quinta-feira, janeiro 18

Sempre pronto para levantar voo

Criação

Todos os escritores têm o direito de experimentar as possibilidades da língua através de todas as formas imagináveis e ampliar ao máximo o limite da sua eficácia. Sem esse espírito aventureiro, nada de novo será criado
Haruki Murakami

Leitora na calçada

edoardojazzy:
“ @Eduardo Gageiro
Évora, Portugal, Undated
”
Évora (Portugal), Eduardo Gageiro

Se eu soubesse...

Bebíamos o terceiro ou quarto uísque quando surgiu no infinito horizonte dos nossos copos vazios uma questão burguesa: afinal de contas, o que nos havia tornado humanos? Teria sido a alma dada por Deus essa inventora da consciência e da linguagem articulada - ou o tabu do incesto? Teria sido a proibição de comermos a nós mesmos como tende a fazer a democracia igualitária e o globalismo desenfreado?

Todos falaram, mas eu fiquei com aquele que soltou o seguinte: somos humanos porque temos o condicionante virtual: o “se” da frustração e do arrependimento. Ah! Se eu soubesse, ou pudesse...

Eis algumas coisas que ouvi.

*

letaobloquista:
“ Brassaï, Kiosque, circa 1930-1932, Paris.
”
Kiosque, Brassaï
Se eu soubesse o que hoje sei, eu não sei se estaria escrevendo essas linhas... Se eu soubesse que o “se eu soubesse” é algo recorrente - pois sempre pensamos saber mais do que sabemos -, não teria ficado tão magoado com meu pai... Se eu soubesse que a democracia americana ia dar em Trump, disse um tal de Alexis-Charles-Henri-Maurice Clérel de Tocqueville, teria refeito o meu livro Democracia na América... Se eu soubesse que insistir em pegar na mão dela ia me custar o emprego, teria ficado fiel ao meu inútil voto de castidade... Se eu soubesse que tudo o que fiz e ainda vou fazer vai ser fatalmente esquecido, teria pensado mais em escrever menos... Se soubesse o resultado da Mega-Sena, eu (diz um lado meu) estaria longe daqui... Se eu soubesse que o tempo realmente passa, teria terminado o livro que jamais vou escrever... Se eu soubesse que roubar era sinônimo de “cuidar do povo”, teria me suicidado politicamente... Se eu soubesse que a descoberta do planeta como um todo - o planeta visto de fora para dentro - ia me dar a certeza de que estamos matando o mundo, não seria otimista... Se eu soubesse que ser professor seria viver numa luta decepcionante contra a indiferença do saber em toda a parte, mas sobretudo no Brasil, teria - mesmo assim - sido professor... Se eu soubesse que o meu medo do escuro ia estar sempre ao meu lado, teria acendido a luz... Se eu soubesse que ia construir uma tribo, jamais saberia como a leveza do papel de avô compensa amplamente o papel pesado de pai... Se eu soubesse que iria ser vítima das intrigas humanas que, por sua vez, são o resultado não previsto das intrigas que os intrigantes realizam nas suas próprias cabeças, teria vivido com serenidade as calúnias assacadas contra mim... Se eu soubesse que, mesmo sendo o filho mais velho, poderia ter mais latitude para errar, burlar, brincar e pecar, talvez tivesse sido um artista - medíocre, sem dúvida - um ser mais alinhado com os encontros decisivos entre a força da vida e o silêncio dos túmulos... Se eu soubesse latim, francês e matemática como meus professores gostariam que aprendesse, seria engenheiro ou militar... Se eu soubesse que a ambição humana é tão ou mais poderosa que os protocolos, estaria menos preocupado com um mundo que exige muito menos de mim do que eu dele... Se eu soubesse de memória tudo o que ouvi dos meus professores, estaria num hospício... Se eu soubesse que não saber é uma condição da vida, não teria consultado aquela cartomante famosa, que tinha como clientes diplomatas, altos funcionários, frades e materialistas... Se eu soubesse que despertava tanta inveja, meu sentimento de culpa caberia num dedal... Se eu soubesse que o mapa social do Brasil estava traçado antes do meu nascimento, não teria me esforçado tanto - teria me esforçado muito mais... Se soubesse tudo, eu não teria que aprender nada... E se eu não soubesse nada, como foi o caso, não ficaria tão decepcionado em saber tão pouco... Se eu soubesse puxar o saco dos poderosos, teria ido muito mais longe... Se eu soubesse que ele ia morrer subitamente, lhe diria o quanto eu o amava todos os dias... Se meus pais estivessem vivos, eu iria perguntar tudo sobre a vida deles... Se eu soubesse que o passado jamais volta, exceto pelos bons momentos do presente, não estaria firme neste pedaço de jornal... 

quarta-feira, janeiro 17

Liberdade

https://livrosqueapaixonam.blog

Pensar é transgredir


Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos. 

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.

Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.

Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: "Parar pra pensar, nem pensar!"

O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.

Sem ter programado, a gente pára pra pensar.

Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.

Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.

Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.

Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.

Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.

Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.

Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.

Parece fácil: "escrever a respeito das coisas é fácil", já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.

Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.

Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.

E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

Lya Luft

segunda-feira, janeiro 15

Passeio de leitura

Rafael Mayani

Frases largadas na prateleira

Excetuando a maquilagem e o ar apalermado, era um morto irretocável.

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Morrer de amor há de ser um processo lento, doloroso e honesto.

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Às vezes pensa que morrer de amor pode ser, sim, mais um desses venturosos casos de predestinação.

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O melhor modo de conduzir um assunto amoroso ainda é o antigo: pela mão.

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O mais desanimador, em um sonetista, é que ele nunca se emenda.

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Os poetas antigos gabavam-se de sua intimidade com as flores e com as estrelas. Os modernos fingem não conhecê-las.

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Viver pela literatura é mais difícil e menos charmoso do que morrer por ela.

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Se for levado a um tribunal por praticar a poesia, um homem deve ter sempre um amor frustrado para apresentar como a mais legítima das defesas.

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Melhor um jabuti na mão que dois nobéis voando.

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Se nos acusarem de plágio, o ideal é que o nome de Shakespeare esteja várias vezes no processo.

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Ela nunca me chamou de tolo. Sempre se negou a reconhecer minhas virtudes.

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Procrastinar é o modo mais afetado de adiar.

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Desde o dia em que eu, num texto, chamei de farsante a esperança, as outras palavras começaram a fugir de mim.

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Maturidade é o nome que se dá ao desencanto, no final das biografias.

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Chego a um ponto do caminho em que, se quiser flores, preciso buscá-las na memória.

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Vicissitude é uma daquelas coisas que só começamos a sofrer depois que consultamos o dicionário.

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O problema dos fracassos poéticos é o que fazer com o encalhe de rosas e de bem-te-vis.

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Quando se apalpa ele ainda se sente: não está morto o suficiente.

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Ando cansado. Tudo me pesa. Hoje quis colocar duas rosas num texto e precisei deixar uma no meio de um parágrafo.

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O menino assumiu com a poesia um compromisso que depois o homem não conseguiu cumprir.

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Ao corpo, ao prazer, avante! Gozar o que há enquanto há. A carne dura um instante, amanhã morta estará.

Raul Drewnick

Objeto desconhecido

Capas

Não há dúvida de que uma pessoa que se apresenta lavada e arranjadinha convoca mais facilmente a simpatia dos outros do que um balda sujinho e com a fralda de fora. Com os livros passa-se o mesmo – e a capa é uma peça importantíssima para captar a atenção do leitor. Mas o marketing ultrapassou há muito o poder da (mera) arte e, infelizmente, as capas foram-se tornando nesta última década perigosamente pobres e semelhantes entre si, já não sendo possível a partir delas compreender muitas vezes o teor do recheio. Mesmo assim, o diretor de arte do The New York Times selecciona anualmente as capas que acha as mais bonitas ou as melhores em termos gráficos – e são essas que hoje vos mostro no link abaixo. A capa da tradução de O Livro de Desassossego (foto), do heterónimo pessoano, está entre elas. Vale a pena ver.

https://www.nytimes.com/interactive/2017/books/review/best-covers.html?smid=fb-share

domingo, janeiro 14

Mal acordou, já está a postos

O primeiro gesto atômico

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Ali, na fábrica de latas, no primeiro instante da era atômica, um ser humano era esmagado por livros
John Hersey, "Hiroxima"

Mesa bem posta

Flores e livros, Jorge Franco 

Assim começa o livro

E ali dentro está a vontade, que não morre. Quem conhece os mistérios da vontade e do seu vigor? Pois Deus não é mais que uma grande vontade, penetrando todas as coisas pela qualidade de sua aplicação. O homem não se entrega aos anjos, nem se rende inteiramente à morte, senão pela fraqueza de sua débil vontade.
Joseph Glanvill

Juro pela minha alma que não posso lembrar-me de como, quando ou mesmo precisamente onde travei conhecimento, pela primeira vez, com lady Ligeia. Desde então, longos anos decorreram, e os muitos sofrimentos por que passei perturbaram-me a memória. Ou talvez não possa recordar-me desses pormenores agora porque, na verdade, o caráter de minha bem-amada, seu raro saber, seu singular embora plácido tipo de beleza, a emocionante e aliciadora eloquência da sua veludosa fala musical, tivessem conquistado meu coração tão furtiva e constantemente que mal me dei conta deles então. Todavia, acredito que a encontrei inicialmente, e quase sempre daí por diante, numa grande, antiga e decadente cidade às margens do Reno. De sua família ouvi-a falar, com certeza, mais de uma vez. Que era de remota estirpe é fora de dúvida. Ligeia! Ligeia! Enfronhado em estudos de natureza tal que, melhor que quaisquer outros, abafam as impressões do mundo circundante, somente essa doce palavra — Ligeia — pode trazer-me de volta aos sonhos da fantasia a imagem daquela que não vive mais. E hoje, enquanto escrevo estas linhas, a lembrança que me vem como um clarão — nunca soube o nome de família da que foi minha amiga e noiva, depois se tornou a companheira de meus estudos e, finalmente, a esposa do meu coração. Fora travessa injunção de Ligeia, ou tratara-se, antes, de uma prova para medir a força do meu afeto, o não ter feito eu perguntas sobre esse ponto? Ou talvez tenha sido capricho meu, exaltada e romântica oferenda deposta no altar da mais fervente devoção? Mal me lembro do fato em si; não é de admirar que tenha esquecido as circunstâncias que o motivaram e acompanharam. De fato, se algum dia o espírito chamado Romance — se jamais a pálida Ashtophet do Egito idólatra, com suas asas tenebrosas, presidiu, como se diz, a esponsais de mau agouro, então, sem dúvida alguma, presidiu ao meu.

Há, no entanto, um assunto querido sobre o qual a memória não me trai. É a pessoa de Ligeia. Era alta de estatura, um tanto delgada e, em seus últimos dias, bastante emagrecida. Tentaria em vão descrever a majestade, o calmo desembaraço, a incompreensível leveza e elasticidade do seu andar. Ela chegava e partia como uma sombra. Nada denunciava sua entrada em meu gabinete de trabalho, a não ser a música querida da sua doce e veludosa fala, quando pousava a mão marmórea sobre meu ombro. Em beleza de rosto, mulher alguma a igualou. Era a radiância de um sonho de ópio, visão aérea e encantadora, mais exaltadamente divina que as fantasias a flutuarem sobre as almas dormentes das filhas de Delos. Não obstante, nada havia em suas feições daquele modelado regular que aprendemos a cultuar nas obras clássicas do paganismo. “Não existe beleza rara”, explica Bacon, lorde Verulam, referindo-se, na realidade, a todas as formas e genera de beleza, “sem algo de estranho nas proporções.” Todavia, embora me desse conta de que as feições de Ligeia não eram de regularidade clássica; embora percebesse que seu encanto era inegavelmente “raro” e sentisse o muito que havia de “estranho” animando-o, mesmo assim eu tentava inutilmente localizar a irregularidade e formular minha própria concepção de estranho. Examinava o contorno de sua fronte elevada e pálida — era impecável. Como poderia palavra tão inexpressiva ser aplicada a majestade tão divina! A cútis rivalizava com o mais puro marfim, e que dominadora calma e repouso nas gentis proeminências das regiões acima das têmporas! Negra como asa de corvo, a cabeleira brilhante, luxuriosa e mansamente ondulada dava pleno significado ao epíteto homérico — “hiacintina”. Olhava as delicadas linhas do nariz: em nenhum lugar, a não ser nos graciosos medalhões dos hebreus, havia eu visto semelhante perfeição. Era a mesma voluptuosa maciez de superfície, a mesma quase imperceptível tendência para o aquilino, as mesmas narinas harmoniosamente arredondadas a revelar o espírito livre. Olhava a boca encantadora. Ali estava indubitavelmente o triunfo de todas as coisas celestes: a curva magnífica do breve lábio superior, o jeito macio e voluptuoso do inferior, as travessas covinhas do rosto, a cor que falava, os dentes brilhando, de brilho quase cegante, aos raios sagrados que sobre eles infletiam, quando ela sorria o mais plácido, sereno e, ao mesmo tempo, o mais exultante de todos os sorrisos. Examinava a forma do queixo — nele também encontrava eu a graciosidade da largura, a maciez e majestade, a plenitude e a espiritualidade dos gregos, o contorno que o deus Apolo somente em sonho revelara a Cleómenes, o filho do ateniense. E, por fim, eu contemplava os grandes olhos de Ligeia.

sábado, janeiro 13

O bem e o mal, a escolher

'Enquanto escrevia, uma árvore...'

 Huseyin Sonmezay
Enquanto escrevia, uma árvore começou a penetrar-me lentamente a mão direita. A noite chegava com seus antiquíssimos mantos; a árvore ia crescendo, escolhendo para domínio as águas mais espessas do meu corpo. Era realmente eu, este homem sem desejos de outro corpo estendido ao lado? Já não me lembro, passava os dias a dormir à sombra daquela árvore, era o último verão. Às vezes sentia passar o vento, e pedia apenas uma pátria, uma pátria pequena e limpa como a palma da mão. Isso pedia; como se tivesse sede.
Eugênio de Andrade

Leitura não tem idade

A husband reading to his wife - in the park - via Copy Paste

Caminho da manhã

fotojournalismus: Lalibela, Ethiopia Kazuyoshi Nomachi
Kazuyoshi Nomachi
Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles escorre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada. 

Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, janeiro 12

Criança dá exemplo

yesterdaysprint:
“Punch Magazine, November 24, 1954
”
Punch Magazine (1954)

O amigo em papel

Edward Hopper Me encanta este artista!
Ler um livro é para o bom leitor conhecer a pessoa e o modo de pensar de alguém que lhe é estranho. É procurar compreendê-lo e, sempre que possível, fazer dele um amigo
Hermann Hesse