terça-feira, novembro 21

Lugar para se visitar... e sonhar

Livraria Ferin, em Lisboa (Pedro Alves)

A utopia das bibliotecas ideais

Perguntar hoje sobre uma “biblioteca ideal” é quase sempre uma utopia, além de um anacronismo: este é o dano causado à produção literária pelo marketing e a falta de um conhecimento consolidado por parte do leitor comum em matéria de literatura.

É possível que na Grécia do século V tenha existido algo assim como uma “biblioteca ideal”, como atesta a coleção, perdida em boa parte, mas documentada, da biblioteca de Alexandria. Salvo em casos de perda irremissível de muitas obras da antiguidade, aquela biblioteca helenística deve ter abrigado o que a tradição chegou a considerar a grande literatura em língua grega. Aconteceu o mesmo em Roma, cujos “rolos” de escritos, mesmo quando fossem de qualidade literária menos homogênea que a grega, demonstrariam que os retores, os gramáticos e os filósofos tinham clareza sobre o que poderia ser considerado ideal –de acordo com parâmetros religiosos, estéticos, políticos e didáticos – e o que deveria ser considerado non classicus, ou seja, de pouca categoria.

Também na Idade Média estiveram em vigor vários critérios, além do concebido por Aquino, tão aristotélico — ad pulchritudinem tria requirintur: integritas, consonantia, claritas —, para considerar o que era bom, ou o ideal, e o que era secundário, graças à autoridade da complexa rede de valores própria dos longos séculos do Baixo Império Romano, e depois neolatinos, com base primeiro na teologia cristã e depois no não menos poderoso código –a partir do século XII– da sociedade de cavalaria e feudal. A produção de literatura era então tão escassa, e se encontrava tão calcada em modelos que, direta ou indiretamente, procediam do dogma cristão, que era pouco concebível a criação de poesia, teatro ou épica contrários a uma ideologia e mitos que, como a realeza, se achavam por força impregnados de símbolos e argumentos predeterminados e inescapáveis. As bibliotecas medievais – deixando de lado os clássicos conservados pelas ordens monásticas e as casas nobres – foram quase sempre representações de um mundo simbólico no qual tinham um papel muito pouco significativo as amostras “heréticas”, pagãs ou não canônicas de expressão literária.

Somente a partir do humanismo, ou de fenômenos como a invenção da imprensa, a redescoberta da grandeza das literaturas grega e latina, a consolidação das línguas vulgares, o trabalho dos tradutores e o contato frequente entre homens de letras de países muito diferentes, só então, e de um modo progressivo, a literatura proliferou de maneira extraordinária; e os marcos conceituais, ou os “campos” do literário se tornaram tão distintos que surgiu pela primeira vez, em nossa civilização escrita, uma enorme disparidade de critérios, de gêneros literários, de assuntos e de públicos leitores ou ouvintes do que começou a constituir, com muita importância e cada vez maior autonomia, o âmbito universal do literário.

A partir dos primeiros séculos modernos o panorama literário apresentou tal variedade de formas, de recursos e de regulação estética que já então poderia ter começado a disputa –tão poderosa durante o século XVIII– sobre o clássico e o moderno, o bom e o ruim, o ideal e o reprovável. Cada vez mais, escrever se tornou um trabalho independente de nossa herança clássica, e os livros, quando já eram propriamente os códices acessíveis que continuamos usando, atenderam a critérios despojados de todo dogmatismo, propensos a satisfazer diferentes gostos, amigos da novidade e da singularidade. Não resta dúvida de que os clássicos greco-latinos, e a própria Bíblia, continuaram aquilatando uma grande parte das literaturas modernas e contemporâneas –veja-se Moby Dick, de Melville, por exemplo, e até mesmo Ulysses, de Joyce—, mas esta influência, no âmbito de produções inteiramente livres, passou a se tornar somente uma referência de autoridade, um vestígio reconhecido do acervo antigo.
Biblioteca gigante na China com a metade dos livros pintados
O panorama mudou ainda mais quando, na época posterior ao Iluminismo, as literaturas experimentaram uma exibição de ousadia fabulosa –caso das literaturas do Romantismo–, os índices de alfabetização se multiplicaram de modo exponencial e a leitura se tornou um hábito cada vez mais difundido, mais “democrático” e menos sujeito a qualquer forma de mitologia coletiva ou de dogmatismo teológico. Se ainda nos séculos renascentistas ou no Grand Sièclefrancês se pôde falar de uma “biblioteca ideal” ou do que podia ser idealmente a “boa literatura”, parece claro que, entre o século XIX e nossos dias, a literatura extravasou por completo as margens da tradição do “canônico”, de modo que atualmente não há quase nenhuma instância que possa arrogar-se o direito de estabelecer a lista do que chamaríamos “biblioteca ideal”.

Harold Bloom apresentou uma, muito famosa, em seu livro O Cânone Ocidental, no qual, sem dissimulação alguma, privilegiava a literatura inglesa, e Shakespeare em especial, com a mais absoluta tranquilidade. Uma tarefa assim é sempre inútil, já que existem, em nosso continente, muitos autores e livros hoje pouco lidos, mas de grande categoria, que durante um tempo ascenderam ao cânone literário ou caíram dele por razões que costumam ser circunstanciais, ideológicas ou partidárias. Basta ver a lista dos autores premiados com o Nobel de Literatura para se dar conta de que muitos deles subiram ao Parnaso do cânone literário –como aconteceu com o parnaso cervantino– para cair dele ao cabo de poucos decênios, ou até anos: veja-se o caso de nossos Echegaray e Benavente, o os casos de R.C Eucken (Alemanha), W. Reymond (Polônia) e E.A. Karlfeldt (Suécia).

A 11ª primeira edição da Enciclopédia Britânica (1911, com dois volumes complementares de 1920), na opinião de Borges a melhor edição de todas as que foram impressas dessa enciclopédia exemplar, mal sabia nessa data quem eram Flaubert, Melville ou Hölderlin, mas dedicava a Alfred Lord Tennyson, um poeta de autoridade muito relativa, doze colunas.

Bastam esses exemplos para compreender que as listas de uma “biblioteca ideal” pecam sempre por alguma arbitrariedade e costumam ter um valor de época, reconfigurado com o passar dos anos graças ao número de edições e de leitores que um livro pode chegar a ter, pela entronização de determinados autores valorizados pela academia ou de grupos fanáticos, ou pelo reconhecimento tardio de certos valores que passaram séculos no desvão do esquecimento.

A academia, e com ela os programas de ensino da literatura em escolas e universidades, seria há muito tempo a única garantia de conservação de um critério estético em relação ao mercado e à difusão de produtos literários. Com a autoridade dessas instâncias cada vez mais invisível e ineficaz, resta supor que cada leitor possua hoje sua biblioteca de excelências. Paul Valéry já tinha essa visão, em um verbete de seus Cahiers, sob a epígrafe “Obras-primas”: “Não é nunca o autor quem faz uma obra-prima. Deve-se a obra-prima aos leitores, à qualidade do leitor. Leitor dedicado, com fineza, com parcimônia, com o tempo e uma ingenuidade armada [...]. Só ele pode conseguir a obra-prima, exigir a particularidade, o cuidado, os efeitos inesgotáveis, o rigor, a elegância, a permanência, a releitura de um livro”. Valéry se referia a leitores muito capazes, como ele mesmo, mas é possível que, neste momento, nem sequer existam esses finos leitores em termos gerais. Por conseguinte, talvez devêssemos supor que, para o leitor comum de nossos dias, não exista melhor biblioteca ideal do que aquela que ele leu com prazer e que, no melhor dos casos, em um gesto novamente beneditino, conservará em sua biblioteca até a morte.

Jordi Llovet

segunda-feira, novembro 20

Leitura pela manhã

sylvainbuffet:
“Mona Trad Dabaji (1950) est une peintre contemporaine libanaise
”
Mona Trad Dabaji 

A morte e outras ocorrências

Uma de nossas mais frequentes bravatas é dizermos que estamos prontos para a morte, como se a morte fosse uma disciplina que se aprendesse com apostilas, empenho e provas bimestrais.

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Fazer arte pela arte é um princípio difícil de sustentar, mas – justamente por isso – de uma extraordinária beleza.

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Sempre considerei a falta de lirismo uma falha de caráter.

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Tristezas passadas movem ainda inúteis moinhos.


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Eu já nasci velho. Para piorar, deram-me leite parnasiano na mamadeira.

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O travessão é um hífen com mania de grandeza.

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Se os merecêssemos, os poemas cairiam como frutas das árvores quando nos deitássemos debaixo delas.

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De todos os pecados, o mais plagiado ainda é o original.

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Ter um alter ego não me favoreceu. Era simpático, não nego, mas escrevia pior que eu.

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Um gramático ostenta sempre aquele sorriso de quem pode, a qualquer provocação, tirar do bolso algo mais terrível que uma crase.

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Há os poemas de amor, e há os outros, que de vez em quando são apresentados para desmentir a teoria do tema único.

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O equilíbrio da beleza com toda a certeza está num gato numa ponta e outro na outra ponta do sofá.

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Não poucas rainhas, algumas insuperavelmente belas, traíram seus reis para se entregar a poetas – segundo relatos dos próprios poetas.

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Vejam só que pé-direito, convidou o poeta concretista, erguendo o braço para abarcar todo o seu poema.

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Era um poeta tão pobre que os pombos dividiam as migalhas com ele.

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Diante da poesia, sou ainda o menino bisonho a dois passos de seu primeiro pecado carnal.

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Era um arco-íris tão tímido e principiante que foi vaiado pelo público.

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Mesmo que a poesia nos desse só uma carteirinha e um distintivo, valeria a pena.

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Para ser épico, um poema concretista precisa ter pelo menos dez andares.

Raul Drewnick

domingo, novembro 19

Hora de tirar um do varal

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Leitor eunuco

Leslie Herman        Há pessoas que têm uma biblioteca como os eunucos um harém.   Victor Hugo   (é verdade, há quem colecione livros ...
Há pessoas que têm uma biblioteca como os eunucos um harém
Victor Hugo

Estranho no ninho!

Cotidiano 2015. Charge de autor desconhecido, recebida via Facebook (caso alguém conheça a autoria, favor nos comunicar, para creditarmos).

Fascinantes retratos

Em tempos menos bicudos, como outrora se dizia, eu costumava adquirir, para presentear, ainda sem destinatário certo, exemplares de algum livro pelo qual estivesse apaixonado. Escolhia o ganhador, entregava o livro e avisava, extrapolando na ênfase: se não gostar, devolva - e rompemos relações! Foi assim, por exemplo, com Marca d’Água, de Joseph Brodsky, sobre Veneza. Claro Enigma, de Drummond. Vista do Rio, romance de Rodrigo Lacerda. A Face Horrível, contos de Ivan Angelo. A Balada do Café Triste, de Carson McCullers. Devolução? Nenhuma - sinal de que, para literatura como para leitores, tenho faro bom.

Naquela farra - no momento suspensa, convém avisar, por motivo de rarefação pecuniária -, a obra que mais distribuí foi talvez O Príncipe e o Sabiá, coletânea póstuma de perfis escritos por Otto Lara Resende e selecionados por Ana Miranda. Saiu pela primeira vez em fevereiro de 1994. Disse alguém que, pouco antes de morrer, em dezembro de 1992, Otto andava às voltas com a seleção desses escritos, ao mesmo tempo em que, no afã de “despiorar”, como dizia, O Braço Direito, seu único romance, de 1963, praticamente o transformou em livro novo.

Tenho dúvidas de que Otto Lara Resende estava mesmo disposto a concluir um livro de perfis, aplacando assim as insistentes cobranças de amigos e editores. Era famosa a sua inapetência editorial. Para o cupincha Hélio Pellegrino, psicanalista além de poeta, Otto era um caso de bibliofobia.

Estátua de Otto Lara Resende
“Devemos a Graham Bell o fato de estarmos em qualquer lugar do mundo e alguém nos chatear por telefone. É um instrumento contra a solidão. Só que a solidão, às vezes, é absolutamente necessária”.

De fato, relutou até o fim em permitir reedição de qualquer de seus escritos, ou mesmo a circulação dos já impressos. Já contei dos esforços que fez para que eu lhe devolvesse um exemplar de O Lado Humano, o livro de contos com que estreou nas livrarias, em 1952, relíquia que ele próprio, num momento de descuido, me presenteara. Se em 1991 consentiu na publicação de uma seleta de contos, O Elo Partido, terá sido, acredito, como pagamento de pedágio da amizade que o ligava a Dalton Trevisan, responsável pela iniciativa. Foi preciso que Otto morresse para que sua obra, breve mas sólida, pudesse novamente circular para além das bibliotecas.

Junto com reedições, veio então o inédito O Príncipe e o Sabiá, que, além de encantar leitores em geral, aos poucos converteu-se em leitura obrigatória para jornalistas em formação, ou mesmo já rodados, como este cronista. Esgotado fazia tempo, o livro foi agora relançado pela Companhia das Letras, em edição ainda mais esmerada, acrescida de esplêndido posfácio de Wilson Figueiredo, outro craque do jornalismo, amigo de Otto desde os anos 1940. Desconfio que, remediava a atual anemia financeira, voltarei a buscar quem me pareça merecer O Príncipe e o Sabiá.

O gênero, perfil, me seduz desde sempre - existe neste mundo algo mais interessante do que gente? -, e Otto Lara Resende é para ele especialmente dotado. Chega a ser injustiça de Deus, se houver, a atribuição de tantos talentos a uma só pessoa. Não lhe bastasse ter sido um jornalista atento e afiado como poucos, Otto era dono, também, de cintilante texto literário, o que, no jornalismo, de saída o colocava vários palmos acima da maioria dos colegas. Para completar, tinha genuíno interesse no seu semelhante, fosse ele figura pública ou obscura pessoa.

Coisa rara, convenhamos, no ser humano em geral, essa capacidade de ver e ouvir, ainda mais em se tratando de artistas da palavra oral, como foi Otto, legendário causeur que, no meu panteão particular, só vejo ao lado de Antonio Candido, outro extraordinário conversador. Donos de verbo brilhante tendem a ignorar o verbo alheio, mais preocupados que estão em ressoar nos ouvidos do interlocutor, para eles plateia. Não é o caso dos supracitados, capazes também de se interessar pelo outro e por seu ponto de vista, abertos até mesmo a eventuais mudanças de opinião. Otto dizia que, por isso, não lhe convinha ser apresentado ao demônio.

Ao contrário do que em geral acontece, não se confinava ao universo dos que pensassem como ele. Aberto também a seu dessemelhante, não me surpreende a quantidade de gente com quem dialogou em 70 anos de vida. Fernando Sabino, que o conheceu na adolescência, gostava de propor o duríssimo desafio de apontar uma só figura pública da vida brasileira com quem Otto Lara Resende não tivesse batido uma bola. Também por isso é natural que tenha sido o perfilador que foi.

Sei que você merece, mas não fique à espera de ganhar de mim seu exemplar de O Príncipe e o Sabiá. Recomendo ir sem mais tardança a essa galeria de impecáveis retratos. Lá estão escritores como os três grandes Andrades - Mário, Oswald e Drummond -, Manuel Bandeira, Graciliano, Clarice, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Murilo Mendes. Estrelas políticas de variadas galáxias, entre elas JK, Getúlio, João Goulart, Carlos Lacerda e o ditador português Salazar. E muita gente mais.

Do que mais gostei? Não ponha num aperto quem se deliciou da primeira à última página, aí incluído o posfácio do Figueiró. Se eu votar, digamos, em “Jânio, ao cair da tarde: 1961”, corro o risco de estar sendo injusto com todos os demais escritos deste livro.

Ah: não acredite no Otto quando ele diz que é “melhor minerador dos outros do que de mim mesmo”. O desmentido está ali, mesmo, num texto tão cativante quanto vertiginoso, praticamente sem parágrafos, feito por instigação de Paulo Mendes Campos que, um dia, perguntou ao amigo: “Quem é Otto Lara Resende?” Duvido que se pudesse achar fecho melhor para O Príncipe e o Sabiá.

 Humberto Werneck 

sábado, novembro 18

Leitura na praia

callmepale:
“at Good Harbor Beach, Edward Hopper
”
Edward Hopper

Assim começa o livro...

Num dia nublado, mas luminoso, por volta das quatro da tarde de 1º de abril de 192... (um crítico estrangeiro observou certa vez que muitos romances, como a maioria dos alemães, começam com uma data, mas só os autores russos é que, fiéis à sinceridade peculiar de nossa literatura, omitem o dígito final), uma caminhonete, muito comprida e muito amarela, rebocada por um trator também amarelo, com rodas traseiras hipertrofiadas e uma anatomia descaradamente exposta, parou na frente do número sete da rua Tannenberg, na parte oeste de Berlim. A caminhonete trazia em sua fronte um ventilador em forma de estrela. Ao longo de toda a lateral, havia o nome da empresa de mudanças em letras azuis de um metro de altura, cada uma (inclusive um ponto quadrado) com um sombreado lateral em tinta preta: uma desonesta tentativa de escalar até a próxima dimensão. Na calçada, diante da casa (na qual eu também irei morar), duas pessoas paradas que obviamente saíram para receber sua mobília (na minha mala há mais manuscritos que camisas). O homem, vestido com um sobretudo áspero marrom-esverdeado ao qual o vento atribuía um ondular de vida, era alto, de sobrancelhas hirsutas e velho, com o grisalho da barba cor de ferrugem na área da boca, na qual prendia impassivelmente um toco de charuto meio desfolhado. A mulher, atarracada e não mais jovem, com pernas em arco e um rosto pseudochinês bastante atraente, usava casaco de astracã; o vento, ao rodeá-la, trouxe um vestígio de perfume bastante bom, embora igeiramente mofado. Os dois estavam imóveis, olhando fixamente e com tamanha atenção que pareciam a ponto de ser ludibriados pelos três sujeitos rudes, de pescoço vermelho e aventais azuis que batalhavam com sua mobília.

Algum dia, pensou ele, devo usar essa cena para começar um bom romance antiquado e volumoso. A ideia fortuita vinha tocada por uma ironia displicente; ironia, porém, bastante desnecessária, porque alguém dentro dele, em seu nome, independente dele, havia absorvido isso tudo, registrado e arquivado. Ele próprio só havia se mudado para ali hoje, e agora, pela primeira vez, na condição ainda desacostumada de residente local, saíra para comprar algumas coisas. Conhecia a rua e, de fato, todo o bairro: a pensão de onde se mudara não ficava longe; até agora, porém, a rua havia girado e deslizado para um lado e outro, sem nenhuma conexão com ele; hoje, ela de repente havia parado; de agora em diante, ia assentar como uma extensão de seu novo domicílio.

sexta-feira, novembro 17

Pensamento

Xtoriasdacarmita: Palavras que encontrei

As cartas em que Jorge Amado e José Saramago suspiravam pelo Nobel

Foi uma amizade da velhice. O baiano, com 80 anos completos, e o português com 10 a menos. Durante cinco anos, entre 1992 e 1997, Jorge Amado e José Saramago trocaram cartas e faxes para comentar suas crises literárias e de saúde, próprias da idade e da profissão. Paloma, filha do brasileiro, e Ricardo Viel, da Fundação do Nobel português, organizaram aquela relação epistolar e selecionaram as cartas incluídas no livro Jorge Amado/José Saramago – Com o Mar por Meio.

Disciplinado e organizado por seu passado de militante comunista e exilado, Amado aproveitou o advento da fotocopiadora para deixar um minucioso registro das cartas e faxes enviados, segundo conta sua filha. Graças a isso a Fundação Casa de Jorge Amado conserva quase 70.000 documentos epistolares de 1930 a 1998, com remetentes como Pablo Neruda, Jorge Guillén e Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

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Nos cinco anos de correspondência entre Amado (1912-2001) e Saramago (1922-2010), destacam-se os comentários sobre as distinções que lhes chegam ou não. “Acabamos de receber a notícia de que o Camões foi para Rachel de Queiroz”, escreve Saramago em julho de 1993. “Não discutimos os méritos da premiada, o que não entendemos é como e porque o júri ignora ostensivamente (quase apeteceria dizer: provocadoramente) a obra de Jorge Amado. Esse prêmio nasceu mal e vai vivendo pior. Os ódios são velhos e não cansam".

“Já há anos que o Lobo Antunes andava por aí a dizer que o seu objetivo era o Nobel”, lhe escreve Saramago

Os dois escritores se adaptam aos tempos, e suas saudações voam graças ao fax, com tamanha intensidade que o aparelho de Jorge não dá conta. “Nosso fax da Bahia incendiou no domingo (...). Foi um belo espetáculo: o fax parecia um vulcão, fez-nos falta. Vale dizer que, além do fax, os peritos eletricistas de uma tevê conseguiram colocar fora de uso os três aparelhos de tevê, a secretária eletrônica, um computador e os jogos (vários) eletrônicos do neto Jorginho, uma catástrofe”.

A fama de Saramago vai crescendo no Brasil, e o baiano lhe recorda que só Ferreira de Castro alcançou tal reconhecimento na sua época, e que “apenas permanece, eterno, o grande Eça de Queiroz. Não sei se José é devoto do autor de Os Maias, eu sou muito devotíssimo”. Saramago lhe responde rápido, dois dias depois: “Onde está o bárbaro capaz de não reconhecer a grandeza desse senhor, até agora nunca igualada?”.

Comunistas irredutíveis, Amado confessa –talvez esperando reprimenda – que votaria no social-democrata Fernando Henrique Cardoso para presidente do Brasil. “Compreendo que te tenhas decidido por ele”, escreve-lhe o português. "Ainda que não possa deixar de pensar que os males do Brasil não se curam com um presidente da República, por muito democrata e honesto que seja. E tu bem sabes, melhor do que eu, que a democracia política pode ser facilmente um continente sem conteúdo, uma aparência com pouquíssima substância dentro".

A possibilidade de que algum dos dois autores ganhe o Nobel é tema recorrente em seus anos epistolares, tanto que, caso acontecesse, comprometiam-se mutuamente a convidar à cerimônia o amigo preterido. “Há anos Lobo Antunes anda por aí a dizer que seu objetivo é o Nobel”, escreve Saramago. “Continuaremos, os demais, vivendo tranquilamente, mas não há dúvida de que esse prêmio é uma invenção diabólica”.

Entre inúmeras revisões oftalmológicas, o autor de Gabriela, Cravo e Canela anuncia que já tem 10 páginas de A Apostasia Universal de Água Brusca. “A ideia é tentadora: a luta pelo poder entre os grandes senhores feudais, os coronéis e a alta hierarquia católica. Falta-me resolver os problemas da narrativa propriamente dita.”

Em 1994, Amado recebe finalmente o prêmio Camões, e o português o felicita à sua maneira: "O pior é que isto de prêmios não é raro que tragam um ressaibo de amargura, e o Camões, não sendo exemplar, é exemplo. Tanta miséria moral mal escondida, tanta inveja, tanto desejo de morte por trás das fachadas compostas de muitos que, num dado momento, vão ser juiz e sentença...Quando estiveres a receber o prêmio, pensa só nos teus leitores, são eles que valem a pena".

Amado se adapta a "um estranho dispositivo (metade máquina de escrever, metade computador) que a Olivetti preparou para minha visão curta, que é como a oftalmologia chama os ceguetas". Voltando de uma viagem, o escritor e sua esposa, a também romancista Zélia Gattai, anunciam que estão "cansados e arruinados. A intervenção do Banco Central no Banco Econômico, onde estava todo nosso dinheiro, nos deixou com os bolsos vazios; ainda há uma leve esperança de recuperação, cada dia menor. Mas, bem, estamos vivos".

"Não é altura de fazer considerações sobre o sistema capitalista", lhe responde o autor de Ensaio Sobre a Cegueira, "mas a verdade é que estamos nas mão deles. Uma coisa fica clara aqui: não somos ricos, mas se vos podemos ser úteis, não tendes mais que dizer".

Leia mais

Transpiração

Qué palabras se estarán escapando de los libros? Por qué huyen? (ilustración de Kat Menschik)
Kat Menschik

Google celebra o 107° aniversário de Rachel de Queiroz

O Google está exibindo um doodle especial em homenagem a escritora, jornalista, tradutora e dramaturga brasileira Rachel de Queiroz.

“Doodle de hoje comemora o que teria sido seu 107º aniversário de Queiroz por sua contribuição para a literatura brasileira e o caminho para as mulheres autoras depois dela”, diz o Google.

A empresa destacou a história da escritora:

“Rachel de Queiroz foi uma proeminente escritora brasileira e a primeira mulher a se juntar à Academia de Letras do país.

Seu primeiro livro, O Quinze (Quinze), foi publicado em 1930, quando tinha apenas 20 anos e trouxe sua fama instantânea. Ao retratar a luta diária do povo do Nordeste do Brasil contra a seca e recursos escassos cimentou sua reputação como uma poderosa contadora de histórias.

Ao longo dos próximos 70 anos, Queiroz passaria a escrever mais de 2000 cronicas, passando da literatura para o jornalismo, a escrita e a tradução.”

quinta-feira, novembro 16

Recanto preferido

Mi rinconcito en la biblioteca (ilustración de Iraida Llucià )
 Iraida Llucià

Z, de Zahar

Biografias de livreiros e editores costumam valer mais pelas histórias envolvendo seus editados do que pelos lances da vida, nem sempre palpitante, do biografado. Se Hemingway, Fitzgerald e Thomas Wolfe, sobretudo estes, não tivessem caído em suas mãos, na Scribner’s, o insípido cotidiano de Max Perkins renderia, no máximo, um perfil. A rejeição do primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido proporcionou a Gaston Gallimard o mais memorável episódio de sua biografia. O italiano Giangiacomo Feltrinelli foi uma exceção à regra, pois um dia aderiu à guerrilha urbana e explodiu-se num atentado terrorista frustrado.

Em março de 1998, o então repórter de cultura Paulo Roberto Pires pautou para O Globo um perfil de Jorge Zahar. Modesto, Zahar ressalvou: “Mas eu sou low profile”. De fato era; mas que exemplo de vida e permanente dedicação ao livro e à cultura nos legou. À frente da editora que levava seu nome, por ele criada em 1957, lançou praticamente todos os autores fundamentais das mais variadas áreas do conhecimento, das ciências sociais à ciência política, da economia à antropologia, das artes à mitologia.

Um catálogo sem igual. Que nunca descumpriu a promessa do slogan da editora: “A cultura a serviço do progresso social”. Se nossa sociedade, como um todo, não progrediu, nós, fiéis e glutões consumidores dos lançamentos da Zahar, progredimos à beça intelectualmente.

Luís Schwarcz, da Cia. das Letras, o segundo “filho adotivo” de Jorge (o primeiro foi Paulo Francis), considerava seu mentor não o melhor, mas o nosso único editor. “Nós que restamos somos meros comerciantes”, acrescentou, com sincera modéstia. Jorge era o seu ideal, o seu exemplo de dignidade profissional e comportamento humano. Apesar de “low profile”, Jorge merecia mais que um perfil; merecia um livro com a densidade e o carinho do biográfico A Marca do Z, que Paulo Roberto Pires, agora editor da revista Serrote, do Instituto Moreira Salles, acaba de lançar.
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O Manual de Sociologia, de Jay Rumney e Joseph Maier, foi o cartão de visita da Zahar, seguido de Uma História da Música, de Otto Maria Carpeaux, cuja teimosia em cuidar, ele próprio, da revisão, sem o necessário know how, provocou a primeira turbulência na editora. E vieram as sumidades: Robert Heilbroner, J.K. Galbraight, C. Wright Mills, Paul Sweezy, Geoffrey Barraclough, Freud, Erich Fromm, Karl Mannheim, Arnold Toynbee, Sir James Fraser, a dupla Adorno-Horkheimer, Ronald Laing, Wilhelm Reich, Marcuse, Erwin Goffman, Philippe Ariès, Florestan Fernandes, Gilberto Velho, Roberto DaMatta.

Eliminei vários nomes, para não saturá-lo, prezado leitor, mas me afligiria omitir três dos títulos que mais contribuíram para a reputação da Zahar: A História da Riqueza do Homem (de Leo Huberman), A Necessidade da Arte (de Ernst Fischer) e A História da Arte (de E.H. Gombrich). Sem contar, claro, os soberbos dicionários de música (não menos que o da Grove), ópera e pensamento marxista.

Jorge só editava o melhor de cada especialidade. O clássico de Huberman - uma história do capitalismo desde a Idade Média até as vésperas da Segunda Guerra Mundial - vendeu 300 mil exemplares e nunca saiu de catálogo, há 19 anos mantido com o mesmo nível de exigência por Cristina Zahar, filha do editor.

Todos os anos, às vésperas do Natal, ele reunia um seleto grupo de amigos para um coquetel no escritório da editora, na rua México 31. Ênio Silveira (outro editor histórico e quase um irmão para Jorge), Millôr, Carlos Heitor Cony e Flávio Rangel encabeçavam o elenco. Em meio ao papo gostoso e inteligente, regado a Cutty Sark, o uísque preferido do anfitrião, este ligava para Paulo Francis, em Nova York, a fim de que todos os presentes trocassem meio dedo de prosa com o companheiro distante e lhe desejassem um Merry Christmas.

E assim foi até 1996. No Natal seguinte, o primeiro sem Francis do outro lado da linha, Jorge, ao despedir-se de mim, comentou, com lágrimas nos olhos: “Vai ser duro nos acostumarmos à ausência do nosso Francis”. No Natal de 1998, maldita ironia, o ausente seria o próprio Jorge.

Bem longe do Rio quando ele morreu, em 11 de junho de 1998, aos 78 anos, a princípio relutei escrever sobre o amigo para este caderno, onde então publicava dois artigos por semana. Receava nenhuma novidade ter a acrescentar aos obituários e testemunhos publicados pelos jornais do dia seguinte. Mas, ao flanar por Manhattan, cruzei com um imenso outdoor anunciando a estreia do filme A Marca do Zorro, com Antonio Banderas. E aos poucos me dei conta de que a cidade fora tomada por cartazes promovendo o filme, às vezes só com o Z, a marca do mascarado herói, riscado com a ponta de uma espada.

Era um sinal, intimando-me a escrever o que quer que fosse sobre Jorge e sua marca. Alguma coisa mais pessoal sobre ele devia ter sobrado para o meu adieu. Sobrara.

Da memória puxei uma de suas virtudes, intocada pelos jornais, talvez porque só os mais íntimos a conheciam. Jorge era um epicurista. Adorava compartilhar com os amigos descobertas gastronômicas, levadas tão a sério quanto os autores que selecionava para sua editora. Pires dá conta de sua paixão por cèpes (um cogumelo selvagem), mas, com tantos aspectos mais relevantes a abordar no livro, preferiu não perder tempo na cozinha.

No final dos anos 1980, ao ouvir que dali a uma semana eu visitaria o Museu Rodin, recomendou: “Vá de manhã e aproveite para almoçar ali mesmo na rue de Varenne, num restaurante excelente, cujo nome não o recomenda: Arpège”. Até então Arpège só me evocava perfume cafona, boate, Waldir Calmon, motel. Continua me evocando tudo isso, mais a lembrança de um opíparo déjeuner e a pequena preleção sobre os dotes culinários do chef Alain Passard ministrada por Jorge, um paizão gourmet que, segundo Millôr, “morreu sem errar”.

Sérgio Augusto 

quarta-feira, novembro 15

Olhai os lírios dos campos!

#nonmimosemalibri Il Lettore Forte regalerebbe mazzi di libri a tutte voi. A tutti noi.

Leitor eletrônico faz 10 anos, mas pode sumir antes do livro de papel

Há mais ou menos uma década, uma profecia amedrontou o mercado editorial: o livro de papel, essa invenção de cinco séculos, estava com os dias contados. Seu algoz seria o leitor eletrônico, o tal e-reader, que faria as pessoas trocarem o folhear de páginas pelo toque em botões num aparelho esquisito: Kindle. Lançado há dez anos pela Amazon, ele não foi o primeiro da categoria, mas virou seu sinônimo. Apesar disso, a profecia apocalíptica daqueles dias parece longe de se cumprir.

A verdade é que o livro tradicional continua aí, firme e forte. Além disso, os e-readers não fazem parte do cotidiano de muita gente. Segundo a consultoria Euromonitor, 131 milhões de aparelhos foram vendidos no mundo desde 2007. Após um pico em 2011, as vendas só caíram (ver gráfico abaixo).

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No Brasil, a base instalada desses aparelhos é quase insignificante: desde 2010, quando começaram as pesquisas no País, só 76,2 mil e-readers foram comercializados por aqui. O ano em que se comprou mais desses aparelhos por aqui foi em 2015, com 16,2 mil unidades – em cinco anos, porém, menos de 10 mil dispositivos serão comprados por brasileiros.

Além disso, segundo dados da Câmara Brasileira do Livro (CBL), os e-books – o conteúdo que motiva a compra desses aparelhos – representaram apenas 1,09% da receita das editoras no País em 2016. Ao todo, 2,75 milhões de e-books foram vendidos aqui em 2016, contra 39,4 milhões de livros de papel.

Tropeços. Há diversos motivos para a revolução prometida pelo Kindle – e seus rivais, como o Kobo, da Rakuten, e o Lev, da Saraiva – não ter acontecido. O primeiro deles é que há leitores que simplesmente não conseguem se acostumar. “O livro de papel tem uma dimensão artística e aspectos sensoriais, como tato e olfato; o e-reader, não”, diz Thiago Salla, professor de Editoração da Universidade de São Paulo.

Além disso, por ser um dispositivo dedicado à leitura, o leitor eletrônico tem um público-alvo reduzido. São poucas as pessoas que topam pagar caro por algo que não vão usar tanto. Nos EUA, a média de leitura é de 12 livros por ano. No Brasil, o cenário é pior: a média é de 4,96 livros lidos por ano. “A falta de leitores é um problema histórico do nosso mercado e não mudou com o livro digital”, diz Luís Antonio Torelli, presidente da CBL.

Outro fator que mudou a rota do e-reader foi o smartphone, que também ganhou impulso em 2007, com o iPhone. Se no início esses aparelhos tinham poucos recursos e telas pequenas, pouco convidativas à leitura, hoje eles se tornaram “canivetes suíços” contemporâneos com telas gigantes de até 6 polegadas.

Para Elton Morimitsu, analista da Euromonitor, os smartphones tornaram os e-readers menos atraentes. “O consumidor está disposto a investir em um aparelho que agrega diversas funções”, diz.

É por isso que hoje, em vez de falarem só nos dispositivos, as fabricantes de e-readers preferem o termo “ecossistema de leitura digital”, que compreende também apps para leitura em dispositivos móveis e nos PCs. Hoje, segundo Samuel Vissotto, diretor da Kobo na América Latina, 75% do tempo gasto pelos leitores da Kobo é no aplicativo, contra 25% nos e-readers.

É evidente que há diferenças de experiência entre o smartphone e o e-reader. “O celular não foi desenhado para a leitura e oferece distrações aos usuários, como redes sociais e jogos”, diz Arthur van Rest, diretor global de Kindle na Amazon. “É a diferença entre a leitura casual e a leitura dedicada.”. A existência do smartphone, porém, permite que os usuários flertem com a leitura digital, sem precisar firmar um relacionamento sério com um leitor eletrônico.

Resistência. Nesse cenário complexo, impressiona o lançamento de novos modelos de leitores eletrônicos todos os anos. A explicação está no fato de que o usuário do e-reader é um bibliófilo – capaz de ler (e comprar) muitos livros. Isso faz as empresas ganharem não com hardware, mas com conteúdo.

Segundo a Kobo, quem tem e-reader compra o dobro de e-books que aquele que só usa o aplicativo da empresa. Na Saraiva, quem tem um Lev compra 20% mais livros de papel e e-books. Já na Amazon, quem navega entre diferentes formatos consome três vezes mais livros. “O mercado tinha receio do digital canibalizar o livro físico. Aconteceu o contrário: eles se complementam”, diz Gustavo Mondo, gerente de e-commerce da Saraiva.

Epílogo. No futuro, o e-reader parece ter dois caminhos. Ou segue vivo, como um objeto de nicho, mas rentável o suficiente para se manter de pé; ou será “morto” pelo smartphone. “Ainda acho que o e-reader tem seu tempo de vida, mas a curva de inovação nos smartphones e suas telas pode mudar esse jogo”, diz Vissotto, da Kobo. “Se eu tiver um celular com tela realmente boa de leitura, que não canse a vista, e uma configuração para desligar notificações, a experiência será bem parecida com o e-reader.”

Em entrevista ao Estado em 2010, o filósofo Umberto Eco defendeu que o livro de papel seria um objeto eterno, como a colher, o machado e a tesoura. Na época, foi bastante criticado, mas hoje, sua visão integrada (e nada apocalíptica) parece mais próxima da verdade. Por ironia do destino, quem deveria “matar” o livro de papel pode, na verdade, morrer primeiro que ele. Sinal dos tempos.
Bruno Capelas e Andre Klojda (O Estado de S. Paulo)

Para aproveitar o feriado...

Amazing pictures and colours by Monica Carretero
Monica Carretero

Nada além de ninharias

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Escrevo coisas pequenas, ninharias. Que se canse o artista e maldiga seu ofício, enquanto eu assobio e vou fazendo minhas bijuterias.

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O traço mais comovente dos mortos é a resignação com que se submetem ao terno e à gravata.

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Se o que você sente é amor, não receie ser pródigo; tema ser avarento. Dê o coração, entregue a alma, e ainda será pouco.

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A gramática perde o acento, mas não perde o pelo.

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Louve-se a tenacidade dos poetas românticos. Eles se esforçavam para merecer a morte.

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De todos, o sindicato mais ranheta é o das categorias gramaticais.

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Que defunto acabado! Parece que passou três noites na farra.

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A gramática histórica é prova de que nós não somos suas primeiras vítimas.

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Se perdermos a confiança nos defuntos, quem nos soprará os números da megassena?

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Hipocondria parece, mas não é doença de cavalo.

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O morto perderá os benefícios se for apanhado rindo no exercício de suas funções.

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Gostaria de saber como eram, quando não eram o que são, as frases feitas.

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Na aula de física, a poética intromissão: vento é o ar em movimento.

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O que falta ao nosso sofrimento de hoje é aquela esperança de poesia.

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Que lástima! Pifou a engrenagem do Deus ex machina!

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O poeta romântico e o concretista fizeram uma aposta para ver qual deles conseguiria produzir o melhor arco-íris caseiro. Por muito menos se acendia o sagrado fogo da Inquisição.

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Sou um velho impertinente que me aturo cada vez menos.

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Pode haver dez gatos numa casa. Nenhum deles será coadjuvante.

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Como negar que os gatos são superiores? Que outros matadores de passarinhos nós perdoaríamos com tanta facilidade?

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Uma quadrinha o que não pode é ter a pretensão de tornar-se um quarteirão.

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Por mais modesto que seja, um soneto acaba exibindo seus dentes de ouro.

Raul Drewnick