segunda-feira, outubro 16

Conectado

Me aislo del mundo con la lectura para conectar con otros mundos (ilustración de Maria Espluga Solé)
Maria Espluga Solé

Um terror de livro

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Era uma vez uma história tão impressionante que quando alguém a lia o livro começava a transpirar pelas folhas. Se o leitor fosse muito bom o livro soltava mesmo algumas pequeninas gotas redondas de sangue
Ana Hatherly, A cidade das palavras

Limbro dos livros esquecidos

O brinquedo do pobre

Quero dar a ideia de uma distração inocente. Há poucas diversões que o sejam!

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Quando sair de manhã com a intenção de vagar pelas estradas, enche o bolso de pequeninas invenções baratas – como o polichinelo simples de uma corda só, os ferreiros que malham a bigorna, o cavaleiro e o cavalo de cauda em forma de apito – e pelos cabarés embaixo das árvores presta com elas homenagem às crianças pobres e desconhecidas que encontrar. Verás aumentarem desmesuradamente os seus olhos.

Primeiro, elas não ousarão tocar em nada, não acreditarão na sua felicidade. Depois, suas mãos agarrarão com vivacidade o presente e elas fugirão como os gatos que, tendo aprendido a desconfiar do homem, vão comer longe o bocado que ganharam.

Numa estrada, por trás das grades de um enorme jardim, no fundo do qual aparecia a brancura de um lindo castelo batido pelo sol, havia uma criança terna e bela, vestida com essas roupas do campo tão cheias de coqueteria.

O luxo, a indolência e o espetáculo habitual da riqueza tornam essas crianças tão bonitas que parecem feitas de outra massa que não a dos filhos da mediocridade ou da pobreza.

Ao lado dela, sobre a grama, um brinquedo esplêndido, tão viçoso quanto o dono, envernizado, dourado, vestido de púrpura, recoberto de plumas e vidrinhos. Mas a criança não ligava para seu brinquedo predileto, antes olhava isto:

Do outro lado da grade, na estrada, entre os cardos e urtigas, estava uma outra criança, suja, mirrada, fuliginosa, um desses párias de fedelhos em que o olho imparcial, se o desbastasse da repugnante pátina da miséria, como o olho do conhecedor adivinha uma pintura ideal por debaixo do verniz de sejeiro, descobriria a beleza.

Através dessas grades simbólicas entre dois mundos, a estrada e o castelo, a criança pobre mostrava à rica o seu brinquedo, que a segundo examinava avidamente, como um objeto raro e desconhecido. Ora, esse brinquedo agastado pelo sujinho, que o sacudia e balançava numa caixa gradeada era um rato vivo! Os pais, certamente por economia, haviam extraído o brinquedo da própria vida.

E as duas crianças riam fraternalmente uma para a outra, com dentes de brancura igual.

Charles Baudelaire

domingo, outubro 15

Solução para os domingos

Tarde de domingo y lectura (ilustración de Snezhana Soosh)
Snezhana Soosh

Margaret Atwood ganha Prêmio da Paz

Os cabelos prateados e o sorriso amistoso são o cartão de visita da escritora canadense Margaret Atwood que, no próximo mês, completa 78 anos. Mas, como são encaracoladas, as madeixas aumentam sua vantagem, revelando uma elegante senhora cheia de estilo, charme, energia e, principalmente, bom humor. Margaret ri de suas próprias piadas, o que as tornam ainda mais engraçadas. Foi o que tornou tão ruidosa a entrevista coletiva da qual participou na manhã de sábado, 14, na Feira do Livro de Frankfurt, que termina no domingo, 15.
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Ela veio à cidade para receber o Prêmio da Paz, conferido anualmente pela Associação de Livreiros Alemães. Desde que um de seus antigos livros, O Conto da Aia (Rocco), publicado em 1985, alcançou um novo e estrondoso vigor mundial ao inspirar a série de sucesso The Handmaid’s Tale, a escritora de olhos azuis voltou a ser uma celebridade. “Foi o primeiro produto em streaming a ganhar um Emmy”, comentou ela, em tom de orgulho, referindo-se ao prêmio americano tradicionalmente dedicado à TV.

Distópico, o romance tornou-se profético depois da eleição de Donald Trump, alçando Margaret a uma posição de profetisa. “O que o torna tão moderno é o retrato do totalitarismo americano”, comentou. De fato, O Conto da Aia é ambientado em uma república em um futuro próximo. Lá, não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes. Tampouco universidades. Extinguiu-se ainda a profissão de advogado porque ninguém tem direito a defesa – quem é considerado criminoso é fuzilado sumariamente e seu corpo é pendurado em praça pública, para que o apodrecimento escancarado sirva como exemplo e intimidação. Atos banais tornaram-se crimes, como cantar qualquer canção que contenha palavras proibidas pelo regime, como “liberdade”. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi chamada de Estados Unidos da América.

“Quando escrevi essa história, eu vivia em Berlim, nos anos 1980. O muro ainda dividia a cidade e nada indicava alguma mudança – mal sabíamos que, cinco anos depois, ele seria derrubado”, observou. “Hoje, vivemos uma era de mudanças e revoltas. Escreveu-se muito sobre tiranias, autores como Tim Snyder (autor de Tirania: Vinte Lições do Século XX para o Presente, lançado pela Companhia das Letras) também se tornaram proféticos.” Margaret referiu-se tanto à crise espanhola provocada pela tentativa de separação da Catalunha como dos constantes tropeços do governo Trump. Aliás, a fim de explicar o atual sucesso de O Conto da Aia, a autora se lembrou da tentativa do presidente americano e de alguns políticos em controlar os direitos femininos – no romance, as mulheres de Gilead não têm direitos e ainda são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado. À personagem Offred, por exemplo, coube a categoria de aia, ou seja, sua função resume-se à procriação, uma vez que uma catástrofe nuclear tornou estéril um grande número de pessoas.


“O Canadá se tornou o país onde os americanos buscam refúgio sempre que estão inquietos. É o que acontece com as mulheres hoje”, disse Margaret que, perguntada sobre o cristianismo, lembrou que as religiões de todo tipo tentam impor restrições às mulheres. “O propósito de todas as crenças é a ter sempre muitos seguidores, daí a importância do papel feminino na procriação. Somente os Shakers (seita religiosa fundada no século VIII, na Inglaterra, e famosa por seu comportamento frenético durante os cultos) não tentaram controlar os corpos das mulheres porque adotaram órfãos. Mas eles desapareceram rapidamente, devido à escassez de órfãos”, disse ela, ecoando mais um tema de seu romance.

Margaret foi irônica ao comentar sobre um assunto atual, mas não relacionado ao livro: as acusações de abuso sexual do produtor de Hollywood Harvey Weinstein. “Felizmente ele não tem nada a ver com nossa série”, suspirou. “Situações em que mulheres jovens são exploradas por homens poderosos são infelizmente comuns já faz anos. O que permite esse tipo de abuso são dinheiro, poder e advogados. Ao menos, já estamos vendo mudanças e homens poderosos foram desafiados pelas redes sociais, que permitem a todos se expressarem publicamente, o que dá uma grande ressonância ao seu discurso.”

A escritora pontuou que os acusados de hoje são homens cujo comportamento era considerado, para alguns, “progressivo”. “O fato de serem desmascarados e tirados de seu pedestal é um alerta aos que têm esse tipo de comportamento”, observa. “E isso nos faz pensar que o ser humano é variado e o tratamento que cada um recebe não deve ter nada em comum com a maneira como Weinstein tratou aquelas mulheres.”

Uma das pioneiras no uso das redes sociais – já se divertia com o Twitter em 2008 –, Margaret Atwood elogia a ferramenta como palanque aberto a todas as vozes, mas sabe de seus limites. “As redes sociais têm três aspectos: um positivo, um negativo e um estúpido, que não foi pensado por ninguém pensou. O anonimato do Twitter libera o discurso político, mas também permite comportamentos detestáveis. Quanto ao aspecto estúpido, os robôs que me enviam mensagens sexuais são parte disso.”

Ubiratan Brasil

sábado, outubro 14

Use marcador

um projeto do inglês Philip Bradley, que adaptou antigos pôsteres de guerra para a campanha Save Libraries

Uma casa para livros e gatos

O pedido chegou de um artista, poeta e professor e de uma poetisa e gestora de uma livraria. O casal de Brooklyn, em Nova Iorque, foi até ao atelier de arquitetura BFDO Architects explicar o sonho deles: que a casa onde moravam fosse transformada num espaço cheio de luz e com dois requisitos fundamentais — ser perfeita para receber livros e para acomodar os felinos lá de casa. Assim nasceu a House for Booklovers and Cats — um espaço que faz sonhar quaisquer amantes de gatos e livros.


A sala de estar ganhou uma nova vida, tornou-se um lugar amplo, limitado por prateleiras onde vivem livros e com locais de circulação a alguns metros do chão para os gatos. É que, além de quase todos os felinos adorarem aventurar-se em locais altos, os dois desta casa são tímidos e gostam de ter espaços onde possam ficar longe de visitas menos familiares. No topo das prateleiras, coladas ao tecto, há pequenas portas quase secretas por onde os animais podem passar para ir até aos quartos do segundo andar. A claraboia central leva luz à casa toda, decorada de forma minimal. Aqui, humanos e felinos podem ser felizes.
(Fonte: Público)

Começando o dia

Assim começa o livro...

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Todo mundo quer ser dono do fim do mundo.

Foi o que meu pai me disse, junto às janelas arredondadas de seu escritório em Nova York — gestão de recursos privados, dynasty trusts, mercados emergentes. Estávamos, coisa rara, compartilhando um momento no tempo, um momento contemplativo, tornado completo pelos óculos escuros clássicos de meu pai, que traziam a noite para dentro da sala. Eu examinava os quadros nas paredes, obras de diferentes graus de abstração, e comecei a me dar conta de que o silêncio prolongado que se seguiu a seu comentário não pertencia a ele nem a mim. Pensei na esposa dele, a segunda, a arqueóloga, cuja mente e corpo depauperado em breve haveriam de se dissipar, seguindo um roteiro previsível, no vazio.

Aquele momento me voltou à lembrança alguns meses depois, do outro lado do mundo. Cinto de segurança afivelado, eu estava no banco de trás de um carro blindado, um hatch com vidro fumê nas janelas laterais, cego dos dois lados. O motorista, separado do banco de trás por uma divisória, usava uma camisa de time de futebol e calças de moletom com um volume no quadril que indicava a presença de uma arma. Depois de uma hora de viagem por estradas esburacadas, ele parou o carro e disse algo para o dispositivo preso em sua lapela. Então girou a cabeça quarenta e cinco graus em direção ao banco do carona. Concluí que era hora de soltar o cinto de segurança e saltar.

Aquela viagem de carro era a última etapa de uma maratona intercontinental, e me afastei do veículo e fiquei parado por algum tempo, entorpecido pelo calor, carregando minha mala e sentindo meu corpo relaxar. Ouvi o motor dar a partida e me virei para o carro. Ele estava voltando para a pista de pouso particular, e era a única coisa a se mover ao longe, que em breve haveria de sumir na paisagem ou na penumbra crescente ou no horizonte puro e simples.

quinta-feira, outubro 12

Passeio para o Dia das Crianças

Visitar las librerías en familia es una excelente manera de fomentar la lectura desde casa (ilustración de Jana Glatt)
 Jana Glatt

Lembro do mundo quando você podia se machucar, mas valia a pena

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As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, e O Sol É para Todos, de Harper Lee, foram retirados dos programas escolares do Condado de Virginia por reclamações de uma mãe cujo filho adolescente ficou perturbado, pois os livros tinham “insultos raciais e palavras ofensivas”. Isso aconteceu nos Estados Unidos, mas, como é lá que tudo começa (do nacionalismo rude ao clareamento dental), para lá nós vamos. Por isso quero expor meu pecado, do qual não me arrependo: para lembrar a mim mesa, quando os adolescentes forem almas tão sensíveis que não consigam ler Platero e Eu sem ir ao psiquiatra, como era esse mundo quando você podia se machucar, mas valia a pena. Não me pesa, senhor, nem me arrependo de ter folheado, quando criança, livros que meus pais me pediram para não ler porque tinham cenas de sexo ou de violência, nem de ter lido as histórias bestiais de Horacio Quiroga, nas quais lindas menininhas eram degoladas por seus irmãos com deficiências mentais, nem do jato de entranhas de Santiago Nasar. Eu não sei o que de tudo isso me fez ser quem sou, alguém que era feliz mesmo quando achava que não era, que alguma vez leu, associada a Jack London, a frase “nenhum homem sobre mim” e fez dela seu escudo. Mas não me arrependo. Quando era pequena, li livros que me destruíram, como Os Filhos Terríveis, de Cocteau; que me deram pesadelos, como O País de Outubro, de Bradbury, ou que não entendi, como Morte em Veneza, de Thomas Mann. E não estive no inferno, mas sei como é porque li O Poço e o Pêndulo, de Poe. Quando este for um mundo cheio de adolescentes hipersensíveis que não podem comer um frango sem chorar, continuarei com minha presa entre os dentes, vivendo da maneira que os livros me ensinaram a viver. Gosto do meu mundo sujo, contraditório, imundo e baixo. Não o troco pelo lugar desinfetado que em breve será.

Para aproveitar o feriadão




Gennady Myznikov (1977) 

Anders Zorn (1860 -1920)

Carl Larsson  (1853-1919)

Assim começa o livro...

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Encontro -me esta noite numa hospedaria na cidade de Salisbury. O primeiro dia de viagem agora terminou, e, no fim das contas, devo dizer que estou bem satisfeito. A expedição começou hoje de manhã, quase uma hora mais tarde do que o planejado, apesar de eu ter terminado de fazer as malas e carregar o Ford com todas as coisas necessárias bem antes das oito da manhã. Pois como Mrs. Clements e as meninas também tiraram uma semana de folga, acho que estava muito consciente do fato de que, assim que eu partisse, Darlington Hall iria ficar vazia, quem sabe, pela primeira vez neste século — ou pela primeira vez desde que foi construída. Era uma sensação estranha e talvez por isso eu tenha demorado tanto para partir, vagando pela casa muitas vezes, certificando -me uma última vez de que estava tudo em ordem.

É difícil explicar os meus sentimentos quando finalmente parti. Durante os primeiros vinte e poucos minutos de viagem, não posso dizer que tenha sido tomado por nenhuma excitação ou expectativa. Isso se deve, sem dúvida, ao fato de que, embora eu rodasse para cada vez mais longe da casa, continuava a me ver em locais com os quais tinha ao menos uma passageira familiaridade. Ora, sempre achei que havia viajado muito pouco, tolhido como sou por minhas responsabilidades na casa, mas evidentemente, ao longo do tempo, a gente faz diversas excursões por uma ou outra razão profissional, e, ao que parecia, eu estava muito mais familiarizado com aquelas localidades vizinhas do que imaginava. Pois, como estava dizendo, ao rodar ao sol na direção da divisa de Berkshire, continuei me surpreendendo com quanto a paisagem me era familiar.

Mas então a paisagem acabou ficando irreconhecível, e entendi que havia ultrapassado todos os limites anteriores. Já ouvi pessoas descreverem o momento em que o barco abre as velas, o momento em que finalmente se perde a visão da terra. Imagino que a experiência de inquietação misturada com alegria que sempre acompanha a descrição desse momento seja muito semelhante ao que senti no Ford, quando a paisagem em torno ficou estranha para mim. Isso aconteceu logo depois que fiz uma curva e me encontrei em uma estrada que circundava a encosta de uma colina. Dava para sentir o íngreme precipício à minha esquerda, embora não pudesse vê -lo por causa das árvores e da densa folhagem que ladeava a estrada. Fui dominado pela sensação de que havia realmente deixado Darlington Hall para trás e devo confessar que senti um ligeiro sobressalto — sensação agravada pela desconfiança de que talvez não estivesse na estrada certa, e sim correndo na direção errada, para algum ermo. Foi só uma sensação momentânea, mas me fez reduzir a marcha. E, mesmo depois de ter me certificado de que estava no caminho certo, me vi compelido a parar o carro um momento para fazer um balanço, por assim dizer.

Resolvi descer e esticar um pouco as pernas, e quando fiz isso tive a sensação ainda mais forte de que estava empoleirado na encosta de uma colina. De um lado da estrada, moitas e pequenas árvores subiam íngremes, enquanto do outro conseguia agora entrever na folhagem os campos distantes.

quarta-feira, outubro 11

A escrita que nos toma

A dor do defunto e outros itens

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O defunto pergunta-se quando afinal vão enterrá-lo. Já lhe doem as costas e só espera que a tampa seja fechada, para poder virar-se e cochilar.

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Diz um escritor a outro: “Então ficamos assim. Se houver eternidade, nós nos encontramos lá. Se eu for primeiro, vai ser fácil você me achar. Eu estarei ao lado do Shakespeare.”

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Pelo sim, pelo não, continuarei imaginando que tenho alma. Pode ser útil, um dia.

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Um poeta há de estar preparado para interpretar ao menos o que lhe dizem as flores, a brisa e os pássaros.

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Se for escrever uma crônica, nunca cite um gato no início, a menos que esteja disposto a falar dele até a derradeira linha do último parágrafo. Um gato nunca pode ser senão o protagonista.

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O poeta é um tipo ao qual as pessoas devem se acostumar aos poucos.

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Se Deus se negar, não faltará diabo para nos carregar.

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No varal sem sol, o fantasma assusta-se com a cara de um lençol.

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O poeta está liberado para amar tantas vezes quantas suportar seu tolo coração.

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Alguns defuntos (quanta hipocrisia!) fingem que são sérios até no seu último dia.

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Era um poema concretista espetacular, com excelente vista, de frente para o mar.

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No fim da vida, quando dizem palavras como amor, os lábios formam o mesmo desenho que neles se vê quando dizem morte ou pedra.

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Nada vezes nada é tudo que você hoje pode multiplicar.

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Interessa-me a tristeza, desde a infância. Na alegria vejo sempre algo de grosseiro, de vulgar, algo que não diz respeito à minha índole, uma sanfona soando no meio de um noturno de Chopin.

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Se você for um frango com intenções artísticas, vá aconselhar-se com um poeta condoreiro.

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Estou muito velho e muito burro para procurar essas pessoas que ensinam outras a escrever.

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Aos gramáticos mais ferozes sempre resta a desculpa de que tiveram uma infância infeliz.

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Inquietação um palmo abaixo do umbigo ou é comichão ou sinal de perigo.

Raul Drewnick

terça-feira, outubro 10

Entrando na história

De fala mansa, cuidado

Sempre me dizia, baseado numa exaustiva experiência de vida: "Cuidado com os indivíduos de fala mansa e, mais que tudo, de olhar enviesado" E hoje verifico, juntando à dele a minha própria experiência, que há, como aqueles indivíduos, também os livros de fala mansa e de olhar enviesado, com os quais é preciso ter a máxima cautela, se não quisermos passar por uma decepção.
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Livros manhosos, que, parecendo tímidos, na estante, o que escondem, debaixo dessa timidez toda, é uma tremenda falsidade - a pior das falsidades, que é a falsidade literária 
Valdemar Cavalcanti, "Jornal literário"

Nunca vai aprender

"How to Be Better Than the Book" book

Por que procurar refúgio nos livros quando a realidade parece insuportável?

Foi abandonado, o mundo já não é maravilhoso. Como em um jet lag permanente, não consegue se conectar com a realidade que o envolve. Freud dizia que as palavras e a magia foram no princípio a mesma coisa. É por isso que continuamos procurando refúgio nos livros quando a vida nos prega uma brincadeira estúpida? Você, passageiro em momentos ruins, abre um romance e em suas páginas encontra algo parecido a um bote salva-vidas, um alívio balsâmico ao desassossego.


Os leitores vorazes sabem bem que as bibliotecas e as livrarias são uma panaceia eficaz à alma, como já se afirmava na Antiguidade. A ficção e a poesia, afirma a romancista Jeanette Winterson, são remédios que curam a ruptura que a realidade provoca em nossa imaginação. Como diz a máxima horaciana dulce et utile, nos ensinam prazerosamente. O eco das palavras, seu ritmo, e as imagens com uma grande carga emocional inundam e ativam os recônditos de nossa consciência. Quando lemos um texto literário inteligente e sedutor, o mundo se torna mais habitável.

Entre os benefícios de se ler ficção, o primeiro, por mais óbvio que pareça, é chegar a nos conhecer melhor. Proust, a quem hoje poucos negarão sua aptidão à ciência cognitiva, afirmava que cada leitor, quando lê, é o próprio leitor de si mesmo. Acrescentava que a obra do escritor não é mais do que uma espécie de instrumento ótico que este oferece ao outro para permitir-lhe discernir o que, sem esse livro, não seria capaz de ver por si mesmo. Entrar no universo dos romances é viver múltiplas vidas. Com um livro nas mãos se abre diante de nós um terreno para a experimentação de inúmeras circunstâncias. A biblioterapia é possível graças ao choque de identificação que se produz no leitor quando se vê refletido na história. Sentimos empatia por outras pessoas, outras formas de pensar. A leitura, além disso, é uma aventura intelectual trepidante. Para o Nobel de Literatura André Gide, ler um escritor não é só ter uma ideia do que ele diz, mas viajar com ele.

Quando lemos um texto literário inteligente e sedutor, o mundo se torna mais habitável


Ler nos coloca em um espaço intermediário: ao mesmo tempo em que deixamos em suspenso nosso eu, nos conecta com nossa essência mais íntima, um bem valioso para se manter certo equilíbrio nesses tempos de distração. A leitura, dizia María Zambrano, nos brinda com um silêncio que é um antídoto ao barulho que nos rodeia. Ela nos procura um estado prazeroso semelhante ao da meditação e nos traz os mesmos benefícios que o relaxamento profundo. Ao abrir um livro conquistamos novas perspectivas, pois a ficção divide com a vida sua essência ambígua e multifacetada. Uma vez que só podemos ler um número limitado de títulos, o que procuramos? Obras que reafirmem nossas crenças, ou façam com que essas balancem? Para Kafka era muito claro, só deveríamos nos adentrar nas obras que incomodam: “Um livro precisa ser um machado que abre um buraco no mar gelado de nosso interior”.

Resenhas de biblioterapia

Remédios literários, de Ella Berthoud e Susan Elderkin. Um original e divertido livro sobre biblioterapia que fala do poder curativo da palavra escrita.

A leitura como plegária, de Joan-Carles Mèlich (sem edição no Brasil). Uma reflexão sobre a leitura e a escrita em 262 fragmentos filosóficos.

Por que ler os clássicos, de Italo Calvino. O escritor nos lembra que os clássicos nunca deixam de surpreender e resistir ao tempo.

Poema, de Rafael Argullol (inédito no Brasil). Um breviário contemporâneo erudito e sensível de reflexões sobre a condição humana e o discorrer do mundo.

Intérprete de males, de Jhumpa Lahiri. A escritora indaga sobre as barreiras que personagens de diferentes culturas devem saltar em sua busca da felicidade.

A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói. Um luminoso romance que na realidade é um poema capaz de nos reconciliar com nossa condição mortal.

Pequeno fracasso, de Gary Shteyngart. Depois de se mudar com sua família a Nova York, o garoto judeu russo Igor se transforma em Gary, um personagem que narra a experiência de viver dividido entre dois países que são inimigos.

Doce Canção, de Leila Slimani. Disseca as circunstâncias de um crime e lança luz sobre as contradições da sociedade atual.