rareava e víamos um panorama de selva pura, vales inteiros de mata, espalhada entre os morros. 

Jill lia seu livro sobre os Rockefeller. Quando se concentrava, ela tornava‑se inacessível, como se estivesse completamente estupefata, e durante toda a viagem só a vi levantar os olhos da página uma vez, para ver de relance umas crianças brincando num campo.

O trânsito era escasso nos dois sentidos. Os carros que vinham em nossa direção apareciam de repente, pequenos desenhos animados em cores, desengonçados, cambaleando, e Rupert, nosso motorista, tinha que manobrar depressa na chuva torrencial para 10 evitar colisões, contornar as valas profundas na pista, esquivar‑se da selva que invadia a estrada. Pelo visto, pressupunha‑se que to‑ das as manobras evasivas tinham de ser feitas pelo nosso veículo, o táxi.

A estrada ficou plana. De vez em quando surgia alguém no meio das árvores, olhando para nós. A fumaça descia do alto da serra. O carro subiu mais um trecho, curto, e então chegou ao aeroporto, uma série de prédios pequenos e uma pista de pouso. Parou de chover. Paguei Rupert e carregamos a bagagem para o terminal. Então o vimos lá fora com outros homens de camisa esporte, conversando na luminosidade subitamente ofuscante.

O terminal estava cheio de gente, malas e caixas. Jill ficou sentada em sua mala, lendo, com nossas sacolas e bagagens de mão à sua volta. Fui me acotovelando até chegar ao balcão e fiquei sabendo que estávamos na lista de espera, números cinco e seis. Isso fez com que uma expressão pensativa surgisse em meu rosto. Eu disse ao homem que havíamos feito a confirmação em São Vicente. Ele retrucou que era necessário reconfirmar setenta e duas horas antes do voo. Expliquei que tínhamos feito um passeio de barco; setenta e duas horas antes, estávamos no arquipélago de Tobago Cays — onde não há gente, nem prédios, nem telefones. Ele disse que a regra era reconfirmar. Mostrou‑me onze nomes num pedaço de papel. Uma prova material. Éramos os números cinco e seis.

sábado, setembro 16

Hora do café!

Amor por livros e café #book

O inferno é de gelo

Estava (estou) em plenos 81 anos, faceiro, indo para lá e para cá, fazendo shows, palestras, saracoteando e, às vezes, olhando com certa vaidade ou autossuficiência para pessoas mais novas do que eu mancando, com bengala ou muleta, sem coragem ou possibilidade de subir uma escada, ou presas à cama. Confesso, envergonhado, era certa onipotência. Pecado venial?

“Mas há na vida sempre um dia, dia do sonho se acabar, e este me veio e eu não via, aquele veleiro regressar.” Este é o trecho da canção História Triste de Praieira, de Stefania Macedo, de 1929, que minha mãe costumava cantar todos os dias na minha infância.

Sei que é um clássico do gênero. Dona Maria do Rosário me advertia: lembre-se, há na vida sempre um dia.

Pesquisa Google
Dito e feito, esse dia foi há umas quatro semanas. Ao subir uma escada, o degrau desapareceu. Meu corpo voou, entrei em pânico, sabia o perigo de uma queda. Vi o chão se aproximar. Uma queda é rapidíssima para quem olha, vagarosa para quem cai, uma eternidade. Vislumbrei cair de cabeça, sofrer um traumatismo craniano, ou quebrar o fêmur, passar por cirurgia, ficar meses na cama, enfaixado, engessado, perdendo todas as palestras que tenho pela frente, incluindo a de amanhã, às 16 horas na Flim, no Parque Vicentina Aranha, em São José dos Campos. Imaginei cair de cara, bater o nariz, quebrar a mandíbula, fazer plástica (talvez melhore esta cara brava), colocar pinos nos pés. Fantasiei costelas quebrando, perfurando o pulmão, eu sem respirar, necessitando de oxigênio pelo resto da vida.

Enfim, cheguei ao chão, bati o ombro esquerdo. Vocês não têm ideia da sensação de humilhação que é cair, todos nos olhando, alguns rindo, outros dizendo “coisa de velho”, inimigos querendo que morra. Querer levantar e não conseguir. Ser amparado por mãos generosas. Trazem um copo de água com açúcar, querem levar ao pronto-atendimento. Puxam uma cadeira. Bem, a queda foi menos traumática como resultado. Uns tendões se desligaram no ombro esquerdo. Mas descobri que a queda foi ocasionada por uma artrose no joelho direito. Horror! Artrose? Pancada no ego. Vexame, fraqueza, acanhamento. Quanta besteira, diria vovó Branca, mãe de meu pai.

Nesse meio tempo, tive de ir a Ribeirão Preto. Amparado por uma bengala, que acreditei me dar certa elegância, comecei a subir a escada de embarque em Congonhas. São aqueles voos que não saem do finger, vamos de ônibus até a pista. Subi degrau a degrau, cauteloso. Então, ouvi uma voz: “Ô, meu senhor! Se é para andar devagar, por que não fica por último, para não atrapalhar ninguém”? Um sujeito atrás de mim foi solidário. Parou, não deixou ninguém passar e me disse: “Suba tranquilo. As pessoas estão cada vez estúpidas”.

Escrevi a um amigo da adolescência, Sergio Fenerich, contando essas tolas atribulações. Ele foi rápido e direto: “Por que será que não gostamos de cair? (Ademais da queda propriamente dita e dos danos físicos que ela nos pode causar, é claro?) Não será porque cair é perder a nossa condição de animais verticais, e adquirir, em troca, um estado de horizontalidade, que, a bem dizer, é, primeiro, uma diminuição da nossa própria condição humana, de seres eretos, criados à imagem e semelhança de Deus, e, segundo, uma metáfora da mesma morte? Ao cair, segue-se, por mais ou menos tempo, o jazer (ou ficar deitado), palavra que nos evoca, queiramo-lo ou não, a ideia de ócio, inatividade, suspensão das atividades normais, e, mais dramaticamente, de cessação da própria vida material e baixa ao jazigo, do corpo defunto. Parodiando os versos célebres, cair, como partir, ou como dormir, não seria, igualmente, mourir un peu?”.

Passados alguns dias, no meu estúdio, a cadeira deslizou puxada pela mão da bruxa, caí, torci o pé, inchou, doeu terrivelmente. Pronto, calamidade, minha vida acabada, fazer o quê? Sou catastrófico, penso no pior. Então, recebi a nova revista da Gol com uma capa magnífica. Para mim a melhor de toda a história da publicação, pelo significado. A modelo Paula Antonini, que teve a perna esquerda amputada em um acidente, colocou uma prótese e é hoje, modelo internacional. E em um jornal li sobre a morte de Adriano Pereira, que teve o pé direito amputado, fraturou uma vértebra em desastre e chegou a campeão Panamericano de natação, teve dois bronzes em Atlanta.

E eu, cheio de autopiedade com dois tombos chatos, mas de certo modo insignificantes. Tive vergonha. Estou bem, a cabeça a toda, terminei novo romance, consigo me locomover ainda que lentamente. (Mula manca, diriam de mim na infância) Para que pressa? O que mais quero? Desviei o olhar do meu umbigo. Então me ocorreu uma coisa o condicionamento em que vivemos. Católico, cresci em um mundo de culpas e castigos. Culpas por tudo, penitências, pecados, punições, confissões, absolvições. Achava que tinha me liberado com o tempo. Mas – sei lá se pela idade, por ficarmos mais vulneráveis – ou pelo medo de que as coisas não sejam como a gente quer ou imagina, diante desses contínuos ir ao chão, lembrei da culpa. Estaria pagando malfeitos? Sendo punido pela vaidade? Estaria me achando? Alguém (quem?) então me apontou o dedo, dizendo: “Menos, Ignácio, menos. Você é frágil como todos”. Uma coisa descobri. Ao enfiar o pé em um balde de gelo, várias vezes ao dia, soube que o inferno não é de chamas, é de gelo. Eta dor!

O melhor meio de transporte

La lectura amplía la perspectiva de nuestro entorno, real o imaginario, a pequeños y adultos (ilustración de Dan Sipple)
Dan Sipple

Possuir

simena:
“ Alexandre François BONNARDEL
”
Alexandre François Bonnardel
O Manel costuma dizer que, lá em casa, eu sou a leitora e ele o bibliófilo – e talvez tenha razão. Não tenho espírito de coleccionadora e o que amo acima de tudo nos livros é o texto. Claro que não sou indiferente a uma bonita edição de determinado livro ou a uma colecção bem feita obedecendo a um tema ou estratégia. Mas do que gosto mesmo é de ler e não me importaria de alienar parte da minha biblioteca se tivesse, por exemplo, de mudar para uma casa mais pequena e soubesse que não voltaria a ler esses livros. Não sou também, regra geral, agarrada às coisas, que substituo sem grandes desgostos, ou sequer possessiva. Talvez por isso me custe entender porque há malucos que pagam fortunas para possuir uma peúga de John Lennon; talvez por isso me custe ver agora que os herdeiros do meu poeta favorito – o irlandês William Butler Yeats – vão leiloar centenas de cartas de amor (incluindo 130 manuscritas enviadas à primeira namorada), livros, quadros, móveis e objectos pessoais do escritor que venceu o Prémio Nobel da Literatura em 1923. A mim, que o venero, nunca me passaria pela cabeça possuir os seus originais (contentar-me-ia em lê-los), e menos ainda a poltrona onde terá posto o rabo. Mas a Sotheby’s vai de certezinha absoluta facturar – e muito, porque nem todos somos iguais e há quem goste simplesmente de possuir.

quinta-feira, setembro 14

Pensamento mágico

Annya Marttinen | floating books

O dicionário

L'art d'écrire, planche. II de l'Encyclopédie, ou dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, 1762-1772, par Diderot et d'Alembert
Lendo um romance surge uma palavra inesperada, que me leva ao dicionário e à surpresa: no dicionário, a frase que serve de exemplo para o verbete é exatamente a mesma que eu lia no romance.

Não sou um homem que acredita em coincidências. Sou um tolo de voz fraca, que por maldade põe mais fé nos livros lidos que na rotina de sua vida. Confesso não querer interpretar o que vivi descrito no parágrafo lá em cima. Alguém talvez sorria, enxergando na coincidência uma trama de feliz destino, ter encontrado entre as palavras a sorte de uma vocação essencial. Outro leitor talvez me considere uma espécie de fanático, um dos que certamente inventam a coincidência, tentando achar para sua crônica um assunto.

Que sinistro.

Porém, o dicionário continua lá, com suas centenas de milhares de verbetes, brilhando para o fascínio das eras. Não posso reprovar a surpresa que preencheu naquela hora minha percepção do dicionário. Posso contar a história à minha moda, usando o alfabeto como instrumento de informação e aprendizado. Enquanto isso, interpreto as coincidências, as metáforas.

Eu gosto muito de dicionários. Se tivesse disposição o bastante, eu leria dicionários inteiros. Considero simplesmente incrível o trabalho de elaborar dicionários. De um instante para o outro, uma palavra qualquer vira verbete e o verbete adquire um significado. Esse significado fica registrado para todo o sempre, gravado como atestado de talento da palavra para a memória.

Mas dicionários não deixam de ser também submetidos de vez em quando ao teste do tempo. Fico imaginando como seja: suspeito que venha uma banca de especialistas, experimenta dar uma lida, uma boa examinada, depois decreta: o pobre dicionário deve ser revisto, quando não reescrito por completo. É uma responsabilidade. Quem nunca precisou estudar o sentido dessa ou daquela palavra boba?

Corretor ortográfico não resolve. Não se pode dizer que o caso está na precisão de escrever, ainda que se espere dos corretores ortográficos que em dado momento passem a escrever corretamente. O caso está na precisão do saber. Ou seja, na curiosidade de conhecer o vocabulário. Sem essa curiosidade não existiriam os dicionários.

Parece uma pesquisa reles. Garanto que não é.

Gosto inclusive de brincar com a palavra do dia, função que existe em dicionários para celulares. Abre-se o aplicativo grátis e surge como sugestão a palavra do dia. O jogo consiste em usar essa palavra quantas vezes conseguirmos no espaço de curtas vinte e quatro horas. Joga-se em grupo ou individualmente.

Eu comecei um dia com a palavra “euforia”.

Marco Antonio Marti

quarta-feira, setembro 13

Leitura não tem idade

*

Andar para meditar


Já notei que num quartinho estreito as ideias da gente ficam pouco à vontade, e sempre gostei de caminhar de um lado para outro enquanto medito minhas novelas.
Mai Thu 

Na verdade, sempre me agradou mais meditar minhas novelas e fantasias, do que escrevê-las
Fiodor Dostoiévski, "Humilhados e ofendidos"

Devorador de livros

Comelibros, cuidado si os lo encontráis. Literalmente: devora los libros. Es el terror de los/as bibliotecarios/as (ilustración de Tom Jellett)
Tom Jellett

Assim começa o livro...

Estou morando na Villa Borghese. Não tem uma sujeirinha, uma cadeira fora de lugar. Estamos totalmente sós aqui e mortos.

Na noite passada, Bóris descobriu que estava com piolhos. Tive de raspar o sovaco dele e, mesmo assim, a coceira continuou. Como alguém pode ter piolhos num lugar tão bonito como esse? Mas não interessa. Não fossem os piolhos, Bóris e eu jamais nos conheceríamos tão intimamente.

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Bóris acaba de me fazer um resumo de suas ideias. É um profeta da meteorologia. Diz que o tempo vai continuar ruim. Vai haver mais calamidades, mais morte, mais desespero. Não há qualquer sinal de mudança em parte alguma. O câncer do tempo está nos corroendo. Nossos heróis se mataram, ou estão se matando. O herói, portanto, não é o Tempo, mas a Ausência de Tempo. Temos de acertar o passo, um passo ritmado, rumo à prisão da morte. Não há saída. O tempo não vai mudar.

É outono no meu segundo ano em Paris. Não tenho ideia do motivo por que me mandaram para cá.

Não tenho dinheiro, recursos nem esperança. Sou o homem mais feliz do mundo. Há um ano, há seis meses, achei que era artista. Não acho mais, eu sou. Tudo o que era literatura se soltou de mim. Não há mais livros a serem escritos, benza-o Deus.

E este aqui? Este não é um livro. É uma difamação, uma calúnia, uma falta de caráter. Não é um livro no sentido comum da palavra. Não, este é um longo insulto, uma cusparada na cara da Arte, um chute na bunda de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, do Amor, da Beleza, do que você quiser. Vou cantar para você, meio desafinado talvez, mas vou. Cantarei enquanto você grasna, dançarei em cima do seu cadáver sujo.

Para cantar, é preciso primeiro abrir a boca. Precisa também ter dois pulmões e conhecer um pouco de música. Não precisa acordeão ou violão. O importante é querer cantar. Portanto, essa é uma canção. Estou cantando.

terça-feira, setembro 12

Manhã de espera

Descoberta

daily outfit shoot for Amber Fillerup Clark of barefootblonde.com.  bookstore downtown Jessica Janae photogrpahy
Aos quinze anos, com o primeiro dinheiro ganho com trabalho meu, entrei altiva, porque tinha dinheiro, numa livraria, que me pareceu o mundo onde eu gostaria de morar. Folheei quase todos os livros dos balcões, lia algumas linhas e passava para outro. E, de repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! E contendo um estremecimento de profunda emoção, comprei-o. 
Clarice Lispector