terça-feira, junho 27

Poderosa maravilha

partyinvalhalla:
“Actual Depiction of the DC Cinematic Universe RN
”

Sentido para a vida

red-lipstick:
“Mark Ryden (b. 1963, Medford, OR, USA) - The Reader Drawing
”Valeu-me a pena viver? Fui feliz, fui feliz no meu canto, longe da papelada ignóbil. Muitas vezes desejei, confesso-o, a agitação dos traficantes e os seus automóveis, dos políticos e a sua balbúrdia - mas logo me refugiava no meu buraco a sonhar. Agora vou morrer - e eles vão morrer. 

A diferença é que eles levam um caixão mais rico, mas eu talvez me aproxime mais de Deus. O que invejei - o que invejo profundamente são os que podem ainda trabalhar por muitos anos; são os que começam agora uma longa obra e têm diante de si muito tempo para a concluir. Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros. Não é o gozo que eu invejo (não dou um passo para o gozo) - é o pedreiro que passa por aqui logo de manhã com o pico às costas, assobiando baixinho, e já absorto no trabalho da pedra. 

Se vale a pena viver a vida esplêndida - esta fantasmagoria de cores, de grotesco, esta mescla de estrelas e de sonho? ... Só a luz! só a luz vale a vida! A luz interior ou a luz exterior. Doente ou com saúde, triste ou alegre, procuro a luz com avidez. A luz é para mim a felicidade. Vivo de luz. Impregno-me, olho-a com êxtase. Valho o que ela vale. Sinto-me caído quando o dia amanhece baço e turvo. Sonho com ela e de manhã é a luz o meu primeiro pensamento. Qualquer fio me prende, qualquer reflexo me encanta. E agora mais doente, mais perto do túmulo, busco-a com ânsia. 
Raul Brandão (1867-1930), " Se tivesse de recomeçar a vida "

domingo, junho 25

Vazio noturno

Libros a la fresca (ilustración de Saeed Sadeghi)
Saeed Sadeghi

Cultura deve ser descoberta individual

bibliolectors:
“Cualquier sitio es bueno para leer (ilustración de Karin Jurick)
”
Karin Jurick
Não se deve intervir, não nos devemos meter nos problemas que cada um tem com a leitura. Não devemos sofrer por causa das crianças que não leem, perder a paciência. Trata-se da descoberta do continente da leitura. Ninguém deve encorajar nem incitar outra pessoa a ir ver como ele é. Já existe excessiva informação no mundo acerca da cultura. Devemos partir sós para esse continente. Descobri-lo sozinhos. Operarmos sozinhos esse nascimento. 

Por exemplo, em relação a Baudelaire, devemos ser os primeiros a descobrir o seu esplendor. E somos os primeiros. E, se não formos os primeiros, nunca seremos leitores de Baudelaire. Todas as obras-primas do mundo deveriam ser encontradas pelas crianças nos despejos públicos, e lidas às escondidas dos pais e dos mestres.

Por vezes, o fato de se ver alguém a ler um livro no metrô, com grande atenção, pode provocar a compra desse livro. Mas não quanto aos romances populares. Aí, ninguém se engana quanto à natureza do livro. Os dois gêneros nunca estão juntos nas mesmas mãos. Os romances populares são impressos em milhões de exemplares. Com a mesma grelha aplicada, em princípio, há uns cinquenta anos, os romances populares desempenham a sua função de identificação sentimental ou erótica. Depois de os terem lido, as pessoas abandonam-nos nos bancos públicos, no metrô, e serão apanhados por outras pessoas e novamente lidos. Isso será ler? Sim, penso que sim, é ler como se toma um remédio, mas é ler, é ir buscar a leitura ao exterior de si próprio e ingeri-la e fazê-la sua e dormir e cair no sono para, no dia seguinte, ir trabalhar, juntar-se a milhões de outras pessoas, a solidão matricular, o esmagamento.

Marguerite Duras, "Mundo Exterior "

sábado, junho 24

Solidariedade

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Eros de revisão

Foi de propósito. Digitei “eros”, mesmo, mas é bastante provável que você, na pressa ou na distração, tenha entendido “erros de revisão”. Acertadamente. São desprezíveis as falhas tipográficas que os próprios leitores podem corrigir, fazendo uso da lógica ou induzidos por locuções consagradas, como, por exemplo, “erro de revisão”. A bem dizer, todo erro de revisão é, antes de tudo, um erro de digitação - ou de datilografia, como antigamente se dizia e cometia - que o revisor encarregado de reconhecê-lo e eliminá-lo deixou passar.

Os gringos têm um vocábulo enxuto e consanguíneo para identificar lapsos tipográficos: typos. Os franceses empregam “coquille” (literalmente, concha) e nós, gralha, gato e pastel. Até por ser o mais antigo, gralha afinal venceu a concorrência.

No mais recente Bloomsday, semana passada, ao reavivar na memória um episódio ocorrido com James Joyce, ocorreu-me inventar um calemburgo que só tem graça em inglês: “This is not a typo, but a word in progress”. (Literalmente: “Isto não é um erro tipográfico, mas um neologismo em andamento”.) Pois, acredite, há gralhas que vêm para o bem. Como prova o aludido episódio envolvendo Joyce.

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Estava o escritor irlandês a ditar Finnegans Wake ao conterrâneo Samuel Beckett, que então o secretariava, quando alguém bateu à porta e Joyce ordenou “come in” (entre). Concentrado em seu afazer, Beckett incluiu o “come in”, automaticamente, no texto que anotava. Embora não fizesse, nele, o menor sentido, Joyce tanto apreciou o erro que o manteve na edição final de sua “obra em andamento”.

Mas quase sempre a gralha é um transtorno, uma calamidade. “É o único erro humano que, a meu ver, merece pena de morte”, prescrevia Otto Lara Resende, desavindo com revisores desatentos desde que na edição portuguesa de O Retrato na Gaveta flagrara um “ânus” onde originalmente sobrevoava um anu, o pássaro, pouco importa se cuculiforme.

Segundo Eduardo Frieiro, que há 76 anos coletou uma série de gralhas históricas, não existe livro que não tenha sido vitimado por vacilos de tipógrafos e revisores. Claro que existem, mas são cada vez mais raros. Em outros tempos, com outro espírito, outra economia e mais leitores, as editoras investiam forte na contratação de editores, supervisores de textos e técnicos em checagem. Para abater custos e queimar etapas na produção de um livro, vários desses intermediários entre o, por assim dizer, manuscrito e o texto final foram sendo eliminados e precariamente substituídos por corretores automáticos e similares prodígios da era digital, exímios na troca de um erro por outros.

O computador ajudou menos do que se pensa. “O uso do processador de texto resultou num declínio substancial na disciplina e atenção do autor”, constatou o editor chefe da Little, Brown and Company, Geoff Shandler. “Os manuscritos ficaram mais longos e mais desleixados, apesar de bem impressos.” Ou seja, os autores não são apenas vítimas daqueles a quem Otto Lara ameaçava com a pena capital. F. Scott Fitzgerald cometia erros primários de ortografia em seus originais. Nesse e em outros exemplos de grandes escritores, tais tropeços são irrelevantes porque corrigíveis. Escrever bem e escrever corretamente são departamentos distintos.

Nem as Sagradas Escrituras, cuidadas com devoto desvelo por escribas e tipógrafos, escaparam da maldição. Pelo menos cinco de suas versões, impressas entre meados do século 16 e começo do século 19, chegaram às mãos dos fiéis com intrusos cochilos, alguns constrangedores, como a ausência de um não no Sétimo Mandamento (liberando a roubalheira) e a falta de outro naquela epístola aos coríntios que veda aos perversos a entrada no Reino dos Céus.

Segundo consta, a primeira grande vítima de uma gralha, entre nós, foi o poeta Cláudio Manuel da Costa, cuja obra introdutória do Arcadismo no Brasil saiu, em 1768, com um vistoso typo (“Orbas” em vez de “Obras”) na folha de rosto: Estampada na capa, chamaria ainda mais atenção, como aconteceu com a tradução dos Quatro Quartetos, de T. S. Eliot, editada pela Artenova, nos anos 1960, com um ele a mais no sobrenome do poeta.

Em alguns exemplares do primeiro romance da série Harry Potter, J.K. Rowling virou J.A. Rowling, e foram prontamente recolhidos pela editora. Não eram tantos quanto os 80.000 exemplares do romance Liberdade, de Jonathan Franzen, que chegaram a ser impressos a partir de uma versão sem as alterações e correções do autor, e postos à venda em livrarias. Franzen descobriu a mancada enquanto lia um trecho do livro, durante um programa de entrevistas na TV britânica. Imagine a cena. Imagine o choque do autor. Imagine o prejuízo da editora.

Sorte teve a editora Garnier, cuja negligência no controle de qualidade da segunda edição das Poesias Completas de Machado de Assis, em 1902, beneficiou-se de uma brigada de corretores amigos do autor, que a nanquim emendaram, em mutirão, cada “cagara” que usurpara o pretérito mais-que-perfeito do verbo cegar numa estrofe do poema Advertência. Por outra versão da mesma história, Machado teria corrigido tudo sozinho. É possível. As tiragens de livros de poesia já eram bem módicas naquela época.

Dia desses repassei os olhos numa rara e autografada primeira edição de Angústia, de Graciliano Ramos, que herdei de Lúcio Rangel, amicíssimo do Velho Graça. Publicado em 1936 pela José Olympio, com o escritor encarcerado pelo Estado Novo e outra ortografia em vigor no País, tamanha era a quantidade de gralhas no texto que Graciliano, depois de posto em liberdade, pegou de volta o exemplar presenteado a Lúcio, entulhou suas margens de correções a caneta e, com nova dedicatória, devolveu-o ao amigo.

Não sei quanto vale tal preciosidade no mercado bibliográfico. Um dos exemplares das poesias de Machado corrigidas a nanquim estava sendo oferecido, pouco tempo atrás, por R$ 900 na Estante Virtual. Café-pequeno se comparado aos livros coalhados de typos disputados em leilões lá fora. Em 15 de junho, a citada primeira edição de Harry Potter e a Pedra Filosofal, com o nome da autora grafado errado, foi arrematada por £ 10.000. Ano passado, um exemplar do mesmo livro com a palavra “philosopher” sem uma das letras na contracapa foi comprado por um empresário londrino por £ 43.750.

sexta-feira, junho 23

Dica de passeio numa sexta-feira

 Librairie Ancienne, Galerie Vivienne, Paris

Amor no papel químico

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Quando comecei a trabalhar na edição, ainda ninguém tinha computadores pessoais – e só dois ou três anos mais tarde tive direito a uma máquina de escrever eléctrica. No início, a máquina era dessas pesadonas que faziam trrriiim quando chegávamos ao fim da linha; e eu tinha de pôr no rolo duas folhas separadas por outra de papel químico para ficar com uma cópia de tudo o que enviava. Parece mentira, não é?… Bem, mas uma folha de papel químico de um tempo passado, se encontrada na modernidade, pode conter verdadeiros tesouros. Os investigadores da obra da poetisa Sylvia Plath que o digam, pois descobriram, escondida dentro de um dos caderninhos da senhora, uma folha de papel químico dobrada que tinha a marca de dois poemas até então desconhecidos, escritos, pelos vistos, no início do relacionamento da escritora com o também poeta Ted Hughes, provavelmente no regresso da lua-de-mel. Durante cinquenta anos, ninguém tinha posto os olhos em tais textos nem sabido da sua existência, mas o carbono guardou memória das palavras e agora foi possível aos académicos ter novos elementos sobre a forma como Plath e Hughes interagiam e trabalhavam (o mesmo papel químico tinha um índice de um livro de Hughes dactilografado por Plath, julga-se). Com a tecnologia, acabaram-se estas preciosidades inesperadas. De que se farão as surpresas no futuro?

Esteira de leitor

C'est toujours le bon moment pour lire.....

A voz do mar

O Artur sentiu sobre a orelha uma coisa muito fria, com um som...
- O que é, mãe?
- Não ouves?
Resultado de imagem para book on beachSim, ouvia. Era um som pesado lá ao longe e que depois vinha, vinha e subia, e que depois se tornava mais brandinho, para logo voltar a vir de longe. Parecia música, mas não era bem música. E talvez fosse. Bom, não seria bem música.
- O que é, mãe? - voltou a perguntar. - Que barulho é este?
- É o mar... É a voz do mar...
- A voz do mar?!
- O mar fica longe, mas a voz meteu-se aí dentro. Isto é um búzio.
- E onde nascem os búzios?
- No mar.
-Então é por isso que se ouve...
- Pois é. As ondas fazem um barulho assim quando se ouvem ao longe. E a gente está longe. Não ouves a voz que lá vem?
- Oiço.
- E depois quebra-se assim como as ondas na areia.
- Então isto é o mar? O mar é o oceano. No mapa chamam-lhe oceano. Parece que há vários... . Eu já ouvi aos que andam no quarto ano: é o Oceano Atlântico, o Oceano Índico...
- Não achas que mar é mais bonito?
- Pois é, mar é muito mais bonito.
De repente, fechou os olhos e juntou as duas mãos sobre o búzio, apertando-o contra o ouvido.
- Agora deve ser um navio que lá vem. É mesmo, é, é um navio...
A mãe aproximou o ouvido, desviando o lenço.
- Não ouves?
Não, a mãe não ouvia. Mas o importante para ele era ter o mar apertado entre as mãos. Lá vinha uma onda... e outra.
Alves Redol

quarta-feira, junho 21

Estante fantástica

Evandro Schiavone

Bons dias!

Vi não me lembra onde...

É meu costume; quando não tenho que fazer em casa, ir por esse mundo de Cristo, se assim se pode chamar à cidade de São Sebastião, matar o tempo.

Não conheço melhor ofício, mormente se a gente se mete por bairros excêntricos; um homem, uma tabuleta, qualquer coisa basta a entreter o espírito, e a gente volta para casa "lesta e aguda", como se dizia em não sei que comédia antiga.

Naturalmente, cansadas as pernas, meto-me no primeiro Bond, que pode trazer-me à casa ou à Rua do Ouvidor, que é onde todos moramos. Se o Bond é dos que têm de ir por vias estreitas e atravancadas, torna-se um verdadeiro obséquio do céu. De quando em quando, para diante de uma carroça que despeja ou recolhe fardos. O cocheiro trava o carro, ata as rédeas, desce e acende um cigarro: o condutor desce também e vai dar uma vista de olhos ao obstáculo. Eu, e todos os veneráveis camelos da Arábia, vulgo passageiros, se estamos dizendo alguma coisa, calamo-nos para ruminar e esperar.


Centro do Rio em 1879
Ninguém sabe o que sou quando rumino. Posso dizer, sem medo de errar, que rumino muito melhor do que falo. A palestra é uma espécie de peneira, por onde a idéia sai com dificuldade, creio que mais fina, mas muito menos sincera. Ruminando, a idéia fica integra e livre. Sou mais profundo ruminando; e mais elevado também.


Ainda anteontem, aproveitando uma meia hora de Bond parado, lembrou-me não sei como o incêndio do club dos Tenentes do Diabo. Ruminei os episódios todos, entre eles os atos de generosidade tia parte das sociedades congêneres; e fiquei triste de não estar naquela primeira juventude, em que a alma se mostra capaz de sacrifícios e de bravura. Todas essas dedicações dão prova de uma solidariedade rara, grata ao coração.

Dois episódios, porém, me deram a medida do que valho, quando rumino. Toda a gente os leu separadamente; o leitor e eu fomos os únicos que os comparamos. Refiro-me, primeiramente, à ação daqueles sócios de outro club, que correram à casa que ardia, e, acudindo-lhes à lembrança os estandartes, bradaram que era preciso salvá-los. "Salvemos os estandartes!", e tê-lo-iam feito, a troco da vida de alguns, se não fossem impedidos a tempo. Era loucura, mas loucura sublime. Os estandartes são para eles o símbolo da associação, representam a honra comum, as glórias comuns, o espírito que os liga e perpetua.

Esse foi o primeiro episódio. Ao pé dele temos o do empregado que dormia, na sala. Acordou este, cercado de fumo, que o ia sufocando e matando. Ergueu-se, compreendeu tudo, estava perdido, era preciso fugir. Pegou em si e no livro da escrituração e correu pela escada abaixo. Comparai esses dois atos, a salvação dos estandartes e a salvação do livro, e tereis uma imagem completa do homem. Vós mesmos que me ledes sois outros tantos exemplos de conclusão. Uns dirão que o empregado, salvando o livro, salvou o sólido; o resto é obra de sirgueiro. Outros replicarão que a contabilidade pode ser reconstituída, mas que o estandarte, símbolo da associação, é também a sua alma; velho e chamuscado, valeria muito mais que o que possa sair agora' novo, de uma loja. Compará-lo-ão à bandeira de uma nação, que os soldados perdem no combate, ou trazem esfarrapada e gloriosa.

E todos vós tereis razão; sois as duas metades do homem formais o homem todo... Entretanto, isso que aí fica dito está longe da sublimidade com que o ruminei. Oh! Se todos ficássemos calados! Que imensidade de belas e grandes idéias! Que saraus excelentes! Que sessões de Câmara! Que magníficas viagens de bond!

Mas por onde é que eu tinha principiado? Ah! Uma coisa que vi, sem saber onde... Não me lembro se foi andando de bond; creio que não. Fosse onde fosse, no centro da cidade ou fora dela. Vi, à porta de algumas casas, esqueletos de gente postos em atitudes joviais. Sabem que o meu único defeito é ser piegas; venero os esqueletos, já porque o são, já porque o não sou. Não sei se me explico.

Tiro o chapéu às caveiras; gosto da respeitosa liberdade com que Hamlet fala à do bobo Yorick. Esqueletos de mostrador, fazendo guifonas, sejam eles de verdade ou não, é coisa que me aflige. Há tanta coisa gaiata por esse mundo, que não vale a pena ir ao outro arrancar de lá os que dormem. Não desconheço que esta minha pieguice ia melhor em verso, com toada de recitativo ao piano: Mas é que eu não faço versos; isto não é verso: Venha o esqueleto, mais tristonho e grave Bem como a ave, que fugiu do além...

Sim, ponhamos o esqueleto nos mostradores, mas sério, tão sério como se fosse o próprio esqueleto do nosso avô, por exemplo... Obrigá-lo a uma polca, habanera, lundu ou cracoviana... Cracoviana? Sim, leitora amiga, é uma dança muito antiga, que o nosso amigo João, cá de casa, executa maravilhosamente, no intervalo dos seus trabalhos. Quando acaba, diz-nos sempre, parodiando um trecho de Shakespeare:

"Há entre a vossa e a minha idade, muitas mais coisas do que sonha a vossa vã filosofia."

Boas noites.

Machado de Assis (21 de janeiro de 1889), nos 178 anos de nascimento do escritor

terça-feira, junho 20

jasmyne:
“📚
”

Sem leitura não se vive

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Sou um rato de livraria. Vivo indo em livrarias, sebos e, volta e meia, encontro maravilhas. Prefiro passar fome, mas não deixar de comprar livros. Sou um rato de livraria. Vivo indo em livrarias, sebos e, volta e meia, encontro maravilhas. Prefiro passar fome, mas não deixar de comprar livros

Sob o manto do lençol

Somos todos normais

terminusantequem:
“Basil Blackshaw (Irish, 1932-2016) - Girl Reading
”
Basil Blackshaw
Na semana passada, cansada de ficar no computador, fui à cozinha fazer um lanche. Enquanto coava um café, o interfone tocou: o porteiro avisou que estava mandando a correspondência pelo elevador. Fui até a sala, esperei o elevador, conferi as contas, abri os pacotes de dois livros, voltei para a cozinha, lavei a xícara — e passei a hora seguinte na maior aflição, revirando a casa em busca dos únicos óculos que tenho para a distância do computador. Procurei na mesinha de cabeceira, no banheiro, ao lado da cafeteira, no escritório, na sala. Nada. Finalmente, em desespero de causa, abri a geladeira. Pois lá estavam eles, no exato lugar em que eu os havia deixado quando precisei conferir a data de validade dos queijos, para saber qual abriria primeiro. O pior é que me lembro nitidamente de ter pensado: Esse não é um bom lugar, vou acabar me esquecendo.

Contei o que aconteceu no Facebook. E aí descobri a única vantagem de esquecer os óculos na geladeira: passei a tarde me divertindo com uma história mais engraçada do que a outra. Algumas amigas — sim, no plural — saíram de casa carregando o saco de lixo em vez da bolsa. Uma só percebeu o engano no ônibus, quando um passageiro gentil, que estava sentado, se ofereceu para segurar o pacote. Outra tomou banho correndo, saiu de casa e estranhou muito os olhares que lhe eram dirigidos, até que uma senhora perguntou por que ela estava com aquela toalha enrolada na cabeça. Minha queridíssima Maria Eugênia foi comprar um maiô e, na cabine de provas, tirou os óculos para tirar a blusa. Mais tarde, já na rua, lembrou-se disso e voltou à loja, perguntando se havia esquecido os óculos por lá.

— Um terceiro?! — espantou-se a vendedora. Ela estava com um no rosto e outro no alto da cabeça.

Marcia Couto estava em Roma: “Fui jogar uma moedinha na Fontana di Trevi para fazer um pedido e, na hora, apertei o nariz para mergulhar, em vez de jogar a moedinha. Não tenho noção do que me passou pela cabeça naquela hora”.

“Sei como é isso”, respondeu a Luciana Veiga Jardim. “Me benzi quando passava em frente ao mercadão um dia desses. Nunca mais fiquei livre do bullying da minha filha.”

“Eu estava atrasadíssima colocando roupa na máquina e falando no sem fio”, contou Liana Almeida. “Desliguei, joguei dentro da máquina e saí. Quando voltei, fiquei louca procurando o telefone pela casa, até tirar a roupa da máquina. Lá estava ele, mudo para sempre.”

Valéria Burle falava com a filha no celular, enquanto rodava angustiada pela casa, procurando algo que não encontrava. Quando desligou, a cunhada perguntou o que tanto ela procurava. “Meu celular! Não sei onde enfiei.”

A primeira coisa que vem à cabeça de Cida Penna quando perde os óculos é: “Cadê o celular para ligar para os óculos?”. Mariana Sgarbi já levou o sem fio numa viagem internacional, mas nem dá para contar quantos deles não saíram de casa disfarçados de celulares. Isso para não falar em quem fica apertando as suas teclas em frente à televisão e se revolta porque não está conseguindo mudar de canal: o que há de errado com o controle remoto?

Mas nada supera o épico do Idelber Avelar, que jura sobre o manto alvinegro que a história não é inventada:

“É bem difícil a vida de alguém que começa a usar óculos aos 44 anos de idade. Ontem, depois de terminar os relatórios, cartas de recomendação, e-mails, formulários e toda essa parafernália demoníaca que acompanha a vida de professor universitário, resolvo que é hora de começar a ler outro romance. Nesse meio-tempo, perco os óculos.

Começo a procurá-los. Biblioteca, sala, cozinha, nada. Bem frustrado, acendo um cigarro para continuar a busca e me lembro de que os óculos podem estar na mesa da cabeceira da cama. Como não fumamos no dormitório, deixo o cigarro do lado de fora para entrar no quarto e procurar os óculos. Não os encontro. Quando volto, me dou conta de que já não sei onde deixei o cigarro. Passo então, evidentemente, à busca mais urgente, que é o cigarro que está queimando em algum lugar. Lembro que não o havia deixado num cinzeiro, mas na extremidade de uma mesa, balcão ou algo assim. Como a casa tem alguns papéis no chão, vem-me o pânico de que o cigarro caia, encontre algum papel e a casa se incendeie.

Correndo de um lado para outro na sala, copa, cozinha e biblioteca, não encontro o cigarro, mas vejo os óculos no balcão do café. Como são óculos de leitura somente, mantenho-os na mão direita e continuo a busca pelo cigarro. Passando pela copa, vejo o cigarro já caído no chão. Deixo os óculos na primeira superfície que vejo e vou atrás do cigarro. Recupero o cigarro, sento-me, aliviado, dou um trago e me levanto para recuperar os óculos que… já não sei onde estão. Começo então a segunda busca dos óculos.

Extremamente frustrado, decido que preciso de uma Guinness para procurar os óculos dessa vez. Abro a cerveja, sirvo-a num copo (jamais beba uma Guinness no estilo EUA, na garrafa!) e volto a procurar os óculos. Vejo-os de longe, na sala, deixo o copo com a cerveja em algum lugar, recupero os óculos e momentaneamente perco a Guinness, recuperada depois de uns instantes.

Ao fim de toda odisseia, eu não me lembrava mais de qual era o romance que ia começar a ler. Encontro-me ainda nesse estágio, tentando me lembrar de qual era ele, neste momento em que escrevo”.

Cora Rónai

domingo, junho 18

Leitura domingueira

simena:
“FREDERIC BAZILLE - THÉRÈSE LISANT DANS LE PARC DE MÉRIC
”
Frederic Bazille

Ler Fernando Namora

Governo recolhe 98 mil exemplares de livros infantil considerado 'impróprio'

O ministro da Educação, Mendonça Filho, ordenou no último dia 8 que o livro de contos infantis Enquanto o Sono Não Vem, do escritor e ator teatral José Mauro Brant, fosse recolhido de todas as escolas do Brasil, apesar de ter sido aprovado pelo Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) do Centro de Alfabetização de Minas Gerais e distribuído pelo Programa Nacional de Alfabetização e Cidadania (PNAC) há três anos. Por que agora?

O motivo alegado pelo Governo é que professores e pais de alunos protestaram pelo fato de um dos contos, A Triste História da Eredegalda, recolhido por Brant da literatura oral popular brasileira, tratar da questão do incesto. A fábula conta a história de um rei que deseja se casar com uma das suas três filhas, a qual, por se negar, é castigada e morre de sede.

Um novo estudo do livro, solicitado pelo Ministério da Educação do Governo Temer, decidiu que as crianças do ensino primário “não têm maturidade e senso crítico para problematizar certos temas com alta densidade”.

Brant, que há mais de 30 anos pesquisa a literatura infantil, afirma que “o Brasil vive uma crise de inteligência” e que as autoridades do ministério não entenderam que é “muito melhor que as crianças entrem em contato com os temas difíceis através da literatura do que na rua”. Ele acrescenta que “a leitura nunca pode ser uma ameaça”.

No caso concreto do conto dele sobre o rei e sua filha, fica claro, segundo o autor, que as crianças se identificam com a menina castigada e desprezam o pai. E os alunos têm a oportunidade de escrever outros finais para a história.

Perguntado sobre o que sentiu ao ver 98.000 exemplares do seu livro serem retirados das escolas, Brant afirma: “Toda essa polêmica me surpreendeu. Primeiro recebi mensagens de professores incrédulos, e de repente um rio de mensagens de ódio. Por um lado os pentecostais me desejando o fogo dos infernos, e por outro ameaças de morte de grupos de extrema direita”.

Segundo o autor do livro retirado, os responsáveis pela decisão “não sabem que os contos de tradição oral em todos os tempos são palco de assuntos delicados. Existem justamente para alertar sobre os perigos do mundo”.

E, para Brant, que vive em Rio e já trabalhou com alunos de escolas de alto risco, esses perigos não foram inventados pela literatura, e sim pela vida. “Já trabalhei em escolas que, dia sim, dia não, são fechadas pelo narcotráfico. Agora mesmo, enquanto escrevo a você, ouço um tiroteio numa comunidade próxima. A vida expõe essas crianças aos terrores do mundo diariamente. Que espaço pode ser mais seguro para abordar com elas certos temas delicados do que o regaço seguro e afetuoso de um professor inteligente ou de um contador de histórias?” E acrescenta: “O segredo é a mediação, e cada vez nossas políticas de leitura no Brasil se preocupam mais com a compra e venda de livros do que com a capacitação de mediadores de leitura e com a formação de leitores”.

Na opinião dele, “a crise política está mergulhando o país em uma crise moral que deixa cada vez mais à margem a inteligência e o bom senso. Estamos voltando à Idade Média, aos tempos da Inquisição. Mas hoje se queimam livros sem tacar fogo”.

Mas o autor censurado não está só. Tem recebido uma onda de solidariedade, como ele mesmo indica, por parte de muita gente que defende uma educação laica e aberta nas escolas, capaz de abrir a mente e a alma das crianças.

A escritora infanto-juvenil Roseana Murray, autora de quase 100 livros publicados e premiada pela Academia Brasileira de Letras, escreveu no seu Facebook, comentando a polêmica censura do livro de contos de Brant: “Perigosa não é a literatura, e sim a vida. Perigoso é mesclar religião com educação, intolerância com literatura”. Ela acrescenta que “contos populares e de fadas existem desde tempos imemoriais e atravessam fronteiras de boca em boca. Às vezes são tristes, às vezes terríveis, mas ajudam as crianças a resolverem conflitos e abordarem temas difíceis, através da fantasia”.

É verdade, como afirma Brant, que na nova Inquisição de hoje no Brasil “queimam-se livros sem tacar fogo”. O dele acaba de ser queimado assim. Isso me fez lembrar uma frase célebre de um dos maiores poetas russos, o Nobel de Literatura, Joseph Brodsky: “O maior crime não é queimar livros, e sim não lê-los”.

O maior crime que o Ministério da Educação acaba de cometer não foi o de “queimar” o livro de contos de Brant, e sim o de privar as crianças de lerem boa literatura.

Não muito tempo atrás, dizia-se que o Brasil já havia tocado o futuro com as mãos. Hoje, percebemos que, infelizmente, no campo da cultura, da tolerância e da defesa das liberdades o Brasil está despertando novamente num passado que se esperava ter sido esquecido para sempre.

Juan Arias